terça-feira, 6 de setembro de 2016

Da importância da prolixidade

Foi no final de uma aula de redação na oitava série que ouvi aquilo pela primeira vez. Deu o sinal para o intervalo, todos os alunos se levantaram para sair correndo, e o professor me segurou. "Bruno, por favor, venha cá um instante". Com um sorriso meio amarelo no rosto, ele disse: "Você escreve bem, gostei do texto dessa semana". Fez uma breve pausa e prosseguiu. "Mas tem um probleminha que identifico em quase todas as suas redações: você é prolixo".

Nunca havia sido qualificado como prolixo até então. De acordo com o professor, eu poderia me expressar melhor se fosse direto ao ponto, evitando "dar tantos rodeios", como ele disse. Segundo ele, isso gera um mal estar no leitor, um misto de ansiedade, por querer saber logo onde o autor quer chegar e, depois, desinteresse. Um texto prolixo, continuou o professor, pode fracassar na comunicação. 

Lembro que, na hora, não dei muita bola. E confesso que até fiquei um pouco lisonjeado, afinal eu carregava um adjetivo sofisticado, exótico, incomum, pensei. Eu não era o baderneiro, o piadista, o bobo, o bagunceiro ou o preguiçoso da sala. Eu era O Prolixo da sala! Imaginei a diretora mandando um recado para minha mãe, dizendo que "seu filho ficará suspenso por três dias por cometer atos de prolixidade contra os colegas". Imaginei eu andando pelos corredores e os outros garotos com medo de mim, tipo "não mexe com ele, cara, ouvi dizer que é prolixo".    

Mas aí, nos anos seguintes, ouvi isso mais algumas vezes. Eu já tinha uma noção do que era ser prolixo, mas ainda não compreendia a dimensão do termo. Para o dicionário Houaiss, "prolixo" é aquele que "usa palavras em demasia ao falar ou escrever, que não sabe sintetizar o pensamento". É, ainda, alguém "cansativo por estender-se demais no tempo, que tende a arrastar-se". Também quem "produz em abundância".  

Tendo isso em mente, tive de lidar com a sina de ser prolixo. Nas aulas de redação do cursinho, 30 linhas nunca eram suficientes. Na faculdade (de jornalismo, que ironia), eram páginas e mais páginas gastas em seminários ou reportagens especiais. "Legal, mas isso você pode cortar, não?". O chamado "nariz de cera", jargão muito usado no jornalismo para expressar um parágrafo introdutório vago, sem necessidade e que demora para dar a notícia, era comum. Trabalhar numa emissora de televisão chegou a ser uma tortura, porque minha função era escrever notas do tamanho de um post no Twitter, com o qual, aliás, nunca me dei bem. Jamais consegui me comunicar em 140 caracteres.

Passado um tempo, comecei a entender que a prolixidade não é uma patologia da comunicação, como alguns querem fazer crer. Ela é reflexo de como vejo o mundo, ou seja, de como me coloco no mundo. Por anos, senti vergonha de ser assim. Alguém que praticamente fala enquanto pensa e, assim, não consegue entregar, por meio da fala, um pensamento pronto, com começo, meio e fim, com palavras na medida certa. 

Quando eu conhecia uma garota e começava a sair com ela, em algum momento eu dizia: "preciso lhe confessar uma coisa, sou prolixo". Geralmente a garota ria, mas, diante da minha expressão rígida, recuava e me perguntava, "isso é um problema?". 

Até hoje me pergunto, é um problema ser prolixo?

Em uma sociedade que a cada dia cria novas doenças, medicalizando comportamentos, não me surpreenderia que, em breve, colocassem a prolixidade na lista do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês), publicado desde a década de 1950 pela Associação Americana de Psiquiatria para auxiliar profissionais da saúde mental a identificar e diagnosticar transtornos mentais. Nas últimas décadas, o DSM vem sendo acusado de transformar problemas cotidianos ou traços de personalidade em transtornos, dignos de tratamento alopático, como é o caso da dislexia.

Um sociedade que valoriza a rapidez, os resultados, o lucro e a eficiência espera que você, quando abrir a boca, diga apenas o suficiente, nada além do necessário. Que seja breve, vá direto ao ponto. Não há tempo para desvios, esquecimentos, pausas, mudanças de assuntos. Não abra parênteses, nos dê apenas pontos finais. Livros de auto-ajuda querem que você se comunique melhor para arranjar emprego, namorada, dinheiro. Para ser bem sucedido, fale com clareza, com firmeza, não demonstre dúvidas. Poucos se dão conta, a ditadura do discurso sucinto é tão repressora quanto qualquer outro tipo de ditadura. Os tempos condenam o "textão", o áudio de 5 minutos, o vídeo de 10. 

O problema é que (eu pelo menos entendo assim) a vida não é uma estrada que nos leva do ponto A até o ponto B. E, sendo a linguagem representação da vida, o excesso de regras pode castrar o livre pensar e o livre falar, levando à repressão das ideias. Sim, porque muitas vezes somos bombardeados por muitas ideias, que transbordam nossa capacidade de organizá-las na mente, dificultando, assim, a capacidade de expressá-las de maneira organizada. A confusão faz parte, não é uma exceção. Mas os padrões de consumo nos dizem que não podemos ter tempo para pensar e nos confundir, para refletirmos, irmos e voltarmos atrás quantas vezes quisermos. Porque a fila do caixa anda. Na dúvida, leve os dois, é mais rápido e prático.

Vejo o prolixo como o anarquista da linguagem. Enquanto muita gente o vê como alguém que não consegue sair do lugar, que "dá rodeios", na verdade é o oposto: na cabeça do prolixo, as palavras, as imagens e as ideias dançam ao som de uma sinfonia, tão complexa quanto a vida externa. E é essa sinfonia e essa dança que o inspiram a pensar e agir. Ele não quer deixar passar detalhes, pormenores às vezes tão sutis que são tratados como irrelevantes pelas pessoas de fala "eficiente". Quem desqualifica o excesso corre o risco de perde-se no vazio dos verbos de ação. 

O prolixo tem um peso político e uma responsabilidade literária, artística. Sua capacidade de perder-se na fala e alongar-se nas descrições e nas explicações pode render (nem sempre isso acontece, é verdade) frutos inesperados. Pois é da divagação e da livre articulação de pensamentos que o processo criativo se alimenta, pelo menos em parte. 

Experimente ser prolixo por um dia. Comece a escrever sem se preocupar com o número de caracteres ou de páginas. Sem se preocupar em ser "claro, conciso e objetivo". A ideia de objetividade é tão artificial quanto a de prolixidade. 

E não falo de prolixidade apenas na escrita ou na fala. Falo de prolixidade enquanto posicionamento no mundo. Por exemplo, sempre preferi amores prolixos, daqueles em que podemos, sem medo, nos perder no outro sem que esperemos algo disso. É poder ficar horas diante do outro, sem achar que foi uma perda de tempo. É não pensar em "preliminares" como um "nariz de cera", e sim pensar a comunicação entre duas pessoas como um todo - corpo, mente, alma - sem ter de colocar as partes numa ordem de importância. Não existe hierarquia, quando o mais importante é sentir e fazer sentir.

O prolixo coloca-se no mundo como uma bússola desregulada, que uma hora aponta para o norte, depois, inesperadamente, para o sul. A sociedade da eficiência joga no lixo uma bússola desregulada ou, então, manda para o conserto. Pois, desde cedo, aprendemos que desviar do norte é estar perdido. E estar perdido é errado, é perda de tempo. No entanto, ao pensarmos diferente, valorizando o erro e assumindo que somos seres erráticos, podemos entender que jamais se perde tempo com nada. 

Sento diante de uma imensa parede azul. Tão grande e tão azul que meu olhar se perde desesperado. Para onde olhar? Não há sequer um ponto para o qual eu possa olhar fixamente! Olhar para um Universo sem estrelas e pontos de referência seria muito mais perturbador, não? Nossa cultura civilizatória nos ensinou a temer o Nada. O lugar-nenhum que jamais visitaremos, não por falta de interesse, mas por medo. 

Diante do papel em branco, despejo meus pensamentos e ideias. Como descrever, com poucas palavras, aquilo que me arrebata por completo? Um artifício: fingir que tenho claras as ideias. Fingir que tenho conclusões. Fingir que falo apenas o necessário.

Ser editor de si mesmo é a finalidade. E a regra. Finalidade que evito. Regra que burlo. 

Se não fosse minha prolixidade, eu não teria chegado a onde não pensei em chegar. 

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sexta-feira, 10 de junho de 2016

A dança dos fantasmas e Derrida

Ghost Dance (1983)do diretor britânico Ken McMullen, é um filme experimental sobre as concepções de fantasmas, passado e memória. Cinema, psicanálise e filosofia formam a base conceitual do filme, que mistura imagens do mar, de cidades, sons e tensões.




A ideia de que fantasmas são a memória de algo que nunca esteve presente está na obra, que traz em cena o filósofo francês Jacques Derrida em interação com a atriz francesa Pascale Ogier.

Ogier pergunta a Derrida: você acredita em fantasmas?

"Você está perguntando a um fantasma se ele acredita em fantasmas. Aqui, o fantasma sou eu", responde o filósofo.

Derrida interpreta a si mesmo, em um filme improvisado, não-linear. E logo argumenta: "o cinema é a arte dos fantasmas. É a arte de permitir que os fantasmas retornem".

Em entrevista publicada em 2001 na revista Cahiers du Cinéma, intitulada "O cinema e seus fantasmas", Derrida mostra a relação de sua ideia de fantasma com a desconstrução metafísica. Um Karl Marx que ainda assombra o contemporâneo, o presente, está no imaterial, ainda que tenha uma materialidade.

O filme - o cinema - evoca fantasmas no espectador. São assombrações, associadas ao modo como cada um retoma imagens, cenas que tocam, sensibilizam. Nisso, o cinema se aproxima muito da psicanálise.

"O cinema mais a psicanálise é igual à ciência dos fantasmas", diz Derrida. "Freud teve de lidar com fantasmas durante toda a vida".

Derrida depois correlaciona a comunicação epistolar com a comunicação telefônica e as telecomunicações. "Acredito que o desenvolvimento de tecnologias modernas em telecomunicações não vai diminuir o reino dos fantasmas. Acredito que os fantasmas são parte do futuro. As modernas tecnologias associadas às imagens aumentam o poder dos fantasmas e a habilidade de nos assombrar".






segunda-feira, 18 de abril de 2016

O palco do estado de exceção

Wilson Dias/Agência Brasil


A história mostra que o estado de exceção é a resposta imediata do poder do Estado aos conflitos extremos. O exemplo mais famoso é o Estado nazista. Assim que tomou o poder, Hitler suspendeu artigos da Constituição referentes às atividades individuais. Isso durou 12 anos.

Em Estado de exceção, Giorgio Agamben explica que o totalitarismo moderno pode ser entendido como a instauração, por meio do estado de exceção, de uma guerra civil legal "que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político".

Em alguns casos, observa-se a criação de estados de emergência permanentes, apenas aparentemente democráticos.

No caso brasileiro, vemos que não se trata do governo, mas sim do sistema político inteiro (Câmara e Senado) oscilando entre democracia e absolutismo, andando na corda bamba do estado de exceção.

O que vemos hoje no Brasil é a suspensão da ordem jurídica a favor de um golpe, que em nada busca acabar com a corrupção. Pelo contrário: está clara a intenção de evitar que a locomotiva da operação Lava-Jato termine por não deixar pedra sobre pedra.

Verdadeiras rochas, que há tempos fazem peso-morto na política nacional, estão por trás das ações que culminaram na votação do processo de abertura do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Uma maneira muito comum de fazer a população em geral (a grande massa) aprovar o estado de exceção, instituído sorrateiramente, é fazer com que ele adquira o significado do luto público.

Dando ares de luto diante do caos milimetricamente editado em páginas de jornais, consegue-se muito mais do que apoio formal: são alteradas as relações sociais. Diante de Dilma-Ameaça, a "não-governante", que teria deixado o país afundar na lama, o terror instaurado é a base de sustentação do terreno armado para o impeachment.

