terça-feira, 10 de abril de 2012

A visita de Dilma a Harvard e ao MIT

A visita da presidenta Dilma Rousseff aos Estados Unidos traz resultados efetivos antes mesmo que algumas medidas sejam colocadas em práticas. E num momento importante, imediatamente após o lançamento de novo pacote para a indústria brasileira, que vem sofrendo processo intenso de desvalorização. No campo econômico, mostrou um Brasil capaz de dialogar com grandes nações e apontar o dedo para os problemas da política monetária expansionista que alguns tem praticado. Não se trata mais de uma conversa de única via. Diante do presidente Barack Obama, Dilma disse que as "políticas monetárias solidárias, no que se refere a políticas fiscais, levam à desvalorização das moedas nos países desenvolvidos, levando ao comprometimento dos países emergentes".

A declaração alerta para o que o governo brasileiro tem chamado de "guerra cambial", intensificada com a eclosão da crise na Europa. Com suas economias internas fragilizadas, países europeus, como a Alemanha, não tiveram outra opção a não ser dedicar atenção para as exportações, desvalorizando suas moedas. Termometro desse movimento é a China, que ultimamente voltou-se para seu mercado interno, ao deparar-se com seu maior mercado externo (Europa) fechado para as importações.

Durante o encontro com Obama, Dilma mencionou o momento de melhoria da economia norte-americana, mas não deixou de lado o "tsunami monetário" que o Brasil enfrenta, com o dólar desvalorizado em relação ao real (apesar da queda nos últimos dias, ainda não estamos num patamar favorável). Isso se deve à injeção de dólares aplicada por países ricos, como os EUA, reduzindo a cotação do dólar em relação a moedas locais, no caso o real.

Claro, a culpa não é apenas do tal tsunami. Há fatores exclusivamente nacionais, tão típicos quanto o samba, a caipirinha e o Pelé. Falo do chamado Custo Brasil, com alta tributação, taxa de juros altíssima - uma Selic hoje de 9,75% - (que acaba atraindo investidores extrangeiros, o que não significa retorno através de investimentos no país) e falta de infraestrutura.

Mas, sim, presenciamos - por causa da crise - algo que piora nossa situação: uma desvalorização cambial artificial por parte das nações desenvolvidas.

"Nova Era"

Mas o mais surpreendente desse encontro se deu no campo da inovação e da educação. Foram as parcerias fechadas hoje entre o governo brasileiro e duas grandes instituições reconhecidas no mundo todo quando o assunto é Ciência e Tecnologia: o MIT (Massachusetts Institute of Technology) e a Harvard. Na reunião com Susan Hockfield, Dilma fechou dois acordos de cooperação com a instituição. O objetivo é aumentar o número de estudantes brasileiros e a troca de conhecimentos tecnológicos.

à frente do MIT desde 2004, Hockfield disse estar entusiasmada com a parceria. O fato é um marco na história do Brasil, ao associar-se com uma tradicional instituição respoinsável, apenas, por 77 prêmios Nobel e 52 vencedores de olimpíadas nacionais de ciência.

Ao contrário do que alguns sites noticiaram, o MIT não abrirá um escritório no Brasil. Foi um mal-entendido após uma conversa entre o ministro da Educação, Aloísio Mercadante, e representantes do instituto. Em nota, a assessoria de imprensa do MIT disse que o o órgão não pode abrir outras unidades fora dos EUA. Contudo, o convênio assinado com o ITA será conduzido.

De acordo com a direção do MIT, há um total de 58 estudantes brasileiros atualmente no MIT, sendo 10 de graduação, 40 de de pós-graduação e oito visitantes. No momento existe também sete brasileiros em programas de pós-doutorado e três professores do Brasil.

Em Harvard, a aproximação caminhou no mesmo sentido - o de ampliar o ingresso de brasileiros na instituição, e promover maior intercâmbio de conhecimentos entre universidades brasileiras e a norte-americana.

Segundo informou a AFP, o objetivo de Dilma é impulsionar o programa Ciência sem Fronteiras, que irá conceder 75.000 bolsas ao longo de 4 anos e que tem por objetivo obter avanços nas áreas de tecnologia e inovação, por meio do intercâmbio de pesquisadores, estudantes e professores entre instituições brasileiras e do exterior.

A visita ao MIT e a Harvard, onde palestrou para estudantes, mostrou que Dilma Rousseff tem total consciência de que a inovação só é algo que se consolida passando pelo desenvolvimento de tecnologia própria, o que se obtém exigindo a transferência de conhecimento e tecnologias. E, no caso brasileiro, há ainda fatores que devem ser resolvidos simultaneamente: os problemas do câmbio, da indústria, dos juros.

Em seu discurso em Harvard, disse:

“Nós temos imensos desafios, imensos desafios até porque o Brasil é um país complexo. Nós temos de tratar da erradicação da miséria, ao mesmo tempo em que tratamos de assegurar que nós consigamos não só educação de qualidade, mas gerar pesquisa científica, tecnológica e inovação. Nós temos de, ao mesmo tempo em que tratamos de uma questão que é do final do século XIX e início do XX, que é a energia elétrica, temos de assegurar rede de banda larga nas principais regiões do Brasil e caminhar para tornar o Brasil um país ligado”

Sem fronteiras para intercâmbios do conhecimento, resta, no entanto, o país levantar barreiras contra os importados. E, se for para importar, que seja alta tecnologia, mas exigindo a contrapartida da transferência de tecnologia, como os chineses e os sul-coreanos fizeram.

Este 10 de abril de 2012 não deve ser esquecido.

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