segunda-feira, 11 de junho de 2012

Moritz Schlick e a causalidade na física

O físico alemão Moritz Schlick (1882 - 1936) foi um dos principais nomes do Círculo de Viena, grupo de filósofos que se reunia semanalmente para discutir temas da ciência e do positivismo lógico. Basicamente, o círculo sustentava o pensamento empírico e rejeitava a metafísica, tendo como influência as idéias do físico, matemático e psicólogo austríaco Ernst Mach, que era, em verdade, um fenomenalista - negando a coisa em si. Enfim, é um tema sobre o qual tenho estudado desde o começo do ano.

 Moritz Schlick 
Mas aqui no blog destaco um trecho do artigo A Causalidade na Física Atual, escrito por Schlick em 1931, traduzido do original alemão "Die Kausalitaet in der gegenwartigen Physik" na coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, de 1975 (talvez uma das poucas coisas boas que a Editora Abril fez até hoje).

"Infinito é o número dos mundos físicos imagináveis, logicamente possíveis. Entretanto, a fantasia humana se demonstra extraordinariamente pobre ao tentar excogitar e elaborar novas possibilidades neste campo. 


A capacidade de imaginação da mente humana está tão estreitamente ligada às condições perceptíveis da experiência, que pelas próprias forças não consegue desviar-se delas um passo sequer. Somente a forte pressão da refinada experiência científica logra libertar o pensamento humano das suas convicções habituais e arraigadas. 


O mais variegado reino das fadas das mil e uma noites é formado exclusivamente com as pedras do mundo da vida diária, através de combinações bem insignificantes do material conhecido.


Se examinarmos com maior exatidão os sistemas filosóficos mais ousados e profundos, observaremos que ao final vale o mesmo quanto a eles: em se tratando do poeta, partiu-se de uma construção com imagens plásticas; em se tratando do filósofo, partiu-se de uma construção à base de conceitos abstratos e todavia costumeiros, e com este material edificaram-se novas construções, recorrendo a princípios de combinação bastante evidentes.


Também o físico, em princípio, procede da mesma forma ao arquitetar as suas hipóteses. Constitui demonstração particular disto a pertinácia com a qual os físicos mantiveram a convicção de que, para explicar a natureza, impõe-se uma reconstrução dos processos ou eventos através de modelos suscetíveis de representação acessível aos sentidos, de sorte que, por exemplo, sempre de novo pretenderam dotar o éter luminoso com as propriedades das substâncias visíveis e sensíveis, ainda que para isto não houvesse nenhum motivo. Somente quando os fatos observados convidam ou obrigam o cientista a empregar os novos sistemas de conceitos, enxerga ele os novos caminhos e se liberta das concepções até ali adotadas - neste caso, porém, fá-lo de bom grado, efetuando então com facilidade o salto para o espaço de Riemann ou para o tempo de Einstein, para concepções tão ousadas e profundas, que nem a fantasia de um poeta nem a inteligência de um filósofo teriam podido prever.


A reviravolta à qual chegou a Física dos últimos anos no que concerne ao problema da "causalidade" constitui também algo que não era preciso prever. 


Por mais que se tenha filosofado acerca do determinismo e do indeterminismo, sobre o conteúdo, a validade e a verificação do princípio da causalidade, a ninguém ocorreu a possibilidade que nos oferece a física dos quanta, dando-nos a chave que nos capacita a compreender o tipo de ordem causal realmente existente na realidade.


Somente mais tarde reconhecemos em que ponto as novas ideias divergem das antigas, e nos admiramos talvez um pouco ante o fato de que a encruzilhada decisiva sempre nos escapou à atenção".

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