Ele, o impeachment, é retirado do plano jurídico e constitucional e transposto para o plano do espetáculo. Tal qual Midas, o impeachment tornou-se figura pública, adquiriu status de herói épico. Ao tocar o Estado corrupto, irá transformá-lo em Estado de ouro.

A personificação do impeachment serve para esconder o rosto do algoz, ou algozes. Na TV, na transmissão ao vivo direto da Câmara dos Deputados, na verdade vota-se no impeachment e não pelo impeachment.

O retrato da Câmara dos Deputados é o retrato da anomia, uma violência jurídica marcada pelo esvaziamento do direito. Segundo Agamben, o estado de exceção não é uma ditadura, mas sim "um espaço vazio de direito, uma zona de anomia em que todas as determinações jurídicas - e, antes de tudo, a própria distinção entre público e privado - estão dasativadas".

Para Durkheim, na situação de anomia não fica claro o que é justo ou injusto, legítimo ou ilegítimo. Abre-se espaço para o mal-estar, a frustração. Na Câmara, no último dia 17 de abril, após horas de votação e discursos carregados de significados privados (a família, a crença em deus etc.), não ficou claro a que se quer fazer justiça.

Da irracionalidade dos discursos à vitória do impeachment, o luto deu espaço à festa. O humor muda, da água para o vinho, tal qual o fez o filho desse deus que está na boca de muitos parlamentares.

Se há uma crise, esta é marcada pela ambiguidade. Sendo que a ambiguidade maior é entre democracia e absolutismo. 

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“O estado de exceção apresenta-se como a forma legal daquilo que não pode ter forma legal” - Agamben.












quarta-feira, 13 de abril de 2016

Jornalismo especializado em lavar as mãos

No jornalismo, há quem se especialize em cobrir política. Há quem opte por economia, cultura, moda, ou ciência. E por aí vai. Em todas as especialidades, porém, há quem ainda se especialize em lavar as mãos. Ou seja, seguir fórmulas pré-concebidas de jornalismo, tais como ouvir os dois lados ou ouvir quem realmente entende do assunto. O problema é que tais receitas nem sempre podem ou devem ser seguidas à risca, mas busca-se segui-las como forma de garantir o "bom jornalismo". Lavo minhas mãos, fiz minha parte.

Explico, seguindo o exemplo do jornalismo de ciência, ao qual estou acostumado. Em uma pauta sobre mudanças climáticas, por exemplo, quem deve ser entrevistado? Logicamente, pesquisadores que defendem a ideia de que as mudanças são ocasionadas em boa parte pela ação do homem. Eles apresentarão dados, evidências e estudos para sustentar essa visão, que é a mais aceita, a teoria mainstream.

Nessa mesma pauta, caberá dar espaço aos céticos - aquele grupo minoritário de pesquisadores que acreditam que a ação humana não interfere no clima? Muitos cientistas e jornalistas especializados em ciência acreditam que não, pois basicamente se trata de um discurso com pouco embasamento científico, baixa aceitabilidade entre as instituições científica.

Os cientistas que se opõem aos céticos reclamam que os jornalistas às vezes dão espaço desnecessário a essa turma. Os jornalistas, por sua vez, dizem ceder espaço aos céticos pois aprenderam na faculdade que devem ouvir os dois lados.

Nesse caso particular, entendo que tanto cientistas quanto jornalistas podem estar equivocados. Os pesquisadores que defendem a visão de que o ser humano é responsável pelas mudanças climáticas acreditam que os céticos têm pouco a contribuir no debate. Acreditam também que eles abusam do discurso retórico, e que isso não é fazer ciência. O fato é que os céticos são, sim, cientistas. Têm os mesmos direitos, por exemplo, de acessar fontes de apoio à pesquisa. Além disso, é do embate entre controvérsias que a ciência avança.

Já os jornalistas deveriam entender que, ao contrário do que parece, a ideia de dois lados é simplista, muitas vezes utilizada como ferramenta de linguagem para dar ao texto uma aparência de pluralista. Em alguns casos, botar o outro lado no texto serve apenas como efeito, simulacro de uma imparcialidade que não existe. No caso do clima, talvez nem sempre seja o caso de dar voz aos céticos, se o desejo do jornalista for de apenas mostrar que seguiu as regrinhas do bom jornalismo. Os céticos devem aparecer se de fato tiverem algo de interessante a dizer. Se a reportagem puder tratá-los com seriedade, tal qual os demais pesquisadores são tratados.

Caso contrário, as minorias sempre aparecerão na reportagem apenas de forma decorativa.

Outro exemplo: reportagens que tratam da pesquisa com biodiversidade. Há vários atores envolvidos nisso: cientistas, empresas farmacêuticas e de cosméticos, órgãos de governo, órgãos jurídicos. Há também os povos indígenas, pequenos agricultores e comunidades tradicionais, como os quilombolas, que detém os conhecimentos associados a plantas, animais e microrganismos nativos.

Numa reportagem sobre a produção de um novo medicamento feito a partir de uma planta da Amazônia, por exemplo, devem ser ouvidos todos esses atores (empresa, pesquisadores, governo, índios etc.)? Nem sempre. Depende do objetivo da pauta. Se é lançar luz sobre a tecnologia em si, provavelmente os índios que detém o conhecimento sobre a planta ficarão de fora. É o que geralmente acontece. Muitos jornalistas de ciência têm consciência da complexidade que circunda os temas de que tratam, mas acreditam que se abrissem espaço para fontes não-científicas, estariam "fugindo" do jornalismo científico. Por se denominarem jornalistas de ciência, está de bom tamanho ouvir apenas aqueles que estão do lado da pesquisa? Talvez seja o que muito pensam.

Contudo, uma reportagem pode ser de ciência e também abrir espaço para que outros atores não-científicos possam dizer o que pensam de um assunto que é comum a eles e também à ciência. 

Há outras dimensões em torno de uma questão complexa. Na falta de espaço ou de tempo para dar conta dessa complexidade, caberia apenas indicar ao leitor que, sim, a reportagem é apenas um recorte, um grão de areia.




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O que é científico para Rubem Alves

Uma sabedoria de vida foi calada: não era científica. Rubem Alves tinha um colega com todas as credenciais e titulações, que estava escrevendo um livro no qual contava o que havia aprendido ao longo da vida. O texto, no entanto, não estava sendo muito bem aceito na academia. "Eles dizem que o que escrevo não é científico".

Para Rubem Alves, o caso sugere que as inquisições de hoje, não é mais a Igreja que as faz.

O que é científico? É preciso dizer que o método científico é uma das principais preocupações dos filósofos, desde pelo menos o século 17. É graças ao sucesso do método científico que a ciência moderna conquistou posição de autoridade. O termo "científico" é frequentemente empregado em diversas situações para dizer que algo é bom, tem qualidade comprovado, é confiável. Creio que a maior parte dessa autoridade se deve mais ao sucesso prático do conhecimento científico, gerado a partir do método. As bases são: observação, experimentação e indução.

As observações são, a rigor, neutras: antes de qualquer especulação ou teorização, o cientista deve apenas observar. As induções consistem em obter proposições gerais a partir de proposições particulares. Proposições gerais são as leis científicas. Proposições particulares são os relatos produzidos pela observação.

Isso é o que podemos chamar de visão comum da ciência, como lembra Silvio Chibeni, professor do Departamento de Filosofia da Unicamp.

Para explicar o que é científico, Rubem Alves contava uma história.

Havia uma aldeia às margens de um grande rio, que fascinava e dava medo, pois muitos haviam morrido em suas águas misteriosas. Por conta disso, os aldeões construíram altares a suas margens, e neles o fogo sempre estava aceso. Em torno desses altares, as pessoas cantavam e declamavam poemas.

O rio era morada de seres misteriosos. Alguns saltavam e mergulhavam, e assim desapareciam. Outro apenas revelavam suas sombras deslizando nas profundezas, sem subir à superfície. Nas conversas à roda do fogo, contavam-se histórias de sereias, monstros e dragões.

Tudo, no entanto, eram suposições. Os moradores da aldeia nunca haviam conseguido capturar uma única criatura do rio.

Tudo o que havia sido produzido a partir das suposições - magias, encantações, religiões - foi inútil. Por gerações, aliás.

Até que um dia um aldeão teve uma ideia: criar um objeto para pegar criaturas do rio. Ele teceu uma imensa rede, e isso foi motivo de chacota na aldeia. Todos riram dele. Sem dar bola para isso, o aldeão amarrou a rede como pôde e foi dormir.

No dia seguinte, ao puxar a rede, viu que nela estava enroscado uma das criaturas, um peixe dourado.

Aqueles que haviam passado anos tentando pegar uma criatura dessas usando feitiçaria ficaram irritados. Acreditaram que o aldeão tinha utilizado algum outro tipo de magia e então o ameaçaram com a fogueira.

Outro ficaram alegres e quiseram aprender a tecer redes também. Em pouco tempo, muitas redes foram fabricadas. Várias foram lançadas ao rio. E muitos outros peixes foram capturados.

As pessoas que fabricavam e pescavam logo se tornaram importantes na aldeia. Elas tinham em mãos a técnica da confecção de redes e o método da pesca. Isso porque havia peixes que serviam como alimento, outro eram usados como medicamentos e até para fertilizar campos. Essas poucas pessoas passaram a ser respeitadas e até invejadas.

Sabendo do poder que tinham, esses "pescadores fabricantes" se organizaram em uma confraria. Para pertencer a ela, era necessário saber tecer redes e pescar.

Com o tempo uma coisa estranha aconteceu. De tanto tecer redes, pescar e falar sobre peixes e redes, os membros dessa confraria acabaram esquecendo a linguagem que os habitantes da aldeia sempre haviam falado e continuavam falando.

Rubem Alves cita Wittgenstein, que dizia: "os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo."

Assim, os membros da confraria passaram a acreditar que só era real aquilo sobre o que eles conseguiam falar, ou seja, o que era pescado com suas redes. Qualquer coisa que não fosse peixe, ou que não fosse apanhado com suas redes, eles desqualificavam. "Não é real."

Quando falavam a eles sobre nuvens, por exemplo, eles perguntavam: com que rede isso foi pescado?

Quando falavam de cores, cheiros, sensações, amor, poesia, a resposta era a mesma: com o que isso foi pescado? Não foi com rede? Então não é real.

As redes eram boas? Claro, sem dúvida. Os peixes eram igualmente bons? Com certeza. No entanto, as redes não serviam para pescar tudo o que existia no mundo.

Há criaturas mais leves, mais sutis e delicadas, mas absolutamente reais.

No livro que o colega de Rubem Alves escrevia, havia a história de um sabiá. O sabiá, que ele mesmo criara. O rapaz sabia muito sobre o sabiá, e muito desse conhecimento era fruto de observações não-científicas: o homem ouvia o cantar do pássaro, interagia, brincava. Os editores do livro perguntaram: o que há de científico nisso?

"Cientistas são aqueles que pescam no grande rio. Mas há também os céus e as matas que se enchem de cantos de sabiás. Lá as redes dos cientistas ficam sempre vazias", concluiu Rubem Alves.




segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

24 horas sem Bowie


Lembrado pela "multifacetada" carreira na música e no cinema, David Bowie sempre me despertou a curiosidade por outro motivo. Imagino, por exemplo, como teria sido se, em vez de seguir no caminho que seguiu, tivesse optado por uma vida, digamos, mais 'normal'. Teria feito parte de uma banda aqui, outra ali, tocado em alguns bares, e conciliado isso com uma vida de assalariado, trabalhando em alguma agência de publicidade. Seria um artista de fim de semana? Um pai de família que "arranha um violão de vez em quando"? 

Isso me leva a pensar mais longe. Teria sido possível David Robert Jones nunca ter se tornado David Bowie?

