quarta-feira, 4 de abril de 2012

Os efeitos do novo pacote para a indústria

Apesar de registrar crescimento de 1,3% em fevereiro, a produção industrial brasileira continua apresentando sinais de desaceleração. Segundo dados do IBGE divulgados ontem, o setor perdeu 3,4% nos dois primeiros meses de 2012, em comparação com igual período no ano passado. Na comparação com fevereiro de 2011, a produção de bens de consumo duráveis teve queda de 22,1% e a de bens de capital, 16%. análise apresentada pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), a produção industrial de fevereiro deste ano é 3% menor em relação ao mês de setembro de 2008, quando foi deflagrada a crise internacional.

Ontem, o governo federal lançou novas medidas do Plano Brasil Maior, que incluem desoneração da folha de pagamento para 15 segmentos da indústria a incentivos para compras governamentais e de defesa comercial. Serão mantidas as medidas para conter a valorização do real e o aumento dos juros.

Conversei com o economista Rogério César de Souza, professor da PUC-SP e consultor do IEDI sobre os efeitos das novas medidas para a retomada da produção industrial. Para Souza, há uma clara intenção do governo em socorrer a indústria, mas as medidas anunciadas ainda não constituem uma completa política industrial.

“O governo começa a delinear algo que se possa caracterizar como uma política industrial de fato. Há traços modernos quando se desonera alguns segmentos e se questiona o que o segmento dará em contrapartida.” Ainda assim, trata-se de ação inédita no país, pois contempla segmentos que carregam potencial de futuro, como semicondutores e informática. 

Souza também destaca que, por mais que haja o peso do “tsunami monetário”, é o Custo Brasil o principal fator da desaceleração. “O que dificulta a competitividade da indústria hoje é o Custo Brasil, sempre foi. E nesse momento, o câmbio só torna isso mais explícito”. Confira.

O governo agora ampliou o leque de setores industriais que serão socorridos pela desoneração da folha. Qual sua avaliação?
Rogério César de Souza - São os setores mais tradicionais da economia brasileira, como têxtil, calçados e vestuário. Ele vem sofrendo muito frente ao produto importado, perdendo competitividade, com balança comercial negativa, algo que não acontecia. Nesse sentido, as medidas, mesmo sendo pontuais, vem a calhar para tentar minimizar os impactos severos que esses segmentos da indústria vem sofrendo. Embora saibamos que, não só para esses segmentos, mas para a indústria em geral, os problemas são de outra natureza, e devem ser enfrentados com medidas mais de longo prazo. 

Mas algumas medidas anunciadas ontem serão permanentes. No caso da desoneração, com a Receita Federal cobrindo possível déficit na previdência, o que pode ser acarretado a longo prazo?

O governo está fazendo as contas, junto com a Fazenda, com o Tesouro Nacional e com a Receita, para tentar ver esse custo, que é claro. O difícil é calcular o benefício numa ação como essa. Temos que apostar que o governo está fazendo a conta corretamente. Com esses setores crescendo, aumentando emprego, ainda esse ano, ou pelo menos não diminuindo empregos, a arrecadação do governo também será coberta pelo outro lado. 


Pelas alíquotas em cima dos investimentos?
Não só em cima da alíquota, mas por meio da economia aquecida.

Quais as perspectivas para os próximos meses?

Reconhecemos o esforço do governo para com a indústria, e por isso as medidas são bem-vindas. mas eu quero salientar outro ponto importante. Diferente de tudo o que já foi feito até agora, começa-se a dar um perfil mais de longo prazo, principalmente quando se coloca a questão da informática e das telecomunicações, com incentivos para a produção de semicondutores. Vai sair de foco essa palavra, que nós mesmos usamos e a imprensa também, o “pacote”, que sempre tem data para terminar. isso já começa a mudar, ao se prestigiar setores de alta tecnologia.

Outro ponto que deve ser levado em conta, e que é um pouco inédito no país, é você dar, por exemplo no caso do automóvel, falar em IPI, mas ao mesmo tempo pedir uma contrapartida muito clara. Exigir um percentual de produtos brasileiros, mas mais do que isso, querer uma estratégia de desenvolvimento e tecnologia, utilizando componentes nacionais [nos veículos]. Isso é uma figura nova na política industrial do governo e que seria muito bom se desdobrasse para outras medidas.

Então há caráter de longo prazo nas novas medidas. Falamos de uma verdadeira política industrial?

Política industrial tem que ser a longo prazo. Com essas medidas, o governo começa a delinear algo que se possa caracterizar como uma política industrial de fato. Há traços modernos quando se desonera alguns segmentos e se questiona o que o segmento dará em contrapartida. Uma política industrial, e bem feita, é aquela que expõem seus motivos e justifica a escolhas dos setores, ligada a uma estratégia, deixando bem claro o porquê desse ou de outro segmento. Apresentando, também, metas de acompanhamento, prevendo em quanto tempo se alcançará resultado. Aí sim você terá uma política industrial estruturada. Eu vejo, agora, que o governo dá sinais que vão em direção a isso.

O processo de desindustrialização se intensificou a partir dos anos 1980 no Brasil. Quais eram as barreiras históricas que impediam a tomada de medidas como as que foram apresentadas ontem em Brasília?

Um breve parênteses antes. O termo desindustrialização pode gerar um tipo de engano. Quando falamos em desindustrialização, parece que a indústria já chegou num ponto e agora está voltando para trás. Eu acho que a indústria precisa dar um salto de qualidade. Ela está encolhendo, é verdade, mas mais do que recuperar a indústria para o jeito que ela estava, é preciso dar um salto. Trata-se de transformar [e não retomar]. Mas voltando para sua questão, o que está acontecendo é que essa crise que começou em 2008 mudou o cenário mundial, e boa parte das economias centrais do capitalismo estão com economia doméstica fraca. A saída encontrada foi a exportação. 

Estamos vendo uma enxurrada de produtos da indústria de transformação chegando aqui. Aliado a isso, tem a questão do câmbio, que tornam mais competitivos os bens importados, e, por final, uma questão que está ligada ao Custo Brasil: carga tributária, altos custos de infraestrutura e logística, folha de pagamentos, custo da energia. O que dificulta a competitividade da indústria hoje é o Custo Brasil, sempre foi. E nesse momento, o câmbio só torna isso mais explícito. Os europeus financiam a taxas baixas, com juros baixos, e com incentivos de muitas outras naturezas para poder exportar. Assim, chega aqui um produto bastante competitivo. 

Como que a Selic entra como fator de impacto nessa recuperação da indústria?
A taxa de juros básica da economia ainda está num nível reconhecidamente alto [9,75%] se compararmos com o que acontece no mundo. Os efeitos dela não vão apresentar ação imediata, mas, de qualquer forma, pensando em termos da indústria, ocorre sim um impacto. Se a Selic começa a cair, você muda as expectativas dos empresários em relação ao investimento. Com taxas de juros baixas, você facilita o financiamento e viabiliza o investimento. Há, portanto efeito real na economia. 

Agora, do ponto de vista do consumidor, evidentemente que há algum efeito. É lógico que existe nossa estrutura bancária - a questão dos spreads bancários -, que deve ser discutida. Mas que [a queda na Selic] provoca efeito, ela provoca sim, principalmente na compra de bens duráveis, como carros e imóveis. E diminuindo essa diferença entre taxa de juros internacionais, você também alivia um pouco o câmbio.

Confira também a publicação no Blog do Luis Nassif.

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