sexta-feira, 22 de junho de 2012

Anton Tchekhov, a brincadeira

Pouco antes de partir, uns dois dias talvez, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, ainda há neve pelos cantos, as árvores ainda estão mortas, mas já se sente o cheiro da primavera. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. Vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa no céu o olhar tristonho… O vento da tarde lhe sopra no rosto, pálido e desanimado… Ele faz com que ela se lembre daquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras. Com isso o seu rosto fica triste, muito triste, e pela faze desliza uma lágrima… A pobrezinha estende os braços, como se implorasse ao vento que lhe traga mais uma vez aquelas quatro palavras. Eu espero o vento favorável, e sopro a meia vez:
 

“Eu te amo, Nádia!”

Trecho do conto A Brincadeira, do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904)

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