segunda-feira, 16 de abril de 2012

A era do jornalismo “sagrado” acabou

Os últimos acontecimentos recentes sobre os envolvimentos da revista Veja com o bicheiro Carlinhos Cachoeira me inquietaram de tal forma que, com esforço, lembrei-me de um texto que havia lido da obra Profanações, do filósofo Giorgio Agamben, que vem bem a calhar. Lá pela página 66 do livro, no capítulo Elogio da Profanação, lê-se:

Depois de ter sido profanado, o que estava indisponível e separado perde a sua aura e acaba restituído ao uso. Trata-se de desativar os dispositivos do poder e devolver ao uso comum os espaços que ele havia confiscado.

Agamben está falando de religião e profanação, mas na verdade é para dizer outra coisa.

Vamos pensar o seguinte:
Há um grande grupo de mídia que durante décadas foi quem cuidou de transformar fatos em notícia – um processo reconhecidamente capitalista, industrial. Durante décadas, esse grupo foi o responsável, além disso, de preparar uma agenda, em torno da qual as discussões subsequentes deslanchariam no espaço público de debate. Assim, um evento de grande potencial de audiência e repercussão – como um escândalo público, um caso de corrupção – passava, imediatamente, a ser um produto exclusivo daquele grupo. Ele se tornava dono absoluto não só da representação do fato, mas do fato em si – inclusive dos fatos seguintes, como investigações, inquéritos, debates. Ninguém que ousasse, de fora desse grupo de mídia, mostrar outro ponto de vista ou outra avaliação sobre o caso conseguiria competir, de igual para igual, com ele. E, consequentemente, aquela nova visão, alternativa, se repercutia, era somente por meio de grupos menores.

O grande grupo, portanto, tinha o poder de sacralizar-se a cada novo escândalo, a cada novo dossiê. O fato nascia – muitas vezes criado pelo próprio grande grupo – e num só corpo, fato e mídia tornavam-se única imagem a ser venerada.

Mais adiante, leio de Agamben:

Pode-se definir como religião aquilo que subtrai coisas, lugares, animais ou pessoas ao uso comum e as transfere para uma esfera separada. Não só não há religião sem separação, como toda separação contém ou conserva em si um núcleo genuinamente religioso. O dispositivo que realiza e regula a separação é o sacrifício: através de uma série de rituais minuciosos, diferenciados segundo a variedade de culturas, e que Hubert e Mauss inventariaram pacientemente, ele estabelece, em todo caso, a passagem de algo do profano para o sagrado, da esfera humana para a divina.

Ora, e não é o que o grande grupo de mídia fez? Durante décadas agiu como agente separador: separou a apuração especializada, da apuração que não fosse a realizada por ele; separou os fatos que lhe garantiriam prestigio na cobertura, daqueles que não mereceriam atenção; separou o fazer jornalístico, daquilo que julgavam não ser jornalismo (segundo critérios tendenciosos); separou as informações do fato. E, por fim, separou o único olhar, sacralizado, dos outros olhares profanos (e que não mereceram destaque). Se houve algum sentimento de unificação, certamente este foi o do monopólio da informação, o que colaborou mais ainda para a sacralização da mídia.

Durante décadas, o jornalismo brasileiro da grande mídia não acrescentou, senão subtraiu. Pois assim é o senso comum, enxuto, porém mantido, através do mito e do ritual (o ritual do ler jornal, o ritual do ligar a TV todas as noites, naquele mesmo horário), ditante e ao mesmo tempo próximo. Como Agamben mostra, a religião é, paradoxalmente, próxima e distante ao mesmo tempo do homem. Ela quer aproximar, enquanto se distancia.

O termo religião, segundo uma etimologia ao mesmo tempo insípida e inexata, não deriva de religare (o que liga e une o humano e o divino), mas de relegere, que indica a atitude de escrúpulo e de atenção que deve caracterizar as relações com os deuses, a inquieta hesitação (o “reler”) perante as formas – e as fórmulas – que se devem observar a fim de respeitar a separação entre o sagrado e o profano. Religio não é o que une homens e deuses, mas aquilo que cuida para que se mantenham distintos. Por isso, à religião não se opõem a incredulidade e a diferença com relação ao divino, mas a “negligência”, uma atitude livre e “distraída” – ou seja, desvinculada da religião das normas – diante das coisas e do seu uso, diante das formas da separação e do seu significado. Profanar significa abrir a possibilidade de uma forma especial de negligência, que ignora a separação, ou melhor, faz dela um uso particular.

O grande grupo de mídia também tem o seu relegere: separou o jornalismo formal (sagrado) das contestações alternativas (profanas). A verdade absoluta do fato era aquela que era produzida pelo sagrado.

Na configuração atual, os fatos tendem a sofrer a ruptura.É cada vez mais intenso o processo que “negligencia” a separação entre o informação como produto único do grande grupo. A expansão das redes sociais na Internet, ainda que não seja em todo acessível, tem atuado como agente profano, no sentido de que assim que “toca” um novo fato (esteja ele sendo abordado pelo grande grupo ou não), desencanta e devolve ao povo (ou setores envolvidos) o uso da informação, que antes era separado, petrificado e só então devolvido à sociedade - como verdade absoluta.

O que foi separado ritualmente pode ser restituído, mediante o rito, à esfera profana”.

O rito é a desapropriação da notícia, e restituir à esfera profana significa fazer o fato ser investigado não só por um só grupo, mas pelos demais. Afinal, o acesso à informação é apenas uma etapa da democracia; a outra diz respeito ao acesso à PRODUÇÃO da informação. E isso envolve difusão e divulgação igualmente.

E mais uma de Agamben:
Depois de ter sido profanado, o que estava indisponível e separado perde a sua aura e acaba restituído ao uso. Trata-se de desativar os dispositivos do poder e devolver ao uso comum os espaços que ele havia confiscado.

Não preciso acrescentar mais nada.

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