sexta-feira, 18 de maio de 2012

A falácia de Rodas sobre a PM

A Carta Capital publicou hoje em seu site uma entrevista com o reitor da Universidade de São Paulo (USP), Grandino Roda, concendida ao jornalista Sérgio Lirio. É, na verdade, um direito de resposta À reportagem Grandido Rodas, o bárbaro, publicada em abril pela revista. Destaco, porém, um trecho da entrevista, com grifos meus:

Carta Capital: O senhor defende bastante, e com propriedade, a internacionalização da USP. A ocupação pela Polícia Militar do campus não seria uma nódoa para a imagem internacional da universidade? Não espantaria candidatos a professores e alunos?

Rodas: Não há ocupação por parte da PM. Houve aumento de policiamento, em razão do clamor pelo assassinato do aluno Felipe Ramos de Paiva, em maio de 2011. O convênio com a PM, aprovado em tese e no seu conteúdo pelo conselho gestor do campus reflete a intenção da USP e da PM de que haja: 1) policiamento comunitário, feito por profissionais preparados para esse fim; e 2) supervisão de entidades externas como os institutos Sou da Paz e São Paulo contra a Violência. Por disposição constitucional, as PMs estaduais possuem poder de polícia, tendo as guardas particulares, como a guarda universitária, apenas o caráter de proteção patrimonial.

Carta Capital: O problema da segurança da USP não poderia ter sido resolvido com mais iluminação e modificações para estimular a circulação das pessoas?

Rodas: Em nenhum lugar do mundo, diminui-se a criminalidade somente com iluminação e modificação na circulação.



Certo. Agora retomo um artigo de novembro do ano passado, escrito pela respeitada urbanista Raquel Rolnik, professora da FAU-USP e relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada, e publicado no blog dela. Novamente, com grifos meus:

É uma enorme falácia, dentro ou fora da universidade, dizer que presença de polícia é sinônimo de segurança e vice-versa. O modelo urbanístico do campus, segregado, unifuncional, com densidade de ocupação baixíssima e com mobilidade baseada no automóvel é o mais inseguro dos modelos urbanísticos, porque tem enormes espaços vazios, sem circulação de pessoas, mal iluminados e abandonados durante várias horas do dia e da noite. Esse modelo, como o de muitos outros campi do Brasil, foi desenhado na época da ditadura militar e até hoje não foi devidamente debatido e superado. É evidente, portanto, que a questão da segurança tem muito a ver com a equação urbanística.

Pergunto: por mais que a presença de PM no campus seja um "clamor", como diz Rodas, não seria esta uma forma perversa de também continuar a manutenção de um modelo disfuncional, como mostra Rolnik? Evidentemente, é mais fácil e pragmático aumentar o número de policiais, pois com essa medida evidenetemente se reduz o número de violência no campus, ao amedontrar criminosos, e também, de "brinde", aumenta-se a repressão contra alunos. Com uma mudança mais sistêmica, no modelo urbano da cidade, com mais iluminação e vias de mobilidade pedestre, a administração de Rodas também conseguiria reprimir os crimes, mas não conseguiria evitar o aumento das mobilizações e manifestações estudantis. Assim, com PM, Rodas mata dois coelhos, enquanto com mudança estrutural, perderia para a democracia.








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