quarta-feira, 30 de maio de 2012

Como reunir o coletivo?

"Pode ser que nem tudo seja político, mas a política ocupa-se de formar um todo, desde que se aceite redefiní-la como o conjunto de tarefas que permitem a composição progressiva de um mundo comum". A reflexão é do filósofo francês Bruno Latour, no livro Políticas da Natureza, e vem a calhar com alguns temas que discutimos no momento no Brasil.

Temos no noticiário recente temas que desfilam na mesma esteira da polêmica, mas que dizem respeito a áreas do conhecimento distintas. CPI do Cachoeira envolve administração pública, ética e política no nível micro e discussões sobre liberdade de imprensa. Código Florestal fala, amplamente, de meio ambiente e economia. Rio+20 é clima, ciência. Há outros temas, não menos importantes: a Marcha das Vadias, que abasteceu a grande imprensa de fotos de seios (mas cujo debate é muito maior do que isso); a polêmica sobre a recém-formada Comissão da Verdade (se deve ou não investigar também aqueles que pegaram em armas para derrubar a Ditadura). Não cito ainda as eleições municipais, pois ainda estão na fase pré-eleitoral, de debates ainda sendo aquecidos. Mas menciono o caos da semana passada, no metrô de São Paulo, antecipando a polarização entre PT e PSDB.

Enfim, há outros temas - uns mais pontuais, outros mais estruturais. Mas chamo a atenção para o seguinte: o que de comum em ambos é o potencial de reunião coletiva em torno de cada tema. E mesmo aqueles que exigem olhares mais técnicos e científicos, como Código Florestal e Rio+20 (aquecimento global), proporcionam ambientes para a ação política do coletivo. Há muito que o debate técnico-científico sobre, por exemplo, aquecimento global foi resolvido. Físicos, biólogos, químicos chamam a atenção para o aquecimento, enquanto geólogos e especialistas em clima dizem que não é bem assim, e que, inclusive, o planeta pode estar entrando numa nova fase glacial. Mas o debate midiatizado só ocorre quando a coletividade o politiza.

Ora, se a formação do todo só ocorre a partir do momento quando se toma política como o conjunto de tarefas que permitem a composição progressiva de um mundo comum, pergunto: quais os fatores que são capazes de permitir a composição de um mundo comum? Um mundo comum que, numa Rio+20, ou num dos maiores processos de investigação da Polícia Federal, possa ser capaz de identificar, no meio do debate, o que é verdadeiro e construtivo e o que é ruído, bobagem.

Dentro desse conjunto de tarefas, identifico a ação política do povo; a tomada de consciência social; a autonomia crítica e o acesso à informação irrestrito e democrático. E cada uma dessas "tarefas" depende uma da outra.

O sistema tem como cimento a circulação de informações. O problema é que a predominância de um modelo comunicacional essencialmente segregador contribui para que a maior parte das questões conspirem  em direção dos interesses de poucos. Esse modelo cria uma imagem de coletivo falsa, que, ilusoriamente, causa a sensação de que há de fato uma organização política e progressiva em torno da informação. No fundo, são seios na Av. Paulista e uma massa que grita "Veta Dilma". Vultos. Mas de quem?

As decisões, no entanto, sobre como direcionar o debate são feitas por "operações misteriosas", como diz Latour e como nos mostrou o caso Veja.

Este é o mais emblemático: a maior revista do país realizando operações misteriosas, mas sempre valendo-se do bem do coletivo.

A questão é mais profunda: o que é democratizar a informação? É permitir o acesso do coletivo a um único modelo de pensamento, ou garantir o acesso a diversos modelos e, inclusive, à operacionalização da informação?

Certo, com a Internet enterrou-se aquela velha teoria da Agenda Setting, ou seja, a grande mídia não organiza mais os temas que saerão discutidos pelo público. Se a Globo não fala da Veja, nós, nas redes sociais e nos blogs, falamos. OK. Mas a despeito dessa conquista, as operações misteriosas ainda cabem à grande mídia. É o sub-mundo das grandes redações, nos porões da Veja, que ainda sobrevive o "negócio-notícia", aquele que se alia a empresários corruptos, políticos sem escrúpulos.

Volto, portanto, à questão inicial: se a política deve ser o conjunto de tarefas que permitem a composição de um mundo comum, não devemos nos dar por satisfeitos porque graças à Internet estamos competindo com os grandes veículos, no sentido de romper com um modelo que outrora considerava o público como receptor passivo de informações. Isso foi um avanço. Mas o que há de comum entre temas de economia, ciência e política tratados pela imprensa é que em torno deles há a reunião do coletivo. E somente este é capaz de avançar no sentido de tomar das mãos do antigo modelo as "operações misteriosas" que são mantidas longe do coletivo.

Vamos a outro momento de Latour:

"Servindo-se da objetividade para abreviar os processos políticos, ousou-se confundir as ciências com esse atalho que a violência autorizava - e tudo isso em nome da mais alta moral e da mais melindrosa das virtudes! Com a natureza queria-se passar à força, isto é, com razão. Sim, uma verdadeira impostura intelectual, felizmente tornada sem efeito". 

O que se quer dizer é que é necessário que nos tornemos capazes de convocar o coletivo, encarregado de "coletar" a multiplicidade de associações e fatores, evitando a o modelo que até agora permitiu a prática de operações em segredo e privilegiadas.

Latour:

"No outono de 1997, em Kyoto, havia apenas um único conclave para receber os grandes desse mundo, os príncipes, lobistas, chefes de Estado, industriais, cientistas e pesquisadores de todas as disciplinas, para decidir em comum como ia o planeta e como nos devíamos comportar doravante em relação a ele para conservar a qualidade do céu. Ora, o colóquio de Kyoto não se contentou em unir as duas antigas assembléias, a dos políticos e a dos cientistas em uma terceira câmara, mais ampla, mais vasta, mais orgânica, mais sintética, mais holística, mais complexa. Não, políticos e cientistas, industriais e militantes encontraram-se nos bancos da mesma assembléia, sem mais poder nem ao menos contar com as antigas vantagens de uma saudação vinda do exterior pela Ciência, nem lastimar-se dando de ombros: 'Que nos importam essas disputas? De qualquer maneira a Terra girará sem nós, o que quer que digamos!'. Passamos de duas câmaras para um só coletivo. A política deve retomar seu curso sem a transcendência da natureza: é este o fenômeno histórico que nos demos a obrigação de compreender".




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