quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sobre ciência colonial e gênese da pesquisa brasileira

Em 1967, o historiador americano George Basalla propôs um modelo para explicar como a ciência, a partir da Europa, disseminou-se pelo ocidente. A questão central era saber como a ciência européia transbordou pela Itália, França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Áustria e os países escandinavos até atingir outras partes do mundo, como Estados Unidos, Japão, Canadá, Austrália, China e América Latina.

Para tanto, o modelo de Basalla baseou-se eu três etapas. Na primeira, tem-se uma nação pré-científica, que faz contato inicial com o país europeu e torna-se fonte de materiais primários de pesquisa para a ciência ocidental. Exemplo é o Brasil assim que recebeu as navegações dos portugueses: os primeiros a estudar a fauna e a flora (e as populações) aqui foram os exploradores e colonos. Como bem lembra Nancy Stepan - historiadora norte-americana que pesquisou a ciência brasileira na década de 1970 -, um dos primeiros a fazer observações científicas foi o Mestre João, que acompanhou Pedro Álvares Cabral e numa série de cartas descreveu os animais e as flores que via pela frente.

A segunda fase é o surgimento da ciência colonial. Segundo Basalla, embora o número de pessoas envolvidas na ciência aumente na colônia, a comunidade científica ainda depende das tradições da ciência que está fora do país. A dependência vai desde o treinamento, no caso na Europa, até tecnologias sem as quais não se pode praticar ciência. Trata-se de uma etapa transitória, para aqueles países que conseguem superar a dependência e passam a fundar escolas nativas capazes de oferecer capacitação local. Para Basalla, um bom exemplo de cientista colonial é Benjamim Franklin, "cuja criatividade e cujos laços com a Europa são largamente reconhecidos".

A fase três, finalmente, é a consolidação da independência de uma tradição científica. Obviamente, é impossível alcançar a independência absoluta, mas identifica-se a terceira etapa quando se tem o maior número de cientistas treinados e trabalhando localmente, conseguindo transmitir conhecimento e a longo prazo.

À epoca, Basalla classificou EUA e Rússia como nações que atingiram a fase três, e Japão, Austrália e Canadá apenas um pouco mais abaixo na escala. A América Latina, porém, estava lá em baixo.

Stepan chama a atenção para um problema do modelo de Basalla: ele tende a ignorar o alto grau de interdependência científica entre os países. De fato, se pensarmos hoje, vemos que a prática científica ocorre, muitas vezes, por meio de consórcios. Grande pesquisas em áreas de fronteira, por exemplo, chegam a mobilizar pesquisadores de diversos países, que trabalhar de maneira articulada e online.

Contudo, alguns aspectos do modelo de Basalla ainda são relevantes. Principalmente quando observamos a trajetória da ciência no Brasil e nos Estados Unidos.

No caso dos EUA, a Inglaterra era um dos líderes do movimento científico quando começou a colonização no século XVII. Por esta razão, a ciência na América do Norte recebeu um injeção de esforços sem igual, capaz de fortalecer, desde o começo, as bases acadêmicas nos EUA. Como lembra Stepan, "a Sociedade Real, que recebeu uma Carta Régia em 1662, foi fundada independentemente das universidades ainda medievais, e propagou as novas ciências experimentais tanto dentro como fora da Inglaterra". Os membros da sociedade perguntavam sobre a fauna e a flora norte-americana aos colonos, publicaram os trabalhos dos cientistas coloniais nas revistas européias, elegeram colonos como membros da sociedade, enviaram a eles instrumentos e livros e promoveram a interação entre cientistas do novo e do velho mundo.

Resultado disso: foi criado um "círculo de história natural", que uniu a ciência dos EUA com a européia, numa relação de igual para igual. Prova disso: "Quando a ciência inglesa declinou no fim do século XVIII, e a Guerra da Independência separou a América da Inglaterra, a ciência francesa e mais tarde a alemã começaram a fornecer novos modelos e contatos continuados à ciência colonial dos EUA". Assim, os EUA ampliaram o intercâmbio.

A conclusão de Nancy Stepan é que a diferença entre as áreas do novo mundo colonizadas pela Espanha e Portugal e as colonizadas por franceses e os ingleses está menos na qualidade da educação universitária, do que na ausência relativa na Espanha e em Portugal de academias e sociedades seculares dedicadas à promoção das novas ciências experimentais. Ou seja, foram academias como a Real Society da Inglaterra - destinada a promover o conhecimento científico - que possibilitaram a abertura de caminho para a extenção da ciência no ocidente. Por mais que Espanha e Portugal fossem países ricos, donos dos mares, ele não tinham o espírito de criar instituições fortes com a finalidade de assegurar a disseminação do conhecimento científico entre os pares. Não só dissseminação, mas intercâmbio. Portanto, ter boas universidades, e boa educação, não é suficiente, caso não se estruture, paralelamente, os alicerces da divulgação científica, principalmente através de sociedades científicas fortes.