Em Juventude, o escritor sul-africano John Maxwell Coetzee conta a história do jovem John, recém-formado em matemática, cujo maior sonho é se tornar artista, mais precisamente um poeta. Tornando-se artista, pensa John, ele teria acesso a uma vida mais interessante, movida a grandes paixões, cercado de mulheres lindas. Elas, aliás, seriam responsáveis pelo "fogo sagrado" da inspiração artística. 

Em busca disso tudo, John deixa a África do Sul, em meados dos anos 1960, e parte para Londres. Lá, pensa ele, teria melhores condições de criar, de ser visto, de conhecer gente e levar uma vida semelhante a da maioria de seus escritores favoritos, marca pela boemia e pela agitação intelectual.

J.M. Coetzee, autor de Juventude
Mas sem dinheiro, John busca emprego na então promissora área de programação de computadores. É contratado pela IBM em Londres, onde depara-se com uma vida tediosa, burocrática, pouco inspiradora. São poucos os momentos em que John demonstra alguma reação. O medo de não dar certo, de fracassar na literatura e de precisar retornar para a casa dos pais fazem com que o jovem perca, aos poucos, o desejo de ser escritor. Vem a conformação, a frustração.

E se o personagem da obra de Coetzee tivesse reagido, desistido da IBM, da programação de computadores? Havia chances de dar certo, assim como poderia fracassar. Quem sabe?

O fato é que quando li esse livro, imediatamente comecei a refletir muito sobre essa questão: o que faz um artista vir a ser um artista. A parte as questões subjetivas ligadas à aptidão, ao talento, criação familiar, influências, condição econômica e social, há, em nossa cultura civilizada, a prevalência de uma espécie de senso de sabotagem, segundo o qual certos desejos são compartimentados na esfera dos sonhos, da possibilidade - nunca da realização concreta.

Chaplin, por exemplo, era de uma família extremamente pobre. Tentou seguir no cinema e deu certo. poderia ter sido diferente? Nesse caso, jamais saberemos. E quantos outros "Chaplins" tentaram, mas não conseguiram? E há também aqueles com talento muito inferior, que conseguem.

O fato é que, tanto na ficção de Coetzee quanto na realidade de Bowie e de outros artistas icônicos, há um denominador comum: a experiência. Antes de desejar qualquer coisa, as pessoas desejam experimentar. E esse é o desejo, ao meu ver, mais importante, algo como um desejo primitivo. A experiência é capaz de nos livrar da banalidade, enquanto a não-experiência, ou seja a negação da experimentação primitiva, pode nos empurrar para o abismo da padronização, da conformidade. 

Em Juventude, John oscila entre momentos de pura experimentação e de negação da experiência. Essa última ocorre quando percebe que talvez não tenha talento. Na verdade, a sensação de não ter talento para a escrita pode ser produto da pressão à sua volta: como, em sã consciência, um jovem rapaz com futuro brilhante em uma grande multinacional como a IBM pode ser louco de pedir demissão e se arriscar em algo incerto.

A sociedade que abomina a loucura e o incerto já deve ter desabilitado muitos artistas. Quando não aniquilado mentes criativas, cuja inquietude não cabe na mesa de um escritório da IBM.      

   




sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Mário de Andrade: Poemas da Negra

Fundo Mário de Andrade - Série Fotografia-IEB
Eu imaginava
Duro vossos lábios,
Mas você me ensina
A volta ao bem

[trecho de Poemas da Negra, 1929, de Mário de Andrade]

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Fosfoetanolamina e os "cabeças de planilha" na ciência e na medicina

Dia desses, fui visitar minha avó. Ela tem Alzheimer há alguns anos. Interage com as pessoas, sorri e diz uma palavra ou outra, mas já não reconhece quem está à volta. Naquele dia, ela estava mais agitada na cama. Desesperado, querendo acalmá-la, saquei o celular do bolso e, aproximando o aparelho da orelha direita dela, deixei soar "Clair de Lune", do compositor francês Claude Debussy (1862-1918).

Minha avó arregalou os olhos, abaixou os braços. O humor se estabilizou num calma demonstração de agrado em relação ao som. Deixei o celular perto do travesseiro dela e, aliviado, fui à janela. Lembrei que, meses antes, visitando uma casa de repouso para idosos para escrever uma reportagem sobre musicoterapia, tive a oportunidade de presenciar uma sessão - para não dizer festa - em que músicos de um projeto coordenado por um maestro visitam asilos, hospitais e orfanatos e levam música a esses ambientes geralmente pouco agradáveis.

Na época em que escrevi a reportagem, me cobraram evidências científicas que comprovassem que a musicoterapia realmente pode melhorar os quadros de depressão em pacientes. Cheguei a citar um estudo ou outro que apresentam, por meio de metodologias que determinam matematicamente os níveis de depressão, resultados segundo os quais pacientes em ambientes hospitalares têm os níveis de depressão reduzidos quando participam de projetos de musicoterapia. No entanto, análises desse tipo são raras, uma vez que o efeito da música no indivíduo é algo muito subjetivo, difícil, portanto, de ser detectado ou medido de acordo com os critérios e padrões científicos.

Às pessoas que me cobraram esse tipo de abordagem, sugeri que tentassem ampliar um pouco o campo de visão e olhassem para o fenômeno da musicoterapia não com as lentes da ciência ortodoxa, mas com os olhos nus de seres humanos que somos. É simples: há um impacto positivo inegável na vida dos pacientes que são submetidos a terapias musicais. Basta visitar um desses lugares para ver idosos se movimentarem, sorrirem, inclusive aquele vovô rabugento. Como representar isso em gráficos, números, estatísticas? Não sei, mas os resultados, vivos, notórios, pulsantes, estão aí, diante dos nossos olhos.

Nem tudo cabe dentro de um artigo científico. Nem sempre os parâmetros da ciência são capazes de fornecer respostas. Quando isso não acontece, o que deve ser feito? Os bons cientistas (que são poucos, em um mar de pesquisadores tecnólogos) irão reconhecer as limitações de suas ferramentas diante de um fenômeno ainda misterioso ou pouco conhecido e farão de tudo para compreendê-lo, sem desqualificá-lo.

Os maus cientistas (sim, eles existem, e não são raros) primeiramente desqualificarão o objeto que por eles não pode ser medido, analisado, compreendido ou explorado. Depois, caso haja uma pressão na sociedade ou mesmo de setores da própria comunidade científica, irão se debruçar sobre o objeto, tentando adaptá-lo aos moldes da ciência. Se o objeto, ou fenômeno, não puder ser explicado pela ciência, imediatamente será rebaixado ao posto de "não-científico", "charlatanismo", "crença", "placebo", etc.

Não defendo charlatões. Também não sou criacionista, antes que me acusem de inimigo da ciência.

O tom de meu argumento é o seguinte: quando algo ainda não pode ser comprovado cientificamente, a resposta deve ser no sentido de desqualificar?

Se a música anima os velhinhos, que visivelmente se sentem mais dispostos, animados e contentes, quem é o pesquisador que dirá o contrário? Ou que se sente no poder de meter um carimbo "atestando" que isso ou aquilo funciona, do ponto de vista científico?

Há exceções? Sim. Fosfoetanolamina. Não vou explicar do que se trata aqui, muito menos fazer resumão dos últimos acontecimentos em torno da fosfo, porque há notícias aos montes na internet. Diferentemente da música, o caso da fosfo exige sim mais cuidados científicos. Se eu pegar meu contrabaixo elétrico, ir até uma casa de repouso, tocar as coisas esquisitas que toco e ninguém curtir, o máximo que vai acontecer é: pessoas dormirem, vaiarem, atirarem tomates e eu serei convidado a me retirar. Mas ninguém vai morrer.

Com a fosfo, é diferente. Sem conhecimento técnico dos efeitos do componente no organismo de pacientes que utilizam essa substância como tratamento contra o câncer, há risco de que ela possa causar mais mal do que bem - talvez a médio e longo prazos.

O que diferencia os cientistas e entusiastas da fosfo dos cientistas que defendem que a substância não seja utilizada enquanto não sejam concluídas todas as etapas de testes clínicos é o seguinte: os primeiros têm a visão do todo, ou seja, da complexidade que envolve o câncer, inclusive das implicações subjetivas nas vidas de pacientes e familiares. Os últimos também conseguem visualizar um mundo complexo, mas o mundo complexo sob a óptica científica apenas. Há ainda os médicos, que também se posicionam sobre o assunto.

O caso da fosfo e da música que botei para minha avó ouvir são parecidos, em certa medida. Desesperado ao ver minha vó se debatendo, agitada, gritando, agi por impulso: dei a ela música, que era o que eu tinha em mãos. Eu não sou pesquisador do Alzheimer; talvez um especialista dissesse a mim: não adianta você botar música, isso não mudará o quadro da doença. Ou diria: que bom que a música ajudou, embora não possamos comprovar que isso dará certo com outros pacientes.

No caso da fosfo, diante da ausência de um medicamente que de fato combata o câncer, parentes e pacientes recorrem ao que há disponível e que está dando resultado, mesmo que ainda não tenha sido legitimado pela ciência. Sabem dos riscos, mas não querem mais sofrer.

É justo dizer a eles: esperem, ainda não concluímos todos os testes?

Do ponto de vista ético sim. Mas no caos da dor, o que vale é ter acesso à abundância de possibilidades, muitas das quais carentes de respaldo científico.

Aceitamos que um rapaz maior de idade possa fumar um cigarro com milhares de substâncias que foram cientificamente comprovadas tóxicas, usando o argumento de que o indivíduo tem o direito de decidir sobre o próprio corpo. Por que não aceitar que o mesmo rapaz, que depois pode ter um câncer de pulmão, não possa ter o direito de utilizar a fosfo, como saída última para a cura?

Tal qual algumas religiões se posicionam contra o aborto, e os críticos contestam afirmando que as mulheres é que têm direito de decidir o que fazer com o próprio corpo, não estariam alguns cientistas agindo de maneira semelhante?

É evidente que os testes clínicos devem ser feitos. E não se trata de um debate entre "defensores da ciência" e "inimigos da ciência", até porque a fosfo é um produto da ciência.

Mas um produto que, uma vez inserido num contexto social, ganha uma autonomia que escapa à própria ciência. Porque o mundo é dessas coisas, nem sempre exato. Nem sempre testável e nem sempre certo.

Nem sempre a ciência e a medicina ortodoxas darão conta de toda a complexidade da vida.

O caso da fosfo tem nos ensinado que uma simples substância - portanto um ser "não-humano" - tem autonomia suficiente para provocar uma revolução na sociedade, independentemente do consenso científico ou dos padrões da medicina. Os debates em torno dela mostram que em muitas situações o método científico não atende às demandas urgentes da sociedade. Quando isso não acontece dentro de um prazo curto, como nesse caso, a melhor saída é mandar prender os envolvidos por tamanha ousadia: tentar salvar vidas?

Na ciência, assim como na economia e em outras áreas, há aqueles que podemos apelidar de "cabeças de planilha". A expressão é muito usada pelo jornalista Luis Nassif. Assim como há economistas que tentam entender a economia por meio apenas de planilhas, sem levar em conta variáveis externas e sem capacidade de ver e entender fenômenos de mercado, há também os cientistas que agem de forma semelhante, que se agarram em métodos e parâmetros mesmo que a realidade externa demande mais flexibilidade e novas dinâmicas.



  

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Série: Jornalistas e blogueiros: Herton Escobar

Crédito: Arquivo Pessoal / Facebook
O quinto post da série de entrevistas com jornalistas de ciência que também são autores de blogs é com Herton Escobar. Jornalista d'O Estado de S.Paulo desde 2000, Herton é autor do blog Imagine só!, hospedado no site do jornal. É um dos poucos blogs de ciência no país a dar mais espaço para temas de política científica.


Blog do Bruno de Pierro - Você escreve em blog de ciência há quanto tempo?
Herton Escobar - Desde 2008. O Imagine só! começou naquele ano.

