segunda-feira, 7 de maio de 2012

O fim do Quarto Poder

A idéia de imprensa como quarto poder está no consciente de todos. Responsável pela fabricação diária de senso comum, a imprensa consolidou a tese de que ela própria é o quarto poder. De fato, há um espaço no qual a imprensa - e toda a mídia e os agentes políticos - é inserida: o espaço do conflito simbólico. É neste espaço vitual onde são operadas as guerras do mundo atual. É, assim, um espaço de poderes, mas não um quarto poder.

O Caso Veja mais recente, envolvendo sua relação com a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira, ao contrário do que se pode pensar, mostra que a imprensa não é o quarto poder. E não o é porque na concepção do conceito de QUARTO poder está o interesse público frente ao poder do Estado. Ora, no caso da Veja, o que se verificou foi interesses privados utilizando a revista semanal como instrumento de combate, uma vez que em nossa sociedade a guerra é simbolizada. À primeira vista, ilusoriamente, pode-se tomar a revista como representante de um outro poder, um poder que vigia o Estado, denuncia, derruba corruptos, afasta ministros.

Falso.

O que Veja fez foi salvaguardar os interesses de um grupo. E o fez de maneira criminosa. Mesmo o bom jornalismo nãó é quarto poder; conceito este liberal e ingênuo. Afinal, procura ofuscar a lógica de produção das estruturas jornalísticas.

Conforme afirma a jornalista e pesquisadora Sylvia Moretzsohn, "recuperar o papel da mediação jornalística implica investi-lo do sentido político mascarado pela prevalência da idéia liberal de 'quarto poder' e enfrentar essa lógica das rotinas de produção, o que significa enfrentar as bases sobre as quais as grandes corporações se estruturam".

Foi com a bandeira do quarto poder que se fortaleceram as coorporações, como a Abril, e que foi colocada essa barreira da falsa mediação entre as relações entre Estado e movimentos sociais.

Foi por trás desse "axioma" do quarto poder que veículos, como a Veja, poliram suas reportagens encomendadas com a objetividade.

A idéia de imprensa como quarto poder também implíca chamar para si, por parte da imprensa, o papel de porta-voz do povo (outra entidade mítica).

A grande mídia pode ser qualquer coisa, menos quarto poder. Pois o posicionamente dela diante da representação de grupos ou classes é sempre no sentido reducionista e não interacionista. As vozes dos movimentos ou setores são instrumentalizados como armas simbólicas. Outro ponto: um quarto poder deveria falar em nome de todos, como bem lembra Moretzsohn.

"A auto-legitimação como um prestador de serviço para todos faz parte da estratégia da imprensa para assegurar seu lugar de autoridade. Mas, ao mesmo tempo, implica o processo de naturalização dos fatos sociais traduzidos como notícia. O jornal, afinal, pode apresentar-se como o espaço da ordem, uma ordem con-sensual, inquestionável, indispensável para a vida em sociedade".

É perigoso, portanto, a idéia de quarto poder, quando, na contrapartida, aprendemos que a imprensa não é uma autoridade inquestionável.

Com o início da CMPI, amanhã, também se começa um ciclo de queda desta imprensa. E também a queda de um conceito fictício, tolo, maldoso e perverso: o quarto poder. Mas se para negar algo, este algo deve existir; então o quarto poder sempre existiu para ser aniquilado.





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