domingo, 1 de abril de 2012

Einstein e Kant

Trechos do livro Como vejo o mundo, de 1953, em que Albert Einstein explica porque não pode aceitar a concepção de conhecimento sintético a priori de Kant:

O pensamento científico aperfeiçoa o pensamento pré-científico. Já que neste último o conceito de espaço tem uma função fundamental, estabeleçamos e estudemos este conceito. Há duas maneiras de aprender os conceitos e ambas são essenciais para perceber seu mecanismo. O primeiro é o analítico lógico. Quer resolver o problema: como é que os conceitos e os juízos dependem uns dos outros? Nossa resposta põe-nos logo em um terreno relativamente seguro! Encontramos e respeitamos esta segurança na matemática. Mas ela se obtem à custa de um continente sem conteúdo. Porque os conceitos não correspondem a um conteúdo a não ser que estejam unidos, mesmo de modo muito indireto, às experiências sensíveis. Contúdo, nenhuma pesquisa lógica pode afirmar esta união. Ela só pode ser vivida. E é justamente esta união que determina o valor epistemológico dos sistemas de conceitos.
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E aqui um exemplo didático de Einsten para justificar-se:

Um arqueólogo de uma futura civilização descobre um tratado de geometria de Euclides, mas sem figuras. Pela leitura dos teoremas, ele reconstituirá bem o emprego das palavras ponto, reta, plano. Reconstituirá também a cadeia dos teoremas e até, de acordo com as regras conhecidas, poderá inventar novos. Mas esta elaboração de teoremas será sempre para ele um verdadeiro jogo com palavras, enquanto ele não "puder imaginar alguma coisa" com os termos ponto, reta, plano etc. Mas se consegue, e unicamente se conseguir fazer isso, a geometria terá para ele um conteúdo real. O mesmo raciocínio aplica-se à mecânica analítica e em geral a todas as ciências lógico-dedutivas. Que é que quero dizer com "poder imaginar alguma coisa com os termos ponto, reta, plano etc."? Em primeiro lugar, esclareço que é preciso expressar a matéria das experiências sensíveis a que se referem estas palavras. Este problema extralógico será sempre o problema-chave que o arqueólogo só poderá resolver por intuição, buscando em suas experiências encontrar algo análogo a estas expressões primitivas da teoria e, destes axiomas, as próprias bases das regras do jogo. É assim, de modo absoluto, que se deve colocar a questão da existência de uma coisa representada abstratamente.

Einstein nunca pôde aceitar a posição "a priori" de Kant, pois, nas questões de realidade, dizia que jamais se pode tratar a não ser de uma única coisa a saber: procurar os caracteres dos conjuntos concernentes às experiências sensíveis e detectar os conceitos que a elas se referem.

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