segunda-feira, 23 de abril de 2012

O paradoxo chamado Nordeste

Algumas considerações sobre o que foi discutido no 22º Fórum de Debates Brasilianas.org - Desenvolvimento Regional -, que realizamos, pela Dinheiro Vivo, hoje em São Paulo.


O Nordeste é um dos principais exemplos que constam na lista dos grandes paradoxos brasileiros. É a região que tem o maior déficit social do país - cerca de 60% da população mais pobre do Brasil encontra-se lá -, tem os maiores índices de analfabetismo; a concentração de renda é maior do que a média nacional (reforçando a desigualdade social), assim como a mortalidade infantil (em 2009, segundo o IBGE, a média da região foi 34% e a nacional, 23%). Ao mesmo tempo, é a região que mais prospera economicamente. Na composição setorial do Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste, vemos que, em 1970, a industria representava apenas 18%, frente aos 23% da agricultura e 59% do setor de serviços. Em 2011, a projeção mostrou avanço da indústria (23%) e dos serviços (69%) e recuo da agricultura (8%). Apenas para comparar, a média do Brasil, no fator indústria, em 2011, foi de 27%.


É verdade que a região tornou-se, na última década, um dos principais pólos (escrevo pólos ainda com acento agudo, embora a nova ortografia tenha retirado) de desenvolvimento do país. A obstinação do governo Lula de retirar da miséria milhões de brasileiros - o que vem sendo encaminhado pela presidente Dilma, com o programa Brasil sem Miséria - criou uma nova massa, ainda em ascensão, que foi introduzida ao consumo, aquecendo o mercado interno. E não apenas o acesso ao consumo, mas à cidadania, ao se valorizar o salário mínimo, ampliar o emprego e o crédito, favorecendo o surgimento de novos pequenos empreendedores também. E é no Nordeste onde esse processo ficou mais claro.


E por lá ter sido o local onde ficou mais claro o desenvolvimento regional, que vemos também mais nítido os grandes problemas do Brasil. Como se o Nordeste fosse uma amostra grátis do país: tem altos investimentos de grandes empresas, como a Petrobras, e, ao mesmo tempo, falta de infraestrutura logística e social; tem a alta tecnologia, grandes portos, como o de Suape, em Pernambuco, usina eólica, rede turística em expansão, mas, como todo o resto do país, sofre com as falhas na articulação entre União, Estados e municípios, alta tributação e baixo crédito a longo prazo.


Segundo informações do presidente do Banco do Nordeste (responsável por 70% do financiamento de crédito de longo prazo na região), Jurandir Vieira Santiago, até 2020, a perspectiva é de que a indústria tenha 30% de participação no PIB do Nordeste. Além disso, os investimentos públicos entre 2012 e 2014 devem totalizar R$ 124,8 bilhões, e incluindo PPPs (Parcerias Público-Privadas). Esse montante será investido em refinarias, ferrovias, portos, aeroportos, interligação de bacias hidrográficas, rodovias (a Transnordestina) e obras da Copa do Mundo. Entre os investimentos privados estão montadoras ( A Fiat abrirá fábricas na Bahia e em Pernambuco em breve), siderurgicas e usinas eólicas.


Vendo tudo isso devemos ter em mente que boa parte dos que é planejado tem que carregar o fator da perenidade. Ou seja, tem que ser pensado para durar. E não apenas durar, mas servir de fonte de transmissão de novos desenvolvimentos no entorno dos grandes investimentos.
É o que levantou o coordenador do Observatório Celso Furtado para o Desenvolvimento Regional, Carlos Antônio Brandão, no último painel do evento. “Uma atividade é um enclave ou gera dinamismo para o seu entorno?”. Toda as oportunidades de crescimento no Nordeste, com indústrias e o potencial do turismo e da economia criativa só trarão retorno significativos para a região se foram abordados de maneira estratégica e, mais ainda, se possuirem, na concepção (a priori), a idéia de que devem transbordar para as demais áreas menos aptas a receber grandes investimentos. Afinal, é um sistema.


Por exemplo. Pernambuco é hoje um monstro na questão de gestão participativa e de condução de grandes investimentos. Mas o mesmo não encontra-se em Estados vizinhos. Ora, pois não se tem, em larga escala, essa noção de alargamento dos problemas e das soluções. No Brasil, o que temos de mais próximo disso é o modelo do Sistema Único de Saúde. Inclusive no Nordeste, temos um exemplo excelente de como o consorciamento e a parceria entre dois municípios - Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco - formaram uma rede (a Rede “Peba”) interestadual, que atende as diferentes demandas da região, de forma racional e estratégica.

Desse modo, com trabalho articulado, um município que tem potencial no Turismo, evidentemente, receberá mais recursos para esse setor, do que aquele vizinho que não possui o mesmo potencial, mas que, territorialmente, é rota importante para o escoamento da produção agrícola de um terceiro município, que é forte na área agrícola. Temos três vantagens, mas três formas de investimento distintas. Se olharmos o primeiro município, rico no Turismo, como apenas um ponto turístico, ele continuará sempre naquela condição. Assim como o segundo sempre será rota logística e o terceiro, pólo agrícola. Agora, se os três receberem uma visão ampla, capaz de identificar a conexão, verá que os três podem conversar. Pois turismo precisa de abastecimento de produtos, que precisa de logística. Os problemas podem ser articulados entre a esfera municipal.


Amanhã eu e a equipe do Brasilianas publicaremos as matérias completas sobre o que foi discutido no evento. E os links serão atualizados neste post.

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