Portanto temos três fatores limitantes que contribuiram para manter a ciência atrasada no Brasil e na América Latina como um todo: a) má qualidade da ciência no país transmissor; b) política de imperialismo cultural; c) falta de rompimento com as tradições.

A diferença é que o Brasil sofreu maior isolamento do resto do mundo. Outro ponto é o olhar português sobre a ciência. Os esforços científicos portugueses no século XVII, conta Stepan, não podem ser comparados, por exemplo, com a colonização holandesa no Brasil. "Sob a liderança do Príncipe Maurício de Nassau, na colonia holandesa de Pernambuco no Nordeste, um certo número de cientistas foram trazidos para o Brasil entre 1630 e 1654. O primeiro observatório foi estabelecido no novo mundo sob o patrocínio do príncipe. O naturalista George Marcgraff e o físico Wilhelm Piso começaram um estudo sistemático da fauna e da flora brasileiras. O trabalho deles resultou na publicação, em 1648, da grande Historia naturalis brasiliae. A experiência holandesa com a ciência no Brasil terminou em 1654, quando os holandeses foram expulsos do Brasil pelos portugueses".

A utilização da colônia como mera fonte de produtos primários foi o grande fator limitador. As investidas científicas, como assim pode-se chamar, restringiam-se na coleta de informações sobre novos produtos com valor comercial.

O ano de 1750 marcou um ponto crucial na história do Brasil. Foi o fim da idade do ouro e a elevação ao poder do Marquês de Pombal, o "ditador virtual de Portugal". Em 1759, Pombal expulsou os jesuítas do Brasil, e muitas escolas foram fechadas.

De acordo com Stepan, "para contrabalancear este golpe na estrutura educacional, Pombal, em parte sob a influência do pensamento filosófico, fez uma revisão do currículo medieval da Universidade de Coimbra e estabeleceu várias cadeiras novas de ciências. À custa do governo, mineralogista brasileira José Bonifácio de Andrada e Silva foi enviado, juntamento com dois companheiros, numa viagem científica à Europa para melhorar seus conhecimentos de mineralogia, geologia e particularmente da arte de testar minérios. Em 1783, o governos enviou também o naturalista brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira, que havia estudado na Universidade de Coimbra recentemente reformada, para explorar a fauna e a flora do Brasil. Numa longa viagem que durou vários anos, Rodrigues Ferreira recolheu muitos espécimes e fez observações valiosas, particularmente das tribos indígenas. Infelizmente suas coleções foram dispensadas após sua volta a Portugal e grande número dos seus manuscritos permaneceram inéditos".

A partir do século XIX, o Brasil começa a abrir os olhos para a ciência, mas ainda sob tradições monárquicas e escravocatas. Mais tarde, no final do século e início do XX, chega a influência de Pasteur, com a frente higienista e Oswaldo Cruz e os modelos de desenvolvimento tecnológico de uma ciência brasileira efetiva, tendo como símbolo Manguinhos. Seguem aí, somente a partir do século XX, um desabrochar, com industrialização, criação de fundações de amparo, CNPq, FAPESP etc.

O momento agora é de extremos. O Brasil é referência, por exemplo, em alta tecnologia agrícola, e isso está bem visível na atuação do país, representado pela Embrapa, no continente africano. E também na posição que ocupa nas grandes discussões, como meio ambiente e energia. Além disso, a postura da última viagem da presidente Dilma aos EUA mostrou como o Brasil está preparado tecnicamente para firmar parcerias como instituições de pesquisa avançada, como o MIT.

Há ainda o programa Ciência Sem Fronteiras, que pretende aplicar recursos para fomentar a ida de brasileiros pesquisando no exterior e a vinda de estrangeiros.

No entanto, não podemos perder de vista o que foi exposto nos parágrafos acima. A firmação do país como produtor de ciência depende do grau de cientistas treinados e trabalhando no território nacional, gerando patentes aqui e dissimulando o conhecimento aqui.

Estamos mais próximos da última fase da Basalla. Mas não se pode esquecer que uma das formas de manutenção da dependência de uma nação sobre a outra se dá, hoje em dia, no campo da ciência. Enviar e depois trazer de volta pesquisadores é apenas um importante passo. Mas difundir o conhecimento trazido de fora aqui no território também é fundamental.




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