sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ignacy Sachs e o novo contrato social

Hoje pela manhã participei de uma entrevista com o economista polonês Ignacy Sachs, sobre desenvolvimernto sustentável e as perspectivas para a Rio+20, que começou na última quarta-feira. Aos 85 anos, veio ao Brasil especialmente para o evento no Rio de Janeiro, onde morou, entre 1941 e 1954, refugiado da Seguda Guerra.

Sachs recebeu eu e a repórter Lilian Milena, também do Blog do Luis Nassif. A entrevista, gravada em vídeo, será disponibilizada logo mais, na íntegra. Mas destaco alguns pontos que abordamos.

Sachs sustenta a tese de que caminhos para um novo contrato social.No cenário atual, a principal meta do desenvolvimento de longo prazo deve ser a redução das desigualdades sociais entre nações e dentro de muitos países, tendo como mecanismo de convergência as mudanças climáticas.

Para o ecossocioeconomista, as reflexões ainda carecem de uma avaliação crítica completa do século XX, o que deveria ser feito por historiadores do "imediato", abordando, especialmente, a queda da União Soviética e o surgimento dos Estados do Bem-Estar Social nos países escandinavos e do New Deal nos Estados Unidos, assim como as economias mistas dos países em desenvolvimento.

A partir desses estudos, poderiamos formular novos paradigmas de planejamento democrático e também de gestão econômica. Além disso, seria facilitada a elaboração de estratégias de desenvolviomento capazes de oferecer condições materiais e o desfrute das liberdades básicas.

Em artigo escrito especialmente para a Rio+20, Sachs afirma que os padrões do setor público nas economias mistas público-privadas dos países em desenvolvimento podem ser analizados mediante dois modelos históricos: o modelo japonês da Era Meiji - em que o Estado limitou-se a desempenhar um papel transitório inicial - e o modelo indiano iniciado por Nehru - conhecido também como modelo socialista de sociedade.

Em outras palavras, fala-se de "terceiras vias" (nem o capitalismo clássico, nem o socialismo real). As terceiras vias (quais seriam?) devem ter como arterias o progresso científico e técnico e a criatividade humana.

Um dos problemas quando discute-se mudanças nos padrões de consumo e produção, para atender às exigências da sustentabilidade, é que tais transformações são caras e contradizem as demandas das nações em desenvolvimento, que assistem ao crescimento da classe média. Sachs concorda que o modelo precisa ser capaz de garantir os padrões de vida material a cada um dos nove a dez bilhões de seres humanos que estão "navegando na espaçonave Terra", como ele costuma dizer.

E a saída não está, portanto, na restrição do desenvolvimento dos mais pobres, mas no "compartilhamento equitativo do ter", lembrando do economista e religioso católico francês Louis Joseph Lebret.

Sachs defende, então, o autocontrole do consumo. No artigo que citei, o economista explica melhor: "Como não há razão para acreditar que esgotamos o potencial de progresso técnico e de melhor aproveitamento das energias disponíveis, é razoável supor que na sociedade do futuro cada vez menos tempo de trabalho será necessário para produzir bens materiais. Desse modo, será possível reduzir gradualmente a participação relativa do tempo social dedicado às atividades do homo faber, disponibilizando mais tempo para o homo ludens. Concomitantemente, devemos assegurar que o tempo total de trabalho e de rendimentos do trabalho sejam distribuídos de forma justa entre todos os trabalhadores em potencial, para que o flagelo do desemprego seja eliminado. O céu é o limite para as atividades culturais e lúdicas, desde que aprendamos a fazer bom e agradável uso do tempo que liberado do trabalho".


O conceito de homo ludens Sachs toma emprestado do historiador neerlandês Johan Huizinga, que em 1938 escreve o fantástico Homo Ludens, obra no qual sustenta o jogo e a brincadeira como algo inato ao homem.

O "X" da questão, no entanto, é o seguinte: tudo isso depende, a priori, de um novo contrato social, fundamentado na solidariedade internacional.


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Quando cheguei para a entrevista, Sachs estava irritadíssimo com as reportagens e artigos sobre os primeiros dias de Rio+20 que leu na grande imprensa brasileira. Em especial, estava zangado com o Estadão de hoje (15/06), que afirmava que os primeiros movimentos da conferência prenunciam o fracasso do evento, uma vez que o cenário de crise econômica mundial exige, primeiro, a solução pragmática da crise. Só depois, diz o jornal, deve-se pensar em desenvolvimento sustentável. Para Sachs, é exatamente o contrário: porque há crise econômica, que se deve buscar soluções sustentáveis.



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