quarta-feira, 2 de maio de 2012

A manutenção da dependência por meio da Ciência

Recentemente, comprei de um sebista lá da Filosofia da USP o livro Ciência e Libertação (1969), do físico José Leite Lopes, falecido em 2006. Lopes foi diretor do Instituto de Física da UFRJ e um dos grandes pensadores da política científica brasileira. O livro veio a calhar, pois tenho me preparado para entrevistar uma fonte do alto escalão do governo, extamente sobre o último corte de 23% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Será um tema que desenvolverei nos próximos dias aqui no blog.

Mas destaco um trecho do Ciência e Libertação, de J. Leite Lopes, que deve ser grifado quase 43 anos depois da publicação:

A grande maioria dos cientistas e admiradores das nações desenvolvidas, mesmo os mais liberais, continua a sustentar a tese de que aquilo que os países subdesenvolvidos devem fazer é comprar (como em um supermercado) as tecnologias e indústrias necessárias a seu desenvolvimento. Ignoram, assim, que sustentam a manutenção da dependência dos países do Terceiro Mundo em relação aos avançados, dessa vez não mais com vice-governadores ou tropas de ocupação, mas através da dependência mais sutil do conhecimento científico, das tecnologias aperfeiçoadas e, inclusive, de manuais de ensino e métodos de educação, elaborados nas universidades e laboratórios das grandes potências

Lido isto, recorri a outro clássico, agora da economia. Em Sistema Nacional de Economia Política, o economista alemão Friedrich List (1789-1846) traça a história econômica de grandes potências da época, mostrando como se deu o processo de desenvolvimento de nações como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. Destaco um trecho da página 23, da edição que integra a coleção Os Economistas, da editora Nova Cultural:

Eis por que cabe a pergunta: como, e por que motivo, um pesquisador tão profundo como Adam Smith, pôde permitir-se deixar de realizar uma pesquisa ao mesmo tempo tão interessante e tão rica em resultados? Não podemos enxergar nenhum outra razão senão esta - sua pesquisa tê-lo-ia levado a conclusões que muito pouco abonariam seu princípio da liberdade absoluta de comércio. Infalivelmente teria deparado com o fato seguinte: depois que o intercâmbio comercial livre com os hanseáticos fez a agricultura inglesa progredir a partir de um estágio de barbárie, foi a política comercial restritiva e de proteção ao comércio interno que, adotada pela Inglaterra, em detrimento dos hanseáticos, dos belgas e dos holandeses, conduziu a Inglaterra à supremacia manufatureira, e que foi desta última, secundada pelas Leis de Navegação, que surgiu a supremacia comercial inglesa. Desses fatos, ao que parece, Adam Smith não quis tomar conhecimento, ou não os quis reconhecer. Isso porque fazem parte daquela categoria de fatos incômodos que, como afirma J-B Say, se teriam comprovado muito contrários ao seu sistema.

As últimas medidas do governo federal, com novo pacote para a indústria, aumento do crédito para pequenas empresas e mais restrições a produtos importados, como os automóveis, significa uma tomada de consciência importante para a proteção de nossa indústria. O país está mais para List do que para Smith.

Porém, cortes no orçamento do MCTI - apesar da ampliação dos programas de investimento para BNDES e Finep - não condiz com essa tomada de consciência. A ciência, sem muitas condições de ser ampliada financeiramente, não pode ajudar o país a sair desta manutenção da dependência de que fala Leite Lopes. Pois o ciclo é assim: as comunidades cientifica e empresarial escrevem manifesto criticando o corte de orçamento; aí vem o governo e diz que o corte não bem assim, que há mais verba na Finep etc., e afirma que são os empresários que devem investir mais em inovação. Aí vem os empresários e alegam que não tem condições de inovar, pois com uma taxa de câmbio alta não conseguem encontrar ambiente de competitividade mínima lá fora. Aí o governo abre novo pacote, livra alguns setores de alguns tributos, mas não se atinge o principal: o câmbio e o investimento direto e massivo em P&D.

Vamos acompanhando.

Um comentário:

  1. Perfeito, Bruno!!

    Seu melhor post aré agora. Conciliou teoria e boa pesquisa (que achado este de Leite Lopes) com fato concreto - o corte de recursos do MCTI.
    Grande abraço

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