Como se deu sua estréia num blog de ciência? Foi um convite do jornal ou foi você que propôs?
Foi uma iniciativa minha. Naquela época já existiam alguns blogs do Estadão, mas bem menos do que hoje. Não me lembro quantos, exatamente. Nasceu de um desejo meu de ter um canal alternativo para desaguar algumas ideias e conteúdo que não tinham espaço no jornal impresso. Isso inclui coisas bacanas da ciência, que não são necessariamente notícia. Elas não entravam no noticiário, mas eu achava legal e queria escrever a respeito delas. Também tinha ali umas ideias, uma coisa mais do dia a dia. Eram coisas que estavam livres das amarras do noticiário.

Escrevendo num blog de ciência, você podia escrever sobre assuntos que a própria ciência e o jornalismo de ciência poderiam deixar em segundo plano?
Era mais coisa de ciência básica. Não era notícia, não era do hard news, algo que justificasse escrever uma matéria para o jornal. Mas eram temas que tinham algo de curioso. A primeira descrição do blog era algo como "As maravilhas científicas do universo a nossa volta". Tinha uma proposta de explicar, por exemplo, o que são as estrelas. Tinha um componente de educação, mas não necessariamente atrelado a algum estudo novo ou alguma notícia. Podia ser só um tema que eu achasse legal e quisesse escrever.

Quando você começou com o blog, você já tinha um bom tempo de jornalismo. Houve alguma dificuldade no início? E o que você notou de mais latente em termos de linguagem? Você teve que se livrar de vícios do jornalismo? Pôde explorar uma linguagem mais pessoal?
A linguagem do blog é bem diferente da linguagem de um noticiário. Ela é muito mais flexível, muito mais personalizada. Você não precisa ter necessariamente um lead e pode desenvolver algo mais narrativo. É mais soft também. Você não tem a necessidade de entrevistar ninguém para ter aspas e diferentes pontos de vista. Eu vejo como um espaço de articulista, porque teoricamente eu posso escrever o que eu quiser. Quando você é repórter e blogueiro ao mesmo tempo, você precisa ser cuidadoso pra que o que você escreve no blog não comprometa sua imparcialidade como repórter.

Dê um exemplo.
Eu sempre cobri muito células tronco embrionárias e os transgênicos. É claro que eu tenho minhas opiniões pessoais sobre todos esses temas polêmicos. No blog, a gente pensa em escrever tudo o que quer, mas várias vezes tive que me segurar e fazer uma auto-censura para não comprometer minha imparcialidade como repórter do Estadão. Ao escrever reportagens, eu tenho minha consciência limpa de que consigo separar minhas opiniões pessoais do trabalho de reportagem. Mas se você escancara isso no blog, é inevitável que isso seja cobrado de você. Por mais que você faça o trabalho de maneira imparcial, você dá pano pra manga para as pessoas questionarem o seu trabalho.

E essa relação com o jornal? Eu vejo que às vezes você desdobra o tema de uma matéria que saiu no jornal no seu blog. Acho um modelo interessante, que mantém a notícia viva através do blog. Esse desdobramento no blog, mais pessoal, gera alguma tensão dentro do jornal?
Não. O jornal nunca me perguntou ou cobrou nada a respeito do blog. Eles simplesmente me deram o espaço e só. Eu nunca fui cobrado, nem questionado, nada. Eu sempre toquei isso de uma maneira muito independente. Se eu fosse um repórter de política ou de economia, que lidasse com temas mais sensíveis nessas áreas, existiria um olhar mais atento do jornal com relação ao conteúdo. Eu sempre fui muito independente também na minha cobertura pelo jornal, pelo fato da ciência não ser um tema que as pessoas dominam por natureza e não ser tratada como prioridade dentro da imprensa. O jornal sempre confiou muito no meu trabalho e me deu autonomia quase total. Nunca houve uma interferência de instâncias superiores para orientar a cobertura de uma forma ou de outra, nem no jornal e nem no blog.

Como você define hoje o perfil do seu blog?
No início a ideia do blog era fazer uma coisa mais light, quase uma coisa de educação científica. Mas, com o passar dos anos e com o agravamento da crise do jornalismo impresso, com os cortes nas redações e redução do espaço, na medida em que meu espaço no jornal foi reduzindo, o blog foi mudando de perfil. Ele se transformou num blog de notícias, com uma linguagem um pouco mais agradável, um pouco mais flexível do que a linguagem que eu uso para escrever uma matéria para o jornal. Mas ainda é uma linguagem de notícia, em que eu entrevisto pessoas, em que coloco pontos divergentes e tal. Isso foi um pouco triste para mim porque não era o que eu queria originalmente com o blog, mas ele acabou tendo que preencher um buraco que ficou a partir do momento que o espaço para a cobertura científica no jornal foi sendo reduzido. Hoje eu não tenho liberdade quase nenhuma para expressar opiniões pessoais no blog. Agora é um espaço de notícia, que, por um motivo ou outro, eu não consigo colocar no jornal.

Você acha que nesse espaço você consegue apresentar a ciência de uma maneira diferente de como ela é apresentada no noticiário em geral?
Sim. Sinto que eu consigo fazer um trabalho jornalístico melhor no blog do que no jornal por uma questão de espaço. Quase todas as matérias que eu coloco no jornal vão para o blog em uma versão ampliada, na qual eu consigo elaborar melhor algumas coisas. Pela limitação do espaço no papel, você precisa apresentar as coisas de uma forma muito seca. E tratando de ciência, para o público em geral, você está falando sobre coisas que não fazem parte do dia a dia das pessoas. A notícia científica precisa ser explicada; ela não pode ser apenas dada, como uma matéria de metrópole, que envolve polícia, transporte ou ciclovias. Você não precisa explicar para as pessoas o que é uma bicicleta, mas você precisa explicar o que é um cromossomo. Não se pode dar a notícia sem explicar. Claro que não precisa transformar a matéria num livro didático, mas você precisa ter um pouco de contexto. No impresso é difícil fazer isso, porque o espaço que você tem é limitado e é um espaço para você dar a notícia; não dá pra ficar dando muita explicação. Eu sinto que no blog eu consigo fazer matérias mais completas. Sei que existe ali um limite também, do attention span, então eu também não fico escrevendo que nem um louco tudo o que eu quero. Mas eu consigo escrever um pouco mais do que no jornal e acho que esse pouco a mais deixa as matérias mais completas. Acho que elas podem ser compreendidas melhor. Também consigo encaixar uma opinião adicional, contra ou a favor, ou uma analogia. Dá para encaixar alguns componentes adicionais que deixam a matéria melhor.

Como você mesmo disse, a ciência é algo não muito presente no dia a dia das pessoas. Por causa disso, podemos pensar que é uma área mais difícil de ser criticada. Você acha que o jornalismo científico é crítico o suficiente em relação à ciência?
Não. Acho que o jornalismo científico no Brasil é muito pouco crítico. Ele questiona pouco e aceita resultados de uma forma muito fácil. Não digo isso dos jornalistas mais especializados, mas da mídia como um todo, de forma geral. Em sites como o UOL e o Terra, por exemplo, que não têm uma equipe mais especializada, como no Estadão e na Folha, você vê a incapacidade que os repórteres têm para questionar alguma coisa. Se você dá uma notícia de ciência para um jornalista que não tem uma formação científica, ele não tem como questionar nada. Nem ele mesmo entende. Existe uma carência no Brasil de jornalistas qualificados na grande imprensa ou, vamos dizer, na imprensa de massa. Acho que os editores e o público mesmo têm uma expectativa de que a ciência faz coisas legais, que é uma coisa benéfica. Claro que ela é. Mas a cobertura de ciência é vista como uma coisa positiva, que traz notícias legais. Quando você faz uma reportagem de ciência que traz uma notícia negativa parece que destoa do que as pessoas esperam da ciência. Talvez por causa disso, mesmo que inconscientemente, os jornalistas tendam a se focar nos aspectos positivos e acabam deixando passar coisas que precisariam de mais crítica.

Vejo no seu blog um espaço para tratar assuntos referentes à política científica, com posts sobre indicadores cienciométricos, por exemplo. Recentemente você escreveu também sobre a má conduta científica. Eu gostaria que você avaliasse essa sua postura de tratar desses temas delicados.
Eu já me vi tendo uma visão muito romântica a respeito da ciência. Já me vi sendo muito inocente. Percebi que eu precisava ser mais crítico e questionar mais, de uma maneira mais incisiva. Embora a ciência seja uma profissão, digamos, mais idônea e os cientistas tendam a ser pessoas corretas, que dão opiniões baseadas em dados, é uma atividade humana, feita por seres humanos, e dentro dela também existem as malandragens, existem as pressões para você fazer sensacionalismo, existem disputas políticas. Isso foi meio um choque para mim. Eu comecei a ter um olhar mais atencioso para essas questões e comecei a escrever um pouco aqui, um pouco ali. E quanto mais você escreve, mais você se aprofunda na coisa e as pessoas começam a te ligar, a te mandar informações. Isso foi atraindo fontes. Foi uma realização pessoal minha. Eu percebi que a ciência tem o seu lado ruim - não sei que adjetivo usar aqui. É uma atividade humana que tem as suas falhas e os seus problemas, como qualquer outra. E essas falhas não estavam sendo cobertas e eu assumi a responsabilidade de ir atrás disso. Mas é um negócio difícil. Na maior parte do tempo, no jornalismo científico, você está lidando com coisas positivas. A ciência busca melhorar a vida das pessoas, então você está sempre lidando com coisas bacanas. É difícil sair dessa rotina e um dia ter que ligar para um cientista, que é uma pessoa super respeitada, e fazer perguntas duras. A cobertura do caso do Rui Curi foi super difícil e agora a do Mário Saad também. Eu pego o telefone para ligar com cuidado triplicado, pensando muito no que eu vou falar. Porque o que eu vou escrever pode ter um impacto muito sério na carreira de uma pessoa.

Além do espaço que o blog te proporciona para escrever sobre falhas da ciência e tudo mais, você acha possível apresentar a ciência como um campo do conhecimento que não consegue explicar tudo e que às vezes depende da articulação com outras formas de conhecimento? Você acha que um blog de ciência também tem que dar espaço para essas outras vozes?
Não, acho que não precisa. Eu acho que pode. É um espaço onde isso pode ser encaixado. Mas não acho que precisa. O blog, apesar de ser um espaço mais personalizado, de opinião pessoal, ainda precisa ser pautado pelo método científico. Vai variar de caso para caso, mas, por exemplo, eu fiz uma entrevista uns anos atrás com um cara que era acho que de Oxford. É um matemático que é um criacionista famoso. Ele veio dar uma palestra na Universidade Mackenzie. Eu fui lá e fiz uma matéria. Saiu uma página inteira, com foto, e alguns pensadores ficaram bem chateados e me escreveram perguntando como eu podia dar espaço para um cara desses. Meu argumento foi que, por mais que eu discorde do cara, é uma linha de pensamento que existe, que está aí, sendo discutida. Eu não posso deixar de cobrir esse debate e de dar voz a essas pessoas só porque eu discordo e porque não tem aí uma base científica. Mas é algo que eu mesmo me questiono. Será que como repórter de ciência eu deveria ignorar esse tipo de coisa? Eu deveria ignorar os ambientalistas que são contra transgênicos? Acho que você não tem que ignorar, mas você precisa cobrir de uma maneira que fique claro para o leitor que aquilo não é uma opinião majoritária. Se você faz uma matéria sobre mudança climática, você não pode colocar uma aspa de um cientista do IPCC e uma aspa de um Climate Denier. Porque aí fica parecendo para o leitor que é uma visão fifty-fifty, ambas com o mesmo peso. Não é correto ignorar essas ideias críticas, mas você precisa inseri-las na sua matéria de uma maneira que fique claro para o leitor que são minorias. No blog você pode dar um espaço maior do que numa reportagem no jornal, mas sempre seguindo as regras do bom jornalismo e da boa ciência.

