segunda-feira, 9 de abril de 2012

O método perigoso de Freud

No último sábado, finalmente assisti ao filme do canadense David Cronenberg que está em cartaz, A Dangerous Method (Um Método Perigoso). Dessa vez, o diretor de The Fly (A Mosca - versão de 1986) baseou-se no livro A Most Dangerous Method, de Johnny Kerr, e na peça teatral The Talking Cure, de Christopher Hampton, para contar a história do embate intelectual entre Sigmund Freud (considerado o pai da psicanalise, e sobre o qual pode-se ler biagrafia definitiva escrita por Peter Gay) e Carl G. Jung, fundador da psicologia analítica. Entre ambos, durante o momento de ruptura entre o mestre e o seguidor, está Sabina Spielrein, uma das primeiras mulheres a exercer a psicanálise e ex-paciente/amante de Jung.

Assista ao trailer:




Basicamente, o filme faz um recorte preciso entre o dia em que Jung recebe Sabina como sua paciente - quando Jung ainda fazia parte da equipe de Eugen Bleuler - e o dia em que se despedem, com Sabina já casada, esperando um filho de outro homem, e Jung mais conformado, porém ferido por tê-la perdido (é quando diz: "É preciso estar ferido, para curar"). Entre essas duas datas, o ápice da relação de Freud e Jung, viajando juntos para os EUA, e o ponto crítico, quando trocam farpas por meio de correspondência até que rompem de vez.

Para os leigos em psicanálise, ou mesmo para os curiosos, como eu, é uma oportunidade de entender - mesmo guiado pelo olhar e pela interpretação de Cronenberg - como se deu esse processo: Jung não aceitava a falta de elasticidade na teoria de Freud, para o qual a origem das psicoses estava sempre associada a um fato sexual na vida do paciente; e Freud chegou a considerar como "mística" e "nada científica" a abordagem de Jung. Isso porque Jung acreditava que seu papel deveria ser não apenas o de indicar ao paciente as razões deve ser como é, mas também de apresentar caminhos para o paciente transformar-se, adaptar-se diante de uma nova realidade, enquanto Freud era, digamos, mais conformista (a pessoa é o que é, e não há nada o que se possa fazer para mudar essa realidade).

Além disso, Freud mostrava-se extremamente preocupado com sua imagem de autoridade, enquanto Jung não via problema de falar sobre seus próprios sonhos com os pares.

Mas o ponto alto do filme não é exatamente o ponto de ruptura entre dois grandes gênios, mas outra ruptura menos sutíl. Uma a que muitos intelectuais costumam sofrer. E a aborgagem desse ponto foi muito bem trabalhada por Cronenberg, habituado a perturbar o público.

Trata-se da complexidade da relação entre médico e paciente e, mais especificamente, entre analista e paciente (Jung e Sabina). Sabina sofria de uma perturbação (ou "trauma", quero evitar termos técnicos)  - que a fazia temer os homens. Analisada por Jung - por meio dos métodos de Freud - os dois descobrem as origens do problema de Sabina, obviamente relacionados com sexo, figura paterna e "masoquismo". Quando criança, Sabina apanhava muito do pai, e com o tempo passou a sentir prazer com a dor. Cresceu sentindo-se suja, culpada, pervertida dentro de uma sociedade que ainda estava para se abrir para o sexo.

O ponto alto do filme se dá aí. Usando o método de Freud (será esse o perigoso método), Jung liberta Sabina, mas quase que imadiatamente ambos são conduzidos a uma relação intensa e complexa. Ficam prisioneiros um do outro, unidos pelo elo sexual: encontros diários, intensos, com Jung perdendo o controle de si e disposto a satisfazer as fantasias sexuais de Sabina (tapas, chicotadas com cinto, palmadas etc). Inverte-se o papel, e Jung passe-se a se sentir preso, culpado, sujo, afinal tinha consciência de que tria a mulher. Vale destacar aqui o importante papel de Otto Gross nessa história. Gross foi um psiquiatra psicótico, também paciente de Jung. Pregava a poligamia, a libertação sexual e a luta contra quaisquer amarras da sociedade civilizada. Morreu de fome. Mas foi o responsável por convencer de vez Jung a procurar Sabina na casa dela e, naquela noite, entregar-se a sua paciente como amante.

No filme, Carl Jung é interpretado por Michael Fassbender (que ficou a cara de Jung mais moço) e Freud, por Viggo Mortensen, que já trabalhou com Cronenberg em "Marcas da Violência" e "Senhores do Crime". Sabina Spielrein está aos cuidados da atriz inglesa Keira Knightley, que fez Piratas do Caribe.

Recomendo, portanto, o filme, que não é uma história da psicanalise (nem pretende ser), muito menos uma história de amor. Fala, na verdade, dos processos contraditórios que estão presentes na formação e construção de pensamentos e escolas de pensamento e, mais ainda, sobre os conflitos que atingem aqueles que estão presos a um método, uma linha. É, assim, sobre a vida cotidiana (genérica) (Jung entrnado no quarto de Sabina e arrancando a roupa dela) e a vida formal (Jung discutindo em congressos, como especialista). O método perigoso de Freud não se tournou uma ameaça a Jung apenas no campo acadêmico. Foi graças a esse método que Jung desvendou Sabina, apaixonou-se por ela, e depois sofreu a perda de Sabina, que inclusive mais tarde revelou mais simpatia ao método de Freud do que do antigo namorado.

O método comprovou-se perigoso, pois foi com Sabina que Jung testou pela primeira vez as idéia de Freud. Deu certo? Não deu? De que forma a experiência amorosa e sexual com Sabina influenciou Jung a divergir "cientificamente" de Freud?

Vai saber...

Para saber mais:

Em 2003, foi lançado The Soul Keeper (Jornada da Alma), do diretor . O filme conta a história de Sabina Spielrein. Confira aqui a primeira parte do filme:

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