segunda-feira, 14 de maio de 2012

Incompreensíveis para as massas, Maiakovski

Por essa situação todo jornalista passa, pelo menos, umas 100 vezes na vida. Naquela roda de amigos no bar, num almoço em família, num encontro româmntico, enfim. Alguém fica sabendo que você é jornalista - e geralmente é aquela pessoa cuja noção máxima do que seja a profissão não passa de um Willian Bonner ou duas Patrícias Poetas. E quase sempre não passa de uma pessoa, o resto dá de ombros se você é jornalista ou não. Logo cria-se, entre o jornalista e esse interlecutor, um misto de fascínio e respeito, curiosidade e provocação. A pessoa automaticamente entende que você, jornalista, é algo exótico, tem um charme, uma sabedoria que remete aos tempos da Ditadura, e ao mesmo tempo "que sabe muito das coisas". Porque faz o seguinte raciocínio lógico:

- Ele é jornalista, logo gosta de ler muito, logo escreve bem, logo sabe do que é certo.

Parte dos meus colegas jornalistas aproveita esta hora para calibrar aquela dosagem de ego que sempre cai bem na profissão. Soltam um sorrizinho no canto da boca, murmuram algo como "er...bem...sim!", e dão mais detalhes da vida emocionante de dar furos, levantar denúncias e ficar horas pela madrugada escrevendo até as mãos sangrarem. Aliás, se tem uma coisa que não entendo é essa: o jornalista é o única profissional que conheço que não se incomoda quando tem que trabalhar mais do que deveria. Chega até a gostar, e comenta em redes sociais na Internet, como se fosse um mérito: "trabalhando muito hoje aqui na redação!". Nem o médico, que também faz plantões, é tão entusiasmado assim com hora extra. Mas são dessas coisas que o jornalista utiliza tão bem para transformar seu laber diário um pouco menos comum.

Eu, nessas horas, já sou um pouco mais "balde de água fria". Primeiro ao explicar para meu interlocutor curioso pela profissão de jornaliosta que boa parte do fascínio que há é construção tão fictícia quanto muitas linhas da Veja. Segundo, ao tentar mostrar que essa colocação do jornalismo como condutor mor da sabedoria cotidiana que deve ser repassada ao "público comum" é outro mito.

- Se alguém é jornalista, pode até ser porque gosta de ler muito - mas não o suficiente para ser um literato - e que goste de escrever, e até escreva bem - mas não o suficiente para ser um escritor. Há casos raros, claro. E, mais importante, não é capaz de saber do que é certo. Não é, portanto, um dono da informação.

O problema é que muitos jornalistas ainda compreendem que sem eles o mundo não gira. E o povo não sabe. E esse povo, acreditam, só pode saber "por meio" de alguém.

Durante minha ainda curta vida profissional já pude ver e ouvir isso de perto, não se trata de especulação ou jogo teórico meu. É comum nas redações aquela figura metida à besta de editor-chefe dizer, do alto de sua caneta, que "isso o público não vai entender". Se tem uma coisa que jornalista dessa linhagem faz bem é encobrir sua preguiça intelectual enchendo a boca com uma boa frase de efeito, que cai bem numa reunião de pauta com o pobre repórter: "tire isso, pois o público não vai entender".

Na verdade, é o editor que não é capaz de entender, mas como goza de autoridade dentro das redações, pode subestimar livremente essa entidade chamada público. Mas sobre isso, quem pode contar melhor é o próprio Bonner Homer e, sobre outra perspectiva, o professor Laurindo Lalo Leal.

A questão é que não é um mal presente apenas em grandes redações, como Globo e Veja. Está na TV pública e em veículos progressistas, pois virou praticamente um axioma da profissão: o público médio.

Enfatizo: a questão da intemediação e da "divulgação" científica não deve ser um jogo de rebaixamento de qualidade. Esse "povo" é sim capaz de aprender e de entrar em grandes debates importantes do país. Riscar com uma caneta a parte do texto que é considerada mais espinhosa é um ato criminoso.

Por isso, quando uma pessoa vem com esse papo de que jornalista é a profissão que define notícia, deve-se tomar cuidado. É um fabricador de realidades, quando não um usurpador dos fatos, em nome de uma ficção, chamada público médio.

Para mim, jornalista que se nega a enfrentar o desafio de explicar está a favor da manutenção da idiotização pela imprensa.

Incompreensíveis para as massas
Wladimir Maiakovski

Entre o autor e o público, posta-se o intermediário.

E o gosto do intermediário
é bastante intermédio, medíocre.

Medianeiros médios pululam nos meios, onde, galopando, teu pensamento chega.
Um deles considera tudo sonolento:
"Sou homem de outra têmpera! Perdão",
e repete um só refrão:
"O público não compreenderá".

Camponês, só viu um faz tempo, antes da guerra.
Operários, deu com dois, uma vez, numa ponte, vendo subir a água da enchente.

Mas diz que os conhece como a palma da mão.
Que sabe tudo o que querem!
Aqui vai meu aparte: chega de chuchotar bobagens para os pobres. Também eles, podem compreender a arte. Logo, que se eleve a cultura do povo!
Uma só, para todos.

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