terça-feira, 12 de junho de 2012

Rio+20 e os paradoxos da Ciência

Um dos temas centrais da Rio+20, que acontecerá na próxima semana, é o aquecimento global. Mais ainda, os paradoxos do desenvolvimento sustentável. Como abastecer as populações que estão saindo da miséria e conquistando espaço nas metrópoles, sem, ao mesmo tempo, intensificar a exploração de recursos naturais do planeta? No cerne desse debate, temos a ciência. Mais ainda: temos expostas as limitações da ciência. Afinal, qual a precisão dos estudos que comprovam a influência humana no aquecimento global? E qual a precisão dos estudos que comprovam a não influência humana no clima? Com ou sem aquecimento global, como a ciência pode contribuir para que as decisões políticas não se limitem a slogans doutrinários?

A proposta da Rio+20 é pensar a integração entre fatores sociais, econômicos e ambientais. São três grandes caminhos que se encontram atualmente. O primeiro é seguido pelos representantes oficiais, de governos, com o objetivo de negociar uma declaração oficial, envolvendo diplomacia, burocracia e parafernalha midiática. O segundo caminho é dos agentes da sociedade civil; neste grupo, dá-se a grande discussão, envolvendo ONGs, universidade, técnicos e sujeitos das mais diversas áreas. E o terceiro caminho é aquele que articula discursos oficiais, como o da ONU, e o da sociedade civil, principalmente empresas privadas.

Em 1972, houve uma reunião em Estocolmo, a primeira reunião global da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento. Em 1992, novamente outro encontro, no Rio de Janeiro. Agora, com mais uma reunião também no Rio, as atenções voltam-se para 2015, quando se fará o balanço das Metas do Milênio, estabelecidas em 2000. A data é decisiva também para as negociações em torno do clima e da redução da emissão de CO2.

Além da questão ambiental, a Rio+20 abarca debate sobre direitos humanos. E aí que está o desafio do desenvolvimento para os próximos anos. Comprovando-se ou não que o aquecimento global é obra do ser humano, deve-se saber se a Terra é capaz se suportar o ritmo de exploração dos recursos naturais. E isso envolve a questão dos direitos humanos, uma vez que o acesso a alimentos e moradia, principalmente em países em desenvolvimento, que possuem classe média em ascensão, tem feita a demanda por energia aumentar. Com isso, as metrópoles também tem crescido, e consequentemente todos os problemas de grandes cidades, como poluição, resíduos sólidos, consumismo etc.

Críticos da tese de que o aquecimento global é responsabilidade do homem apontam que, na verdade, o argumento acima é baboseira. Segundo esses cientistas - na maioria são geólogos e geógrafos - as mudanças no clima da Terra são decorrência de transformações esperadas e que acontecem de tempos em tempos, e que o discurso ambientalista na verdade é uma tentativa de impedir que países mais pobres possam prosperar, uma vez que a adaptação às normas sustentáveis de produção exigem altos investimentos em tecnologia.

Os defensores da idéia de aquecimento global antropogênico tem como principal representante o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). Trata-se de uma comissão da ONU formada por centenas de cientistas de 195 países. Atualmente, o brasil conta com 25 brasileiros no IPCC, entre eles destaca-se o climatologista Carlos Nobre, a ex-secretária de mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Thelma Krug, o biólogo Marcos Buckeridge, e o físico Paulo Artaxo. Assim como os “céticos”, os pesquisadores do IPCC também possuem bons argumentos científicos para tentar convencer o público leigo de que o aumento da emissão de CO2 na atmosfera é a principal causa do aquecimento da Terra.

Entre as medidas que defendem estão, claro, a redução das emissões, o aumento da eficiência energética e uso de fontes renováveis, melhores técnicas para a construção e a iluminação, redução de queimadas, regulação de motores dos automóveis, melhor uso do solo na agropecuária, ou seja, aumento dos ganhos de produtividade.

Ninguém contesta que as medidas são boas. Qualquer ação para reduzir a poluição no mundo é bem-vinda. Mas toda essa revolução sustentável exige mudanças profundas de governabilidade, gestão estratégica e altos investimentos em novas tecnologias.

Um dos maiores nomes da turma dos “céticos” é o físico Luiz Carlos Molion, que tem se dedicado à desmistificar o aquecimento global, considerado uma farsa por muitos de seus pares. Molion é signatário - junto com mais outros dez pesquisadores, entre eles o geólogo da USP Kenitiro Suguio - de uma carta aberta enviada por eles à presidente Dilma Rousseff, na semana passada. O grupo coloca no documento argumentos técnicos que vão contra aqueles que defendem o aquecimento provocado pelo ser humano.

