segunda-feira, 28 de maio de 2012

O "cinema puro" e o Surrealismo

O cinema surrealista tem como marco o ano de 1928, com o filme Um cão andaluz, dos espanhóis Luis Buñuel e Salvador Dalí. O longametragem, de aproximadamente 20 minutos, é lembrado não só pela cena chocante de uma navalha cortando um globo ocular, mas principalmente pela ousadia de, nos primórdios do cinema, subverter a lógica linear de uma narrativa. São muitos enigmas, símbolos, sugestões e caos, além de contradição temporal e espacial.

Porém, a obra de Buñuel foi precedida por outras, de autores que contribuiram não apenas para o movimento surrealista, mas também para a evolução do cinema. Na mesma década de cão andaluz, os franceses Louis Delluc e Germane Dulac faziam filmes com a intenção de libertar a imagem da influência do texto literário, de acordo com uma idéia de cinema puro. Nesta mesma linha, estava o cineasta Jean Epstein, representante do cinema impressionista.

Aqui, Fievre (1921), de Delluc. Reparem na trilha sonora:



E aqui Finis Terrae (1929), de Epstein.



No caso do Surrealismo, é importante lembrar que o período estava sob forte influência de algumas teorias no campo das ciências. Em 1899, Freud publicava sua Interpretação dos Sonhos, permeando, nas décadas seguintes, os conceitos da Psicanalise. E Albert Einstein lançava sua Teoria da Relatividade em 1915, influenciado por outros cientistas, como Ernst Mach. Disseminada a idéia de relatividade, em que tempo e espaço não são absolutos e estão articulados, e de incosciente e o poder dos sonhos, aquela geração de artistas e novos cineastas passou a questionar os modelos formais de produção simbólica.

E não só a linguagem é reinventada, mas as formas como representar o horror, as pulsões, o erotismo.

Em 1926, Marcel Duchamp realiza o curtametragem Anemic Cinema, no estúdio de Man Ray, com colaboração de Marc Allégret e Calvin Tomkins. Trata-se de um clássico do cinema experimental, e que também buscou elaborar um "cinema puro". Confira:




Man Ray em 1934
Man Ray é um caso interessante. Sua obra dadaísta teve destaque na fotografia e se estendeu para o cinema. Formado em engenharia, iniciou na arte pintando quadros.
May Ray com Dali, em 1934

 
O trabalho de Ray na pintura é um caso à parte. Foi um dos pintores que participaram da primeira exposição surrealista, na Galerie Pierre, em 1925. Uma das obras de Ray desse período é o metrônomo de um olho, originalmente chamado de Objeto Para Ser Destruído (1923), como você vê ao lado. É um readymade, na mesma direção dos trabalhos de Duchamp, que afloravam na época. E o nome - Objeto Para ser Destruído - levava esse nome, pois era acompanhado de instruções sobre como deveria ser destruído. Em 1957, o trbalho original foi destruído por um grupo de poetas, que seguiram à risca a recomendação de Ray, para que a obra fosse aniquilada. A figura ao lado mostra, na verdade, uma das réplicas. Mas a face de Man Ray que quero destacar neste post é a de cineasta.Abaixo, coloco o filme Le Retour à la Raison, de 1923. É uma sequencia de diferentes texturas em movimento, sem áudio, apenas imagem. Cinema (movimento) puro.







Todas essas experiências com imagem buscaram trabalhar com o conceito de cinema puro. De maneira experimental, representaram, por imagens, o caos dos sonhos, dos delírios e da tecnologia. O cinema surrealista e o cinema dadaísta muito tem a ver com as declarações que, hoje em dia, o cineasta inglês Peter Greenaway, que visitou o Brasil há pouco tempo, tem dado sobre a sétima arte. Para ele, o cinema está morto. ou melhor, nunca existiu. O que existe é apenas narrativas ilustradas. Concordo com Greenaway até certo ponto.

O cinema pode estar morto sim, mas hove, no começo do século passado, tentativas de consolidar um cinema essencialmente imagético, sem o auxílio de narrativas ou mesmo sons. E nãop falo aqui do cinema mudo como um todo, pois um filme mudo pode ser narrativo, basta seguir ordem cronológica dos fatos, respeitando uma sequencia lógica, como em D. W. Griffith, que utilizou montagem paralela, suspense etc.

O cinema surrealista também é mudo, mas subversivo. Não dinstingue o que real do que é imagético. Muitos autores contemporâneos, como David Lynch e o próprio Greenaway, chegaram perto disso.

Mas foram os surrealistas que primeiro ousarão estabelecer um cinema puro, com as imagens falando por si.

Abaixo, um exemplo de filme surrealista de David Lynch. É um curta, chamado Six men getting sick, de 1966.













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