Você costuma acompanhar blogs brasileiros? O que você acha deles de um modo geral?
Não. Os que eu acompanho mesmo são os blogs do pessoal da Folha - do Maurício Tuffani, do pessoal de ciência da Folha. Mas isso não é por nenhum preconceito com os outros. A palestra que eu dei aqui na Flórida foi bastante focada nisso. Com essa revolução digital que vem acontecendo, com essa transformação do jornalismo para o meio digital, tem tanta informação, tem tanto blog, tanto site, tem tanto tudo, que o que temos é muito ruído no sistema, um negócio que está me deixando louco. Eu estou tendo uma dificuldade muito grande de me manter atualizado. Muito mais do que eu tinha antigamente. Sinto que o meu trabalho está muito mais difícil. Eu passo muito mais tempo online e eu me sinto muito menos informado do que eu era antigamente. É muita informação. E as informações boas, as ruins e as irrelevantes estão todas misturadas. Só para peneirar esse conteúdo é uma coisa que consome muito tempo. Várias vezes eu me pego horas na internet e, no fim dessas horas, eu absorvi muito pouca coisa. Eu simplesmente não tenho tempo de olhar esses outros blogs. Eu olho os da Folha, porque é o meu concorrente direto e eu estou acostumado a olhar.

Isso se estende a blogs internacionais também?
Sim, sim. Se estende a tudo, na verdade. Ler o próprio Estadão é difícil. Essa proliferação das mídias digitais, especialmente para o jornalista de ciência, que precisa cobrir tudo em ciência, está tornando quase impossível que você se mantenha atualizado sobre tudo o que está acontecendo. O número de canais aos quais você precisa estar atento é muito grande.

Você acha que isso se deve a essa fragmentação? Antes havia poucos veículos para medias essas informações e agora você tem agências, institutos, grupos de pesquisa que montam um blog. Você falou sobre um aspecto negativo dessa pulverização de várias vozes. Mas você acha isso positivo para o desenvolvimento da própria ciência? Como essa produção toda pode ajudar a própria ciência?
Para a ciência e para o público leitor é uma coisa boa, porque você tem muito mais informação fluindo, disponível, e isso vai chegando via redes sociais ou sites de notícias, via jornal. As pessoas vão ser expostas a mais informações científicas do que elas costumavam ser. Para o jornalista, que é obrigado a se manter atualizado, que precisa acompanhar tudo o que está acontecendo, se tornou muito mais difícil. Antes eu acompanhava Nature, Science e mais umas três ou quatro revistas científicas. Tinha ali o canal EureKalert, o canal da Folha, a Veja, o New York Times. Você tinha um grupo restrito de canais que você precisava acompanhar. Mas hoje você tem muitos cientistas que têm blog, Twitter, etc. As instituições têm canais de comunicação muito mais eficientes. A informação está espalhada por todos os lados. Eu tenho que seguir blogs, tenho que seguir a revista Pesquisa FAPESP, a Agência FAPESP, Agência USP, Unicamp. Todas essas fontes de informação, que antes eram canalizadas em alguns poucos canais de comunicação, hoje não precisam mais desses canais e fazem uma divulgação autônoma. Isso pulverizou as informações de uma maneira extraordinária. Para o repórter, ficou mais difícil acompanhar o que está acontecendo porque é impraticável você estar atento a todas essas revistas, todos esses jornais, todas essas universidades, Twitter, Facebook, etc.

Os veículos que você citou no início - Nature, Science, EureKalert - continuam sendo, pelo menos para você, as principais fontes de informação ou já existem canais mais novos que competem de igual pra igual?
Os canais dos grandes journals - EureKalert e Nature - não são necessariamente a principal fonte de pautas para mim, mas eles são a leitura mais obrigatória. Se eu tiver que ler uma coisa eu vou ler isso. Eu não posso abrir mão de saber o que está saindo nas principais revistas científicas. Eu não deixo de acompanhar as revistas. Não importa o que eu for escrever, eu preciso estar atualizado sobre a fronteira da ciência.

A matéria-prima para o blog é o contato direto com as fontes ou da leitura desses canais pontuais?

Hoje eu diria que é a partir desse contato direto com as fontes. De um ano pra cá eu tenho escrito pouco no blog. Meu último post já deve fazer quase duas semanas, por conta de uma sequência de viagens. A partir do momento em que o blog assumiu um caráter de notícia, escrever para o blog é tão difícil e consome tanto tempo, é um investimento intelectual e de tempo tão grande quanto fazer uma matéria para o jornal. Provavelmente mais, porque sou eu que tenho que encontrar foto que não tenha direitos autorais, eu que tenho que formatar o texto, eu mesmo tenho que tentar montar o gráfico. O blog dá um baita de um trabalho. Se fosse um blog com aquele caráter inicial, de linguagem mais simples, de divulgação científica, seria muito mais fácil. A partir do momento em que eu começo a escrever no blog sobre temas mais pesados, como integridade científica, eu não posso escrever uma matéria sobre o Mário Saad e em cima desse post ter um post sobre alguma coisa banal. Eu dei para o blog um caráter de blog de notícias sério. Isso para mim é difícil porque eu não posso escrever notinhas rápidas e botar coisinhas bonitinhas e fotinhos de bichinhos, porque isso iria descaracterizar o blog e seria ruim para minha reputação como jornalista.

Você acha que vem crescendo o interesse em se fazer um jornalismo de ciência que fuja um pouco do padrão focado em curiosidade e no simples prazer de se saber algo que não se sabia? Acha que existe uma vontade de se aprofundar mais?
Nos blogs que eu acompanho, que são os blogs da grande imprensa, eu não percebo dessa forma. Eu percebo o contrário: o blog sendo o lugar para você falar abertamente e criticar algumas coisas de uma maneira que não se pode fazer numa reportagem. Eu vejo quase o oposto do que você descreveu. A não ser que você veja eu dar a minha opinião pessoal como uma forma de aprofundamento. Pode ser que os blogs de fora da imprensa, os blogs de não jornalistas, não repórteres, tenham esse perfil que você descreveu. Mas eu não tenho como opinar porque eu não acompanho de uma maneira muito frequente.

Algo a acrescentar?
O meu blog sempre foi e continua a ser um grande desafio para mim. As pessoas vêem o blog como uma coisa que você escreve o que vem na cabeça e uma coisa muito mais simples de ser feita do que o trabalho de um jornalista tradicional. Mas eu sempre encarei o blog como um espaço sério e de qualidade. Para mim é uma coisa muito desafiadora: fazer um blog que tem um conteúdo muito qualificado e que atraia audiência. O blog fica mais exposto à audiência, a uma cobrança por audiência. Quando você publica algo no jornal impresso não existe uma cobrança do jornal em saber quanta audiência gerou a matéria. Mas o sucesso de um blog é julgado pelo número de compartilhamentos que ele gera. Ou número de cliques e tal. Para gerar muito clique e compartilhamento você tem que fazer coisas chamativas, que não necessariamente casam com um conteúdo de qualidade, mais crítico e tal. Eu tenho tido dificuldade com isso: fazer um blog de sucesso, em termos de audiência, mas sem abrir mão da profundidade e da qualidade do conteúdo.






sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Série: Jornalistas e blogueiros: Bernardo Esteves

O quarto post da série de entrevistas com jornalistas de ciência que também são autores de blogs é com Bernardo Esteves. Jornalista da revista piauí, Bernardo também escreve no blog Questões da Ciência. Doutor em história das ciências e das técnicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o jornalista já passou por diversas publicações de divulgação científica, entre elas as revistas Superinteressante e Ciência Hoje. É autor do livro Domingo é dia de ciência - história de um suplemento dos anos pós-guerra (Azougue Editorial).

Crédito: Acervo Pessoal / Facebook
Blog do Bruno de Pierro - Você coordena o blog Questões da ciência, vinculado ao site da revista piauí. É sua primeira experiência com um blog de ciência? 
Bernardo Esteves - Na verdade, não foi o primeiro. Antes de ir pra piauí, eu era o editor do site da Ciência Hoje, que segue no ar. Fui um dos idealizadores de uma reforma gráfica e editorial daquele site, acho que em 2009. Foi o momento quando o site Ciência Hoje passou para a Web 2.0, e passamos a contar com uma série de recursos, mais alinhados com o que vinha sendo feito na internet. Passamos a ter comentários, a ter integração com redes sociais e a criação de um blog, chamado Bússola, foi uma das medidas tomadas naquele momento.

Por que optaram pelo blog?
Ele representa a possibilidade de diversificar os formatos para fazer divulgação científica. Já produzíamos textos jornalísticos, feitos pelos repórteres da revista e do site, e tínhamos também colunas, que eram produzidas por pesquisadores. A ideia do blog foi, portanto, divulgar um pouco dos bastidores da ciência, ou comentar um pouco do que estava sendo dito em outros espaços da internet. Era uma maneira de diversificar e tornar mais versátil a divulgação científica que a gente vinha fazendo.

Na revista piauí, a criação do blog também foi responsabilidade sua?
Minha chegada lá coincidiu com a época em que a revista estava promovendo a criação de novos blogs sobre temas variados, como música e culinária. Eu tinha vontade de continuar falando de ciência em um blog e, paralelamente, a revista tinha esse desejo de aumentar sua cartela de opções. Unimos o útil ao agradável e lancei, em 2011, um blog de ciência.

No blog Bússola, você já tinha a preocupação de mostrar a ciência de uma maneira diferente da forma como ela é divulgada em outros meios? Tinha, mas de uma maneira geral. Não apenas no blog. Queríamos tentar mostrar a produção do conhecimento cientifico em todas as suas dimensões, tentar romper com essa visão muito voltada para o resultado, como você diz em sua pesquisa. Mas de maneira geral, essa preocupação não se limita só ao blog, e se manifesta também nas reportagens publicadas no impresso. Desde a formulação das hipóteses, os resultados desenhados, etc; o blog facilitava a abordagem disso. O blog certamente ajuda a dar visibilidade a todo esse universo que está em torno dos resultados e das conclusões de pesquisas.

Já o blog Questões da ciência tem qual objetivo?
É um espaço para falar de bastidor. Também é para falar de temas que considero importantes: publicação científica, má conduta científica, fraude e ética na ciência. No blog eu discuto, por exemplo, o presente e o futuro da revisão por pares, novas iniciativa que, de alguma forma, chamam a atenção para a forma como a publicação cientifica é feita hoje. Minha proposta é discutir aspectos gerais do universo da produção do conhecimento cientifico, mas que não estivessem restritos à questão dos resultados. Foi esse o objetivo.

Mostrar a ciência como uma construção, um processo?
De certa forma sim. Além disso, o blog serve como uma espécie de repositório de materiais que apuro para uma reportagem mais longa que estou produzindo para a revista piauí. Em reportagens longas, chego a passar três meses trabalhando em uma única matéria. Nesse processo, acabo levantando muitas informações interessantes que nem sempre acabam entrando na reportagem. Várias vezes, portanto, aproveitei o blog como espaço para incluir trechos que ficaram de fora das reportagens e que eu achava que mereciam vir a público. O blog complementa a reportagem.

Tocar em temas como integridade científica, ética e limites da ciência são complicados. O seu trabalho, com esse viés mais crítico, é recebido com certa resistência por parte da comunidade científica?
De certa maneira sim. Se você ligar para um pesquisador para pedir uma entrevista sobre o último estudo dele, a receptividade será uma. Se você procurá-lo para comentar uma acusação de ter adulterado dados de algum artigo publicado por ele, a receptividade será outra. No exercício do jornalismo, encontro muito essa resistência, inclusive das instituições científicas. O último post que eu publiquei é sobre má conduta científica, e tive bastante dificuldade. Mesmo os editores da revista que retratou um dos artigos que mencionei no post se armam de precauções, o que é normal. Tentei ouvir as universidades envolvidas, no caso a Estadual de Maringá e a Unicamp. Não tive retorno delas, sequer um pronunciamento oficial, para saber como elas estavam conduzindo as investigações. Há também diferenças quando o blog é feito por jornalistas e por cientistas. Não sei se você vai abordar isso no seu estudo.

Sim, é um dos pontos que discuto.
Exatamente. Porque alguns teóricos tendem a colocar o jornalismo de ciência como um subconjunto da divulgação científica. Eu tenho um pouco de ressalva quanto a esse tipo de visão.