Segundo Molion e seus companheiros, não há evidências físicas da influência humana no clima global, e o que se verifica ao redor da discussão é muito sensacionalismo. “Todos os prognósticos que indicam elevações exageradas das temperaturas e dos níveis do mar, nas décadas vindouras, além de outros efeitos negativos atribuídos ao lançamento de compostos de carbono de origem humana (antropogênicos) na atmosfera, baseiam-se em projeções de modelos matemáticos, que constituem apenas simplificações limitadas do sistema climático - e, portanto, não deveriam ser usados para fundamentar políticas públicas e estratégias de longo alcance e com grandes impactos socioeconômicos de âmbito global”.

Os pesquisadores ainda dizem que a influência humana restringe-se às cidades e seus entornos, o que não atinge uma escala planetária. “Para que a ação humana no clima global ficasse demonstrada, seria preciso que, nos últimos dois séculos, estivessem ocorrendo níveis inusitadamente altos de temperaturas e níveis do mar e, principalmente, que as taxas de variação (gradientes) fossem superiores às verificadas anteriormente”, completam.

A respeito do problema dos modelos matemáticos, em 2010 alguns escândalos abalaram a imagem do IPCC. Foram descobertas fraudes em relatórios do painel, mostrando que muitos dados não passavam de especulação. O caso marcante ocorreu um pouco antes, no final de 2009, quando um grupo de hackers conseguiu ter acesso - e divulgar - mais de mil e-mails trocados entre cientistas da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, um dos principais centros de climatologia do mundo. De acordo com jornais à época, as mensagens mostravam que os pesquisadores distorciam gráficos para provar que a Terra passava por seu momento “mais quente” dos últimos mil anos.

Outro fato explicitado pelos e-mails foi que o grupo de defensores do aquecimento global agiam para boicotar os céticos, conseguindo impedir, inclusive, que eles publicassem artigos em prestigiadas revistas científicas. Os e-mail mais escandalosos eram de autoria do climatologista Phil Jones, diretor do Centro de Pesquisas Climáticas daquela universidade. Em entrevista após o vazamento dos e-mails, Jones confessou que havia manipulado dados e admitiu que nos períodos de 1860-1880 e 1910-1940, a Terra passou por aquecimento semelhante ao que ocorre hoje em dia, sem que, no entanto, possa se culpar a atividade humana.

De fato, como consta na carta dos céticos brasileiros, o relatório de 2007 do IPCC registra que, no período 1850-2000, as temperaturas aumentaram 0,74°C, e que, entre 1870 e 2000, os níveis do mar subiram 0,2 m. O nó é que, ao longo do Holoceno (época geológica correspondente aos últimos 12.000 anos em que a civilização tem existido), houve diversos períodos com temperaturas mais altas que as atuais.

“No Holoceno Médio, há 5.000-6.000 anos, as temperaturas médias chegaram a ser 2-3°C superiores às atuais, enquanto os níveis do mar atingiam até 3 metros acima do atual. Igualmente, nos períodos quentes conhecidos como Minoano (1500-1200 a.C.), Romano (séc. VI a.C.-V d.C.) e Medieval (séc. X-XIII d.C.), as temperaturas atingiram mais de 1°C acima das atuais. Quanto às taxas de variação desses indicadores, não se observa qualquer aceleração anormal delas nos últimos dois séculos. Ao contrário, nos últimos 20.000 anos, desde o início do degelo da última glaciação, houve períodos em que as variações de temperaturas e níveis do mar chegaram a ser uma ordem de grandeza mais rápidas que as verificadas desde o século XIX. Entre 12.900 e 11.600 anos atrás, no período frio denominado Dryas Recente, as temperaturas caíram cerca de 8°C em menos de 50 anos e, ao término dele, voltaram a subir na mesma proporção, em pouco mais de meio século. Quanto ao nível do mar, ele subiu cerca de 120 metros, entre 18.000 e 6.000 anos atrás, o que equivale a uma taxa média de 1 metro por século, suficiente para impactar visualmente as gerações sucessivas das populações que habitavam as margens continentais. No período entre 14.650 e 14.300 anos atrás, a elevação foi ainda mais rápida, atingindo cerca de 14 metros em apenas 350 anos - equivalente a 4 m por século”.

