sábado, 28 de julho de 2012

A grande reportagem na web: defasado?

Esta semana publiquei entrevista com o professor da PUC-SP Eugênio Trivinho sobre o atual cenário da produção jornalistica no ciberespaço. Foi um dos posts que mais repercutiram aqui no blog, e que acabou gerando bons comentários no Blog do Luis Nassif, para o qual escrevo profissionalmente. No Facebook, recebi comentários de leitores entusiasmados com as idéias de Trivinho a respeito do "defasado" jornalismo.

Parte dos comentários no blog do Nassif não levaram em conta a essência da entrevista. Não é "esse" ou "aquele" jornalismo que está defasado. Claro, como bem lembrou um dos leitores, "notícias" como o "fantástico" depoimento da ex-mulher do Collor na TV são ótimos cases que comprovam como o jornalismo voltou-se à cobertura do irrelevante, produzindo não-fatos. Ou seja, a notícia em si é o fato. Porém, na entrevista que conduzi com Trivinho tentamos mostrar como o jornalismo está defasado no campo macro como produção simbólica. Não é a Globo ou a Veja. No caso elas são instrumentos dessa prática de produção que, na verdade, sofreu e sofre transformações por conta de uma nova ordem tecnocrática que se instaura.

Outros comentários foram na onda do "se é assim, então não se faz nada". Não é bem assim. Trivinho não é pessimista - a nova ordem de produção jornalística está defasada no sentido de ter perdido o monopólio da informação. Contudo, o jornalismo é apenas uma das vias possíveis da comunicação. Sempre foi a via racionalista, um filtro da seriedade, por meio do qual o fato deveria passar caso se quisesse torná-lo informativo. O jogo agora é outro. Há muito o que ser feito, e muito o será. Mas nesse momento, o jornalismo simplesmente não sabe o que fazer.

Exemplo: pipocam nas redes sociais aquelas brincadeiras de foto-montagem com a imagem de Serra quase caindo do skate. Trata-se de um "sobrefato": partiu de blogs, partiu de brincadeiras em perfis do Facebook e do Twitter. Em poucas horas, os grandes portais de notícias tiveram que noticiar isso. Mas noticiar o que já está mais do que "bombando" na rede? Nesse sentido, o jornalismo está perdido, não sabe o que seguir, o que relatar, como reportar algo que foge de suas mãos. Mãos, aliás, que sempre selecionaram, e ainda selecionam. Sim, não estamos falando de uma morte da grande mídia: ela ainda manda. Mas perde aos poucos o norte, pois sua fragilidade em lidar com a complexidade do fluxo informativo torna-se cada vez mais evidente.

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Coincidentemente, no mesmo dia que publiquei a entrevista com o Trivinho, o jornalista Ricardo Kotscho publica em seu blog um texto chamado A informação e sua importância para cada um de nós.

No post, Kotscho fala sobre um debate do qual participou junto com Ricardo Gandour, do Estadão, Sérgio Dávila, da Folha, Vera Brandimarte, do Valor Econômico, e Ascânio Seleme, do Globo. O tema do encontro foi "o papel do jornal", ou seja, aquele velho debate sobre o futuro do jornal impresso.

O interessante é o que Kotscho diz sobre quando a palavra "reportagem" surgiu timida na discussão entre os jornalistas:

Foi a única vez que apareceu a palavra "reportagem" em todo o resumo do debate, um sinal de que o caminho mais óbvio para alcançar os objetivos desejados por quem luta pela sobrevivência do jornal impresso, ou seja, contar bem contada uma história original, capaz de surpreender o leitor e que a concorrência não tem, ainda é o mais esquecido nesta história.

E mais interessante ainda o que vem a seguir:

Qualquer que seja a plataforma, o nosso desafio diário é garimpar novas histórias e informações relevantes, e descobrir a importância de cada uma delas para o nosso público. O futuro do jornal de papel eu não sei qual será _ vai depender do que cada um de nós for capaz de fazer para preencher as páginas em branco e despertar o interesse de sua excelência, o leitor, como ensinava o velho Frias.

Repare: Kotscho parece colocar as coisas numa outra ordem de importância. Para ele, "qualquer que seja a plataforma", o desafio do jornalista é garimpar boas histórias e informações relevantes. Ponto. Simples assim.

Por mais que o jornalismo vivencie, e seja um dos principais protagonistas de uma mudança de paradigma comunicacional e sócio-econômico, afinal um novo modus vivendi foi estabelecido, como afirma Trivinho, a atividade jornalistica em si acaba perdendo-se num debate sobre o meio, esquecendo de fixar a seguinte ideia: o jornalista deve buscar, sempre, boas histórias. A essência, portanto, está nas grandes reportagens.

Na web, a grande reportagem não está morta. Apenas re-configurou seu modo de ser. Pode contar com infográficos interativos, hiperlinks, vídeos complementando texto, autonomia do leitor (que pode ir e vir, voltar e imprimir), podcast dando suporte à matéria - enfim, todos os recursos da web. Mas, no fundo, é a grande reportagem.

O desafio pode ser o de buscar espaço num ambiente (de Internet) onde operam mensagens de poucos caracteres, videos curtos, memes, imagens e matéria de no máximo 1 lauda. Porém, como Kotscho diz, apenas a grande reportagem pode surpreender o leitor. Não será um "twitte" que vencerá um Prêmio Esso.

É verdade, nesses debates sobre o futuro