Sim. Eu acho que o jornalismo de ciência não pode ser encarado dessa forma.
Há diferenças entre a divulgação científica feita por um cientista e a divulgação científica feita por um jornalista. O cientista, de certa maneira, parece ser movido pela ciência. Ele está a serviço da ciência. Já o jornalista não deve estar a serviço da ciência, mas sim do leitor. Se o trabalho do jornalista resultar no levantamento de informações que podem apresentar a ciência sob uma luz menos favorável, paciência. Isso não pode frear o trabalho do repórter. O jornalista não deve atuar como porta-voz da ciência como, muitas vezes, faz o cientista. Independentemente de o jornalista ter ou não um blog. O papel do jornalista é o de ser vigia, um vigilante, e não um “torcedor” da ciência.

Mas você acha que isso ocorre na prática? Tenho a impressão de que muitas vezes os jornalistas de ciência posicionam-se nessa função de “torcer” pela ciência, comprando o discurso científico.
Concordo. Para cobrir ciência, o jornalista precisa entender por dentro como a coisa funciona. Não precisa necessariamente entender a fundo o tema que ele está discutindo, mas precisa ter um background. É, portanto, inevitável que parte da cobertura de ciência que vemos por aí esteja contaminada por uma apreciação não muito crítica do fazer científico. Se você pegar um mês de notícias de ciência, é fácil identificar trabalhos em que, na prática, o repórter atua como porta-voz da ciência, até por falta de ferramentas para questionar o que está noticiando. Isso é uma questão de formação em parte. Também é questão de postura. Não são muitos os jornalistas que adotam uma postura mais crítica em relação à ciência, ou que assumem isso publicamente. Repare que temos o crítico de política, o crítico de economia, o crítico de cultura; mas o crítico de ciência praticamente não existe entre os profissionais do jornalismo. Muitos dos repórteres que trabalham com ciência acabam atuando mais como relatores, passando o conteúdo sem uma apreciação mais crítica, sem ponderar outros aspectos, sem entender os conflitos de interesse envolvidos na ciência.

Percebo que essa postura mais crítica está mais evidente nos blogs de ciência feitos por jornalistas.
Concordo. Acho possível sustentar essa tese. Essa dimensão crítica está crescendo, mas não tanto quanto o desejável. E realmente aparece mais nos blogs do que nas reportagens. No entanto, digo isso com base na minha percepção, não em uma observação sistemática. É preciso entender se isso ocorre só em blogs mesmo. Mas diria que sim, estamos assistindo a um movimento de crescimento da visão crítica da ciência brasileira e acredito que os blogs têm papel importante nisso.

Em temas como transgênicos e aquecimento global fica evidente o conflito entre posições científica e não-científicas. Em assuntos que essa tensão é mais latente você acha que os blogs de ciência conseguem passar uma visão ampla ou acabam tomando parte da ciência de modo acrítico?
Depende. Acho difícil generalizar nesse caso. Vou pegar o caso da mudança de clima, que você citou, pois fica um pouco mais claro e fico um pouco mais à vontade falar desse tema. É um tema complicado. A lógica da imprensa pede que o repórter ouça os dois lados, mas muitas vezes há muito mais do que dois lados. Mas a imprensa favorece que você tenha um lado e outro, e um embate de ideias, no caso, sobre a aceitação da influência humana sobre o clima. A imprensa tem sido muito criticada por isso e o panorama que a gente observa entre os estudiosos da área é muito diferente daquele que se vê no debate público. Então, aqueles que negam a influência humana no clima têm espaço muito maior na imprensa e em outras dimensões do debate público do que na ciência. O numero citado é esse: 98% dos que publicam sobre o tema atribuem as causas à influência humana e só 2% atribuem a causas naturais. E, apesar disso, há um trabalho pesado de lobby daqueles que têm seus interesses contrariados pelas reações que se pede ao aquecimento global, e estou falando da indústria fóssil, do lobby do petróleo, do gás natural etc. No Brasil é mais tênue, porque os céticos do clima aqui não estão ligados à indústria do petróleo como é caso dos Estados Unidos. Mas, seja como for, a negação do clima é amplificada na imprensa, onde eles ocupam um espaço que não reflete o espaço que ocupam na academia. Então, tentando resgatar sua pergunta original, nem sempre é fácil para o jornalista colocar no debate as forças com o peso devido. Esse é um dilema. Quando o conhecimento científico se coloca em choque com divergências que surgem em face de outras formas de saber, é problemático para um repórter que está cobrindo a área.

Em sua tese de doutorado você trabalhou muito com a Teoria Ator-Rede, especialmente com a obra de Bruno Latour. O que ela pode ensinar aos jornalistas?
Vejo um potencial imenso da sociologia da ciência, em específico na Teoria Ator-Rede, para informar o fazer jornalístico. No caso do clima, acho que os estudos sociais da ciência e a Teoria Ator-Rede me ajudaram muito a entender a forma como se construíram as certezas da ciência em relação à mudança do clima e à influência humana sobre o clima. Você começa a entender uma coisa que acho essencial para entender a construção do conhecimento científico: a ciência muitas vezes é percebida como um conjunto de fatos que estão livres de qualquer contingência, fatos que seriam independentes das circunstâncias nas quais foram consolidados. Quando falamos que a temperatura média da Terra aumentou 0,8 graus Celsius desde 1880, tendemos a ler esse fato na imprensa como um fato livre, que está voando por aí, livre de qualquer circunstância. Quando você passa a entender a quantidade absurda de cientistas, de instrumentos, de entidades humanas e não-humanas que estão mobilizados na construção dessa afirmativa, entende-se a força que ela tem. Entendemos como esse é um fato sólido e difícil de ser confrontado. A Teoria Ator-Rede ajuda a entender a força dessas afirmações e as circunstâncias de sua produção. Compreendemos também que os fatos científicos têm historicidade, estão vinculados a uma rede de atores humanos e não-humanos, instituições, moléculas, diplomatas; enfim, é uma rede muito grande de atores que está por trás disso. Considero-a uma ferramenta essencial para os analistas da ciência entenderem a construção dos fatos científicos.

Mas a Teoria Ator-Rede também tem suas limitações.
Ela suscita críticas por pessoas que, muitas vezes, não leram com calma e não pararam para refletir o que está por trás dessa teoria. Latour e os teóricos que o seguem são vistos, muitas vezes, como pessoas contrárias à ciência. Mas ultimamente Latour está muito engajado nessa questão do aquecimento global. Em seu último livro, ele relata uma conversa com um cientista e depois conclui: é hora de decretarmos trégua; temos, agora, o mesmo inimigo. Ele diz ainda: vocês, cientistas, e nós, estudiosos dos cientistas, temos que parar de conversa fiada. Ele notou que os céticos do clima estão usando alguns dos argumentos usados pelos estudos sociais da ciência para desconstruir a afirmativa dos cientistas e, por isso, Latour está em um momento de grande mobilização e ativismo.



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Série: Jornalistas e blogueiros: Salvador Nogueira

O terceiro post da série de entrevistas com jornalistas de ciência que também são autores de blogs é com Salvador Nogueira. Jornalista colaborador de diversas publicações, como o jornal Folha de S.Paulo e revista Pesquisa FAPESP, Salvador é autor do blog Mensageiro Sideral, hospedado no portal da Folha.

Crédito: Arquivo Pessoal / Facebook
Blog do Bruno de Pierro - O seu interesse dentro da ciência é específico: astronomia. Você inclusive já publicou livros sobre o assunto. 
Salvador Nogueira - A astronomia veio em mim muito antes do jornalismo. Eu sempre fui apaixonado, desde moleque, por astronomia, e uma das portas de entrada para o mundo da ciência, para mim foi a própria astronomia. Em 2000 eu tive a chance de participar de um concurso interno da Folha para ir para a editoria de ciência e acabei ficando por lá. Claro, você cobre de tudo, mas sempre tive uma paixão muito maior por astronomia. Conforme você vai ficando mais sênior, você vai podendo escolher mais. E conforme você escolhe mais, você vai para onde gosta. Foi por isso que eu migrei e criei uma identidade muito forte com essa coisa de astronomia. Mas você sabe como é cobertura de ciência: você vai onde estão chamando.

O que te motivou a voltar a produzir conteúdo para um blog? O que você encontra num blog que não encontra na produção de uma reportagem convencional?
O formato de blog é extremamente atraente. E é uma diferença muito marcante. Eu escrevo reportagens para o jornal da Folha e para o blog da Folha, e é um mindset completamente diferente quando você vai abordar um e o outro formato. O blog é muito mais libertador, no sentido de que você não está tão preso às regras de formulação de texto que existem dentro de uma redação quando você está seguindo o padrão de um jornal. É uma experiência de libertação, do ponto de vista formal. Você tem uma gama de recursos que não pode usar na reportagem convencional: a informalidade, a possibilidade de você dialogar com o leitor de uma forma mais aberta e até mais honesta, se colocando como interlocutor e não como uma voz que vem do além. Os jornais são meio que uma voz que vem do além; eles estão te contando a notícia, mas existe uma impessoalidade. Quando você transpõe isso para o blog, você muda completamente essa lógica. Você passa a ser um agente da informação. Você não está tentando transferir a informação de uma forma que o leitor não perceba você, como se você fosse transparente. Muito pelo contrário: você quer chamar para você uma personalidade, um jeito de falar, um jeito de transmitir informação, e isso é muito libertador.

Além da forma, há diferenças de concepção de lidar com a ciência. Concorda?
Sim. No blog, me permito a dar espaço e jogar informações que talvez no jornal impresso, pelas limitações que você tem de espaço e pelos critérios de seleção de material, não desse. Na hora que passou eu escrevi um assunto que é controverso, que é a formação de planetas, de como isso se dá, e mostrando realmente a controvérsia de hipóteses alternativas para explicar a formação do sistema solar e, neste ponto do jogo, nós realmente não sabemos qual delas é melhor. Não tem nenhuma favorita, é uma área nebulosa. Isso é uma coisa que você pode fazer no blog com muito mais facilidade do que no jornal. Porque no impresso você tem que dar a notícia que é a “game changing”, é a descoberta que muda aquilo que a gente pensa. Você não pode parar muito tempo para mostrar a controvérsia ou, como você falou, o ponto de tensão. Não o ponto de ciência e não ciência, como você está abordando, mas ainda assim o ponto de tensão entre diversos grupos de cientistas que trabalham ideias opostas.

Ao mostrar esse lado da ciência, de que ela é um processo, uma construção de teorias que muitas vezes entram em conflito entre si, isso não teria também um significado político, de mostrar que a ciência não está acima de tudo?
Eu não sei se é tanto uma questão de política quanto é uma questão do que o novo meio te proporciona. Uma coisa que é muito diferente no blog em comparação com a produção convencional da mídia é que você tem um feedback instantâneo e você tem um nível de interação com o seu leitor que é muitas vezes maior do que aquele que você tem no jornal. No jornal você pode escrever uma matéria e dali uns dias receber um e-mail ou uma carta – que cada vez menos as pessoas usam, mas ainda usam. E no blog você tem aquele esquema de comentários, que é uma coisa instantânea. Então eu acho que no blog a discussão é muito mais fértil do que uma reportagem “stuck”, que está impressa numa página de jornal, que você não vai mudar, não importa o que o seu comentarista diga. Quando você diz “política”, eu penso em um formato buscado para provocar intencionalmente esse tipo de transformação na apresentação da ciência. E eu acho que não é intencional. Acho que você migra para o blog porque ele é um novo formato, simplesmente. A própria mídia tradicional percebe que todo mundo está lendo blogs, então ela precisa fazer blogs. Não é uma decisão consciente, de que isso vai mudar e que a ciência vai ser mostrada de forma mais realista. Mas o resultado dessa migração acaba produzindo esse efeito. Eu não acho que seja uma coisa tão intencional, mas ela acaba sendo inevitável a partir do momento em que você abre o diálogo, que é uma coisa absolutamente nova na mídia. Isso é que faz a grande diferença.