Os céticos ainda sustentam que, ao contrário do que se afirma por aí sobre aquecimento, a tendência é que, até a década de 2030, o planeta passe por um considerável resfriamento. A explicação está no efeito combinado de um período de baixa atividade solar e de uma fase de resfriamento do oceano Pacífico (Oscilação Decadal do Pacífico, ODP), conforme se verificou também entre 1947 e 1976.

Por fim, o documento conclui que o momento atual deve caminhar para a universalização dos níveis gerais de bem-estar usufruídos pelos países mais avançados, em termos de infraestrutura, saneamento, energia, transportes, saúde etc. Não nega, porém, formas para tornar esse acesso mais sustentável. Mas destaca que as barreiras para isso são mais políticas do que físicas.

O economista Ladislau Dowbor, da PUC-SP, defende a tese de aquecimento global. Mas aponta para o verdadeiro desafio: a pobreza. Em artigo recente, o professor destaca que é produzido no mundo, hoje, 2 bilhões de toneladas só de grãos, o que equivale a 800 gramas por pessoa e por dia. Se dividirmos, explica Dowbor, os 63 trilhões de dólares do PIB mundial pelos 7 bilhões de habitantes, são 5400 reais por mês por família de quatro pessoas. Portanto, conclui o economista, poderiamos todos viver com paz e dignidade. E esse argumento, por mais que digam que possa parecer ingenuo, na verdade destrói o mito de que falta alimento no mundo. Mentira. Falta, sim, distribuição de alimento.

Outra informação relevante trazida por Dowbor é o fato de que há, atualmente, 737 grupos corporativos mundiais, sendo que 75% deles são de intermediação financeira, responsáveis por controlar 80% do sistema corporativo mundial. “No conjunto, tentam maximizar os lucros, ainda que o planeta entre em crise financeira e produtiva generalizada. A simplicidade do desafio é que estamos acabando com o planeta para o benefício de uma minoria”, acerta em cheio o economista francês, naturalizado brasileiro.

Com esta perspectiva, consegue-se transcender a discussão para além dos conflitos no campo científico. Se o planeta está ou não mais quente, se a tragédia anunciada de fim do mundo foi verdadeira, até lá, pelo menos, deve-se investir no fim da miséria e na transformação do sistema econômico capitalista. Portanto, falamos de governança, gestão, políticas públicas, a despeito de processos geológicos ou climatológicos.

Nesta caso, a ciência tem sido operado como instrumento de doutrinação por políticos e líderes com segundas intenções. O discurso de autoridade, estampado em relatórios, gráficos e Power Points mundo a fora, tem sido cúmplice de um processo de despolitização da própria ciência. Os argumentos dos céticos, expostos acima, podem, em efeitivo, estar ganhando mais espaço ultimamente - o que é bom para a democratização de modelos científicos diversos. Porém, uma terceira visão sobre o problema tem que ganhar espaço também: trata-se da responsabilização do poder financeiro na orquestração do fazer científico.

Quando essa terceira visão (um meta-olhar sobre a ciência) ocorrer, o itinarário de reuniões como a Rio+20 poderá ser no sentido de associar desenvolvimento social e tecnológico de forma democrática.

O filósofo polonês Ignacy Sachs escreveu o seguinte, em livro de 2009:
é muito fácil promover grandes debates maniqueistas entre o bem e o mal. Mas os verdadeiros problemas começam quando devemos formular propostas concretas de ação, portanto no exercício do que chamo voluntarismo responsável. Alguns chamam a isso pragmatismos.

Um exemplo desse “pragmatismo” seria desenvolver um olhar no sentido do global para o local, pensando na territorialidade. Dessa forma, especula-se menos, age-se mais.

2 comentários:

  1. Excelente texto Pierro. Visão abrangente e imparcial. Mas senti falta de uma explanação sobre o papel da mídia nesse paradigma.
    Como cético te digo: em toda essa "máquina" que gira em torno do mito do Aquecimento Global, a mídia é o cerne da questão. A doutrinação política a qual você se referiu só existe por conta do atual monopólio da imprensa, que age em favor da indústria aquecimentista. São estes, de fato, que impedem o desenvolvimento dos países mais pobres.

    ResponderExcluir
  2. Muito bem, Angelo! De fato, faltou essa análise. E vc destacou muito bem. O papel da mídia, inclusive nessa atual crise econômica, é decisivo; é ela quem levanta a bola de teses e teorias que depois se tornam senso comum.

    O tema estará no blog, sim.

    Abs!

    ResponderExcluir