quinta-feira, 19 de abril de 2012

As redes sociais e a nova modalidade do capitalismo

Na semana passada, entrevistei um dos maiores teóricos do ciberespaço no Brasil, o professor Eugênio Trivinho da PUC-SP. A entrevista ainda será publicada no Blog do Luis Nassif em duas partes (uma edição jornalística e outra com a transcrição completa das duas horas e meia de conversa que tivemos), mas antecipo aqui no blog um trecho em que Trivinho explica a nova modalidade de capitalismo que vem sendo formada na última década, e que tem por trás o fortalecimento das redes sociais no mercado de capitais. Há, evidentmente, muitos outros assuntos que foram abordados sobre ciberespaço, jornalismo e até entre ciência, comunicação e sociedade. Mas a íntegra o leitor terá que aguardar até o dia da publicação. Adianto que foi uma das melhores entrevistas que fiz.  

Qual a concepção que o senhor tem pensado, nos últimos anos, sobre as redes sociais na Internet?
Eugénio Trivinho - Em primeiro lugar, a questão da categoria: redes sociais é um truísmo, uma expressão conceitual que acabou tendo bastante aceitação no campo jornalístico, no senso comum e também no campo acadêmico, por um descuido do hábito. Na realidade, o conceito é bastante pleonástico, porque não há rede que não seja social. O adjetivo entra aí quase como um qualificador em relação às redes, para redundar no óbvio. Superada essa questão do pleonasmo interno - e não deveria ser assim -, deveria ser o conceito de “rede sócio-tecnológica”. Esse é o conceito diferencial. Mas supondo que redes sociais são aquelas, e especificamente aquelas que se incubam no ciberespaço, e, articulando-se nele, emergem, trazem alguma coisa que nos faz pensar.

Sobretudo porque essas redes sociais tem dimensões, que tem sempre preocupado teóricos de diversos campos do saber. Elas tem uma dimensão claramente além do societário, da sociabilidade; tem uma função claramente política; econômica; cultural, evidentemente; e moral. No campo político, as redes sociais são uma espécie de epicentro articulatório de indivíduos que, a priori, são isolados, para fazer renascer alguma forma de movimentação na sociedade. E na sociedade pode ser dentro ou fora da rede. Essa forma de fazer política pode ser, muitas vezes, tão forte e envolvente que é capaz de se mobilizar e se fazer projeção contra o próprio aparato repressivo (cavalos, gás lacrimogêneo etc.).

Essas redes sociais tem um clara função econômica, de duas formas. Elas são articuladoras de novas formas de empreendedorismo. As formas de empreendedorismo que nasceram no ciberespaço, sinceramente, não estão vinculadas a certos padrões capitalistas; muitas vezes são projetos de pessoas que não vivem no mesmo local, cumprem determinadas funções, prestam serviços, a partir de lugares remotos, e são projetos que não implicam a contratação de mão de obra assalariada. E o fato de não haver contratação de mão de obra assalariada implica na recusa de certos pressupostos capitalistas, porque onde há emprego de mão de obra assalariada, há, evidentemente, produção de riqueza não repartida. Essa produção da mais-valia, que se reparte, na maior grandeza, para aquele que detém as condições de contratação, e a menor grandeza para aquele que apenas vende sua força de trabalho, sua competência cognitiva, sua habilidade profissional, a recusa e a ausência não configura, portanto, a existência daquele fio condutor que sempre animou o capitalismo, que foi a exploração de um ser humano por outro.

Mas, na verdade, podemos dizer que a exploração continua, mas de forma mais sutil. As pessoas se cadastram, fornecem seus dados e viram massa para as grandes empresas do ciberespaço.
Se se trata de um empreendimento vinculado à rede, em que o empreendedor contratou a mão de obra de estagiários, por exemplo, e paga salário para cada qual, com carteira assinada ou não, o lucro não é dividido entre pares e fica concentrado para aplicação da reprodução do próprio negócio, para a contratação de mais funcionários, para a ampliação de filiais. Se há esse esquema, há, evidentemente, modus operandi capitalista no sentido mais clássico. Quando não há, quando a prestação de serviço é feita por uma pessoa apenas, e ela não emprega mão de obra assalariada, então não há, evidentemente, a configuração da mais-valia. Porque tudo aquilo que é capital entrante é relacionado apenas à posse de uma pessoa. Então não há mais-valia; o que há é o pró-labore.

É muito curioso que, em muitos modelos de empreendedorismo que nasceram com o ciberespaço não há configuração clássica do capitalismo. Ao contrário, o que existe são muitas práticas de empreendedorismo produtivistas, mas sob um outro viés, que não implica necessariamente a contratação de funcionário que vão ganhar menos devido ao salário, em prol de alguém que vai ganhar mais, porque é o contratador. Na realidade, são formas compartilhadas de trabalho, cada qual vivendo em bases remotas, nem sempre no mesmo país, e que acabam perfazendo formas de prestação de serviços que implica, no final, a repartição assemelhada dos lucros. Isso é uma realidade muito interessante, que só foi possível com a emergência do ciberespaço.

A outra dimensão que as redes sociais trazem, essa sim mais sutíl e bastante curiosa, é o fato de que diversas mega corporações, que portanto trabalham suas marcas ao nível transnacional - e que muitas vezes são redes sociais, Facebook, por exemplo - e que se valem do trabalho articulado de milhões, bilhões de pessoas ao redor do mundo, consideradas como capital humano, e que aderem a essa marca sem gastar um tostão. E justamente por isso valoram, semana a semana, mês a mês, ano a ano, a marca.

Isso sim é a exploração de que falei.
É a exploração que não passa como exploração. É a exploração flexivel, sutil, imperceptível, obliterada de uma marca, que se gerencia como marca, que acolhe os consumidores - eles não precisam comprar nada no mercado.

Não entra o simbólico do dinheiro.
Não entra, não há essa troca econômica, portanto parece que a troca não existe, mas existe. Na realidade, esses que são acolhidos são justamente aqueles que concordam em ter perfis, em ativar os nichos de rede para poder se relacionar com pessoas etc. E o contexto dessas mega marcas, em termos da sua valoração no mercado - o Facebook entrou recentemente no mercado de capitais -, com marcas sendo vendidas por bilhões, por mais que haja sociabilidade livre, desinteressada e distribuída, compartilhada, há negócio como qualquer outro, do ponto de vista da economia de capitais. Então, a marca é acolhedora e aquele conjunto de milhões de pessoas, que aderem a essa marca, e que agem sem pensar que estão no terreno de um negócio, quanto mais pessoas houver para dar fomento e sustentação à marca, mais investidores haverá e mais a marca será benquista pelo capital de publicidade e que quer se vincular a ela. E, nesse caso, usuários de redes, pela interatividade, são considerados como meros objetos sem que saibam.

O Flickr promove eventos em vários lugares para promover a sua marca e se vale, evidentemente, da espontaneidade, da voluntariedade autonoma - pois ninguém é coagido, todo mundo faz porque quer - das pessoas. O que se vê são pessoas que fazem isso com prazer e com bastante consciência, pois sabem o que estão fazendo, ninguém é manipulado. As pessoas vão até o evento, sabem que estão num evento promocional e querem estar lá. São, portanto, corpos-propaganda, corpos de indivíduos (sem questão de gênero, de credo, nem de faixa etária ou, muitas vezes, salarial), que vão a esses eventos, tiram fotos, colocam nos seus perfis, dizendo que estiveram lá. E não se incomodam por serem garotos e garotas propaganda. É uma nova modalidade de capitalismo que estamos vendo surgir com as redes sociais. E não deixa de ser perversa.

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