Você citou um post mais recente agora. Você poderia citar mais uns dois exemplos de posts que talvez não tivessem espaço para serem abordados de forma mais noticiosa no jornal? Algum outro tema controverso?
Tem esse de formação planetária, que é bem recente, que está bem na minha cabeça. Um tema forte no meu blog é a astrobiologia, ou seja, a busca de vida em outros planetas, tentando entender a existência e a prevalência da vida no universo. Isso gera uma série de respostas que são non sequitur, que muitas vezes não têm embasamento na ciência. Isso retrata bem esse seu trabalho de buscar zonas de conflito. Quando você fala de vida não convencional, de vida hipotética, que não seja baseada em carbono e que não use água como solvente, em outros mundos, esse é o tipo de coisa que é tão especulativo que você até consegue emplacar no jornal impresso, mas você já tem um mindset na sua cabeça de pensar que uma coisa tem mais a cara do blog ou mais a cara do jornal. A rigor, quando não existiam blogs, talvez fosse mais fácil emplacar isso no jornal. Mas como existem, e se trata de uma discussão em andamento, polêmica e que depende muito de especulação, ela cabe muito mais no blog, onde você está propondo um diálogo. E é normal: quando você apresenta uma controvérsia, você está convidando ao diálogo. Se você vai apresentar um fato consumado, você não precisa convidar ao diálogo. Toda vez que eu escrevo sobre vida em Encélado ou Europa – que é vida convencional, buscando água e usando compostos orgânicos, como a conhecemos – muitos leitores se perguntam por que existe essa obsessão dos cientistas em procurar vida como nós a conhecemos. Fica muito evidente a necessidade do debate nesse assunto.

Você trabalha de uma forma que, não importa se o assunto é estritamente científico, ele deve ser debatido?
Com certeza. Falando sobre os transgênicos, por exemplo. Se você perguntar a minha opinião, tudo o que foi feito até agora de transgênicos me parece absolutamente seguro, trivial e poderia até ter acontecido naturalmente. Nada de extraordinário. Contudo, a gente tem que levar em conta que os cientistas não trabalham num vácuo. Eles trabalham numa sociedade. Uma sociedade que os sustentam, inclusive. É difícil você encontrar um cientista que não dependa de verbas que vêm do contribuinte. E uma vez que eles são sustentados pelo contribuinte, esse debate é requerimento básico. Há de se convir que a única controvérsia não é de origem científica. Você pode ter outras ordens de controvérsia. Você pode ter uma controvérsia ética. Tudo bem, cientificamente não tem risco nenhum, mas de repente a sociedade decidiu que manipular organismos não é uma boa ideia.

Não é porque a ciência pode fazer algo que ela deve fazer algo.
Exatamente. Eu acho que essa é uma discussão que vai se tornar cada vez mais evidente, cada vez mais importante, à medida que a gente está chegando em tecnologias que podem efetivamente nos ameaçar. Vou te dar um exemplo que é extremo, mas que ajuda a ilustrar isso. LHC. Na época em que foram ligar o LHC, existia uma meia dúzia de pessoas que estavam preocupadas porque existia uma chance não nula de que aquele negócio levasse ao colapso do universo. Aí pediram pra não ligar e foram na justiça, mas acabaram perdendo. É um caso extremo, mas é muito emblemático dos dilemas que nós vamos enfrentar a partir de agora. Nanotecnologia, por exemplo. Em princípio, o fulaninho que está ali trabalhando com nanotecnologia, está lidando com coisas seguras. Mas não é impossível de se imaginar que uma tecnologia dessas saia do controle e comece a se replicar pelo mundo. Outro exemplo que é muito premente é a recriação da varíola em laboratório e também o vírus da gripe espanhola. O argumento é que eles estão sendo recriados para que, antes que eles reapareçam, a gente já tenha instrumentos para desenvolver defesas. E é absolutamente legítimo esse argumento. Mas toda vez que você cria uma coisa assim você tem um risco, que não é zero, desse negócio escapar do laboratório. E aí aquilo que você está tentando evitar pode acontecer. Não quero dizer com isso que a gente deva ter preconceito com a ciência e impedir que ela avance. Mas é fundamental que a sociedade discuta de maneira saudável quais são os riscos e quais são os benefícios. O que não pode é o cientista achar que vai trabalhar num vácuo em que só ele, por motivos técnicos, decide que é seguro. Se o risco é de 0,00000001%, todo mundo concorda que esse risco é muito pequeno. Mas será que todo mundo concorda que esse risco é aceitável? Quem decide o que é aceitável e o que não é? O século XXI vai ser muito interessante.

Recentemente teve a questão dos eucaliptos transgênicos, da ocupação do MST na fábrica da Suzano. Vi muitos comentários de gente dizendo que existe um consenso entre os cientistas de que isso é algo resolvido já e que o grupo de cientistas que não concorda com isso é um grupo ligado a movimentos políticos, contaminado por ideologias.
É claro que estamos falando de discussões que estão em aberto, mas nem por isso se deve anuir ir lá e destruir pesquisa. Existem caminhos para você buscar o diálogo e certamente não é esse. Para citar um outro exemplo radical, outro dia, não lembro nem onde, foram lá libertar animais de pesquisa científica.

No instituto Royal, né?
Exato. A resposta está errada. Você pode ter a demanda. Acho justo. Discutir direitos dos animais? Perfeitamente justo. Acho também que é uma discussão que tende a esquentar, não tem que esfriar. Independente disso, é obvio que a gente nunca vai concordar com ações violentas e intempestivas, tanto de um lado quanto de outro. A gente não pode aceitar nem que os caras invadam e destruam o trabalho e nem que os cientistas digam que a discussão já acabou. A discussão só acaba quando a sociedade decidir que acabou.

Recentemente fui a um evento grande na FAPESP que discutiu modelos de experimentação, como o uso de pele artificial, para evitar o uso de animais. A preocupação crescente dos cientistas é decorrente, pelo menos em parte, da demanda social.
Claro, sem a menor dúvida. Se ninguém pressionasse, para eles estava tudo certo. Você não pode ir para o seu trabalho todo dia achando que você está cometendo um crime. Se um cientista tiver que matar rato todo dia ele vai adquirir uma insensibilidade. Ele não vai poder viver consigo mesmo se não adquirir. Precisa mesmo do chamamento social, de gente que não está matando rato todo dia, pra dizer “Você tem certeza que você precisa matar esse rato?”. Eu participei da produção de um programa que envolvia experimentos com animais. Eu não estava ali, mas a repórter que fez a reportagem contou que o pesquisador estava disposto e estava querendo sacrificar um animal só para poder filmar. Nem era parte do experimento; era para demonstrar a quilo que eles faziam. Na minha modesta opinião, não sei qual a sua, isso é um despropósito imenso. É uma vida que vai ser sacrificada cedo ou tarde? Vai. Mas aí falta um certo respeito àquela vida que você está sacrificando. Não é tão descartável assim. E acho que isso tem a ver com o fato de que o fulano que vai para lá precisa se dessensibilizar. Se ele ficar pensando que hoje matou tantos e amanhã vai ter que matar não sei quantos, a coisa não avança. Ele precisa perder esse apego. Eu não sou o cara que vai dizer que a gente deve interromper a experimentação animal, porque não dá. Mas eu acho que é importante que a sociedade (e isso inclui os cientistas) cultive isso como um mal necessário, e não como uma coisa natural. Você vai fazer porque não tem outro jeito de fazer. E se tem outro jeito de fazer você tem a obrigação ética de procurar esse jeito.

Por que no Brasil o noticiário de ciência acaba se colocando um pouco como porta-voz da ciência? Você concorda com isso?
Concordo. É óbvio que num mundo ideal o jornalista tem a função de ser o crítico muito mais do que ser o porta-voz. Mas a gente vive numa circunstância, e eu acho que no Brasil em especial, em que a ciência ainda precisa muito ser defendida na sociedade. Se você pegar “O Mundo Assobrado pelos Demônios”, do Carl Sagan, você já vai enxergar isso lá. Ainda existe uma cultura da ignorância que se sobrepõe muito à cultura da ciência. Quando a gente está discutindo em alto nível, é natural a gente apresentar as deficiências, as limitações e a interação da ciência com a sociedade. Acho perfeitamente razoável. Mas quando você está lidando com o grande público, você tem que ver que vai lidar com um público em que 95% das pessoas têm uma descrença completa da ciência, que colocam seus conjuntos de valores ancorados numa coisa que é muito mais perigosa. E aí tem 5% de pessoas que poderiam aproveitar aquela crítica que você poderia fazer à ciência.

Então talvez o caminho talvez seja primeiro apresentar o que é a ciência para depois discutir criticamente?
Claro. Isso é fundamental. E se você consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo é maravilhoso. Mas nem sempre é possível, e isso é uma coisa que eu vejo muito na vivência do blog, que é a vivência do diálogo. Quando você coloca uma coisa que está sub judice, que a ciência ainda está debatendo, que existem lados, que existe hipóteses que são contraditórias, que ninguém sabe bem para onde vai, isso é usado como argumento pelos defensores da ignorância, por assim dizer, para dizer que a ciência não descobre nada, que a ciência não sabe de nada e é tudo chutômetro. É tão difícil qualificar o discurso. Por um lado, não é chutômetro. Aquilo que a gente tem consolidado está consolidado e não vai mudar. É aquela história de você construir um prédio e você por um tijolo de cada vez. Você pode por um tijolo novo, que não tinha lá, mas você não vai derrubar tudo o que já estava ali. Tem esse lado, mas também tem esse lado de que aqui os caras não fazem a mais larga ideia do que está acontecendo. Existe um medo de quem divulga a ciência de tentar mostrar muito cruamente e desqualificá-la diante de um público, que, infelizmente, não está preparado para entender essas nuances. Corre o risco de você jogar o bebê fora junto com a água do banho. Por isso talvez a imprensa tenha uma atitude defensiva. E ao valorizar o discurso científico em uma sociedade que é majoritariamente não científica, a gente acaba correndo o risco de passar a imagem avessa do que é a ciência: ao invés de mostrar que ela é uma coisa em transformação, uma coisa em discussão, uma coisa que está sempre buscando se aproximar da verdade com “V” maiúsculo, mas que não tem em absoluto a ambição de chegar lá mesmo, a gente, ao transmitir esse tipo de ideia, corre o risco de que as pessoas achem que a ciência não fala da verdade, na realidade, então ela pode ser descartada. Para mim, é muito assustador que as pessoas cheguem no blog falando que os cientistas ficam gastando dinheiro com isso e aquilo enquanto a gente devia combater a fome, combater não sei o quê. É um absurdo tão grande porque é daí que vai vir o combate à fome. É daí que vai vir o combate à doença.

Em um dos seus livros você abre dizendo o porquê defender aquela verba destinada às pesquisas que a princípio estão longe da realidade. Num caso bem extremo, se você quer levar um homem a Marte. O processo disso pode melhorar o dia a dia da sociedade, com pesquisas de várias áreas. A sociedade pode não entender muito bem como a ciência funciona ou quais são as intenções da ciência, mas ao mesmo tempo ela é científica, no sentido que ela está hoje muito próxima do contato direto com o produto da ciência numa interface tecnológica.
Sem dúvida. Mas o que me assusta é que ela não enxerga. O fulano está escrevendo num computador – e ele está escrevendo num computador porque resolveram um dia mandar o homem para a lua e precisaram miniaturizar o computador, que ocupava uma sala e tinha que fazer caber numa espaçonave – que aquilo tudo é uma bobagem. É uma coisa tão instantânea o contato que o cara nem percebe. A gente tem esse problema enquanto sociedade. A gente está se desconectando das nossas próprias criações. A gente vive num mundo mágico: todo mundo usa celular, todo mundo usa smartphone, rede social, mas ninguém sabe como aquilo acontece. O ser humano está muito preparado para esse pensamento mágico. É muito fácil o cara assimilar que aquilo acontece, mas não importa por que aquilo acontece. Só que quando ele parte desse pressuposto, de que não importa por que acontece, ele cai nesse tipo de contradição de discurso. Porque se ele diz que estão gastando dinheiro à toa, ele não percebe a conexão com a própria vida dele. Isso é uma coisa que aparece com muita frequência em ficção científica: sociedades avançadas que desaprendem, que esquecem como funcionam as coisas que elas usam. Numa medida muito menos exagerada que na ficção, a gente está vivenciando isso. É uma sociedade completamente dependente da tecnologia, mas que não faz a mais vaga ideia de como ela funciona, não sabe de onde estão vindo os milagres. E aí o cara está discursando contra aquilo que está beneficiando a vida dele.

Por um lado, beneficia, mas por outro lado a ciência e a tecnologia não são totalmente emancipadoras.
Quando a gente vai colocar a ciência na balança, por mais críticas que a gente tenha a fazer, a gente precisa lembrar o quanto ela nos traz também, que é muito. Se você rebobinar a fita até meados do século XIX, eu e você provavelmente teríamos morrido porque não existia antibiótico. Você já tomou antibiótico? Eu já tomei muitas vezes. Não tinha vacina. Quanta criança não morria! A sociedade não enxerga o quanto que ela deve à ciência. Como é que o Fleming descobriu o antibiótico? Foi um acidente! Não é que o cara buscava atacar as doenças e tinha ali uma verba. Não. Foi um acidente de laboratório. Esse valor da ciência como exploração básica, como curiosidade básica, que as pessoas não enxergam, precisa ser transmitido. E essa mensagem se sobrepõe às críticas que a gente possa fazer. Talvez por isso a divulgação seja enviesada nesse sentido. É quase como uma troca: você está perdendo, digamos, o refinamento, mas você está ganhando uma mensagem que é mais importante chegar à sociedade. No dia em que formos todos já ilustrados e pudermos discutir todos, de igual para igual, as qualidades e os deméritos da ciência vai ser maravilhoso. E eu sinto muito isso no blog. Como eu vou mostrar o dilema da ciência sem passar a impressão de que a ciência ´é uma perda de tempo porque são hipóteses que nunca são confirmadas? É um dilema muito real, que eu tenho certeza que outros colegas também vivenciam. Você não pode desprezar junto com as dúvidas aquilo que é certeiro na ciência.

Dentro dessa questão de mostrar para todo mundo o que é a ciência, existe também o cuidado de não querer passar o rolo compressor em outras formas de conhecimento, como a homeopatia, por exemplo? O jornalista de ciência precisa ter essa percepção?
A ciência se propõe a responder tudo aquilo que pode ser sondado de maneira experimental, de maneira observacional. No caso da homeopatia, que você citou, acho perfeitamente legítimo que os cientistas testem e verifiquem se há ou não resultado. E a maioria dos estudos de revisão mostra que o efeito é o mesmo do placebo. Ou seja, funciona, como placebo. Seria irresponsável a ciência não divulgar essa informação. Porque às vezes tem o fulano que vai se tratar desse jeito e vai morrer. Acontece. Você vai tratar uma gripe com homeopatia? Ou um resfriado? Beleza. Você provavelmente vai sobreviver e, com o efeito placebo, é capaz de melhorar até mais depressa. Mas se você tiver um câncer e for tratar com homeopatia: má ideia. Eu acho que a ciência tem que dar esse alerta. É obrigação dela sondar tudo aquilo que pode ser sondado. Esse é um aspecto. Existe um outro aspecto: não vir carregado de preconceitos. A gente tem que fazer uma distinção entre o que é a ciência, entre o que é o ideal, e o cientista, o acadêmico naquele ambiente, naquele contexto, fazendo o trabalho dele. A ciência, do ponto de vista ideal, é à prova de bala. Agora o cientista, naquele contexto dele, tendo que publicar para não ser desprezado, para se manter por cima na academia para conseguir verba, para conseguir bolsa, ele às vezes vem carregado de preconceito porque ele é um ser humano como qualquer outro. Tudo isso tem que ser levado em conta. É óbvio que se eu vou discursar em favor da ciência eu vou discursar contra esse tipo de atitude. Não dá para separar o que é ciência, o ideal, do que é o fator científico momentâneo, que vai ter esse monte de coisa. Vai ter problema de fraude, vai ter problema de plágio, de preconceito. Vai ter todo tipo de problema. O que eu acho sobre conhecimentos, digamos, não ortodoxos é que eles têm domínio de aplicabilidade. Se uma forma de conhecimento não ortodoxa resolver pisar no terreno da ciência vai tomar uma sova mesmo. E não tem jeito.

Às vezes o que a ciência não pode explicar ela acaba também desqualificando. Pegando o exemplo da psicanálise, a ciência hoje não tem uma resposta para dizer se isso existe ou não, sobre como funcionaria o inconsciente. Mas tem uma linha de conhecimento, de produção de conhecimento, que daria conta. Você acha que a ciência, quando não consegue dar uma resposta, está certa em desqualificar?
Acho que não. Mas o exemplo que você usa da psicanálise, se você perguntar para um psicanalista, ele vai te dizer que aquilo é ciência. Ele nunca vai dizer que não. É ciência. Uma vez que ele mesmo se qualifica como ciência ele tem que estar submetido aos checks and ballances da ciência. Ele vai ser verificado. E é verdade: hoje a gente não tem instrumentos para checar com uma precisão arbitrariamente alta os resultados da psicanálise. Mas tem coisas que a neurociência já começa a mostrar resultados. Citando a própria psicanálise, o aspecto do inconsciente: está muito claro hoje para o neurocientista, aquele mais duro, que o inconsciente existe – coisas que a gente decide antes mesmo de saber que decidimos. Isso tem problemas, que até são tacanhos, do ponto de vista que a psicanálise se propõe a debater, mas que mostram isso de uma forma muito clara. O seu cérebro decide coisas antes de você ter consciência de que decidiu. Isso, por si só, já mostra que o inconsciente existe. Mas qual é a natureza desse inconsciente? Seguindo na linha da psicanálise, Freud focou muito a questão da psicanálise no aspecto sexual, reprodutivo. E hoje a gente vê que, com estudos de neurociência, isso merece uma ampliação. A gama de estímulos que estimulam nosso sistema de recompensa no cérebro vai além da questão sexual, como a alimentação. Isso enriquece o debate.

Eu me incomodo um pouco quando alguns cientistas usam isso para simplesmente desqualificar aquelas reflexões que vinham de um período no qual você ainda não tinha instrumentos para sondar o cérebro. Isso é uma coisa de preconceito. Se você pegar essa questão do Freud, da psicanálise, você vai ver que ele acertou em algumas coisas e errou em outras, o que é absolutamente natural, do ponto de vista da ciência. Você erra e acerta, faz parte. Ninguém está dizendo que a verdade absoluta está ao nosso alcance. Mas tem muitos neurocientistas que vão ser duros demais e dizer que isso é tudo bobagem, que pode jogar fora e começar tudo do zero. Essa não é uma atitude muito saudável, no meu modo de entender. O que a gente não pode também é criar uma barreira protecionista do outro lado, dizendo que se algo não é convencional um cientista não pode vir encher o saco. Onde tiver interface a ciência vai interagir. A ciência não enxerga barreiras, e eu acho bom que não enxergue barreiras. Sobre a origem do universo, a gente sabe do Big Bang pra frente, mas do Big Bang para trás a gente não sabe de nada. Tem um monte de especulações científicas mas nenhuma delas é verificável, então a gente não sabe de nada. Alguém pode vir dizer que isso é domínio do conhecimento religioso e que a ciência não tem nada com isso? Não. A ciência tem o direito de ir onde ela conseguir ir. A ciência tem seus próprios limites. Tem questões que a ciência jamais vai ser capaz de sondar, por deficiência instrumental, experimental. O arcabouço de construção de conhecimento científico não permite sondar essas questões. Os grandes porquês do universo, a gente pode explicar como as coisas desenvolveram no universo, mas o porquê elas se desenvolveram desse jeito é uma coisa que está um pouco além da ciência. E aí cabem formas não científicas de conhecimento. Essa convivência tem que ser incentivada. Eu sinto que hoje existe uma polarização. Tem o pessoal que admira o conhecimento científico, e traduz isso quase como uma prova de ateísmo, e tem o pessoal religioso, que está tentando descartar o conhecimento científico. Eu acho essa polarização extremamente perigosa.

Primeiro que, como já diria J. Gould, religião e ciência falam de coisas diferentes, então não tem por que uma pisar no pé da outra. Contanto que cada um saiba respeitar a fronteira, está tudo certo. Segundo porque você cria uma guerra dentro da sociedade. Isso eu sinto com muita clareza. Existem aqueles que dizem ser os cruzados da ciência e, portanto, devem demolir a religião, e gente de alto calibre, como o Richard Dawkins, por exemplo, que é extremamente ácido nesse sentido, dizendo que a religião é a pior coisa que aconteceu e nós temos que extirpá-la da humanidade. De um outro lado, nós temos essa reação, que já vem de séculos e séculos, que é de rejeitar a ciência por sentir que ela está diminuindo a área de atuação de Deus. Eu entendo esse conflito do lado religioso, porque o lado religioso realmente foi oprimido ao longo da revolução científica a se colocar somente nas questões metafísicas e esquecer o mundo físico, e não foi fácil para a religião assimilar esse golpe. Mas de outro lado, eu vejo uma tentativa do outro terreno de tentar agora atropelar a religião também. Isso também é absolutamente descabido por que a ciência não pode desprovar a existência de Deus ou provar a existência de Deus. Não é uma hipótese testável, portanto jamais será atingida pela ciência. A necessidade de reacionários religiosos atacarem a ciência é um sintoma disso.

Eles estão precisando se defender porque estão com medo de serem atropelados. Não dá pra defender que um dia a ciência vai acabar com a religião. Não vai. Não faz parte do escopo; é um limite. E cabe aos cientistas também reconhecerem esses limites. E eu acho que o Gleiser [“A Ilha do Conhecimento”] fez um ótimo trabalho em seu último livro ao reconhecer exatamente esses limites. A metáfora da ilha do conhecimento é muito poderosa. Ele sugere que você tem uma ilha, onde estão as coisas conhecidas, e um vasto oceano do desconhecido. E, conforme você vai aumentando a ilha, você também vai aumentando a fronteira que você tem com o desconhecido. A busca científica é uma coisa que não tem fim. E ela amplia o desconhecido. A partir do momento que você vai expandindo a ciência você expande o desconhecido também. E você nunca vai ter uma ilha que tome conta de tudo e que o oceano seja todo desbravado. E ele usa aí argumentos de ordem cosmológica, a questão do universo observável – que a gente não tem como saber o que tem depois do universo observável. A ciência não é sem limites, como muitos querem fazer crer. É perigoso afirmar que a ciência tem limites porque você corre o risco de jogarem ela fora.

Onde você se pauta? Qual a matéria-prima do seu blog?
Tem muita coisa de fora. Às vezes me sugerem coisas. O bacana de você cultivar fontes ao longo de anos é que as pessoas te sugerem coisas. Eu não sou muito provinciano, com a ideia de dar sempre ciência brasileira. Sempre que tem um brasileiro eu acho legal e faço. Mas esse negócio de privilegiar o brasileiro porque é brasileiro eu acho meio bobo, para falar a verdade. A ciência é um empreendimento internacional. Claro que tem um aspecto bom de divulgar um brasileiro, que é o de inspiração, mostrar que o leitor, brasileiro, também pode fazer coisas bacanas. Mas o mérito é o mais importante. E no caso de astronomia, especificamente, a gente tem muita coisa que vem de fora, mais pelo aspecto tecnológico e orçamentário do que pela qualidade. A gente tem uma ótima safra de astrônomos brasileiros, mas a gente sabe que o tempo de telescópio deles é limitado e que eles não são muito numerosos, então é natural que eles acabem não se sobressaindo. Mas é muito legal quando você descobre um paper na PNAS e você escolheu pelo mérito e ver que tem um brasileiro lá e entrevista o brasileiro, como aconteceu tem umas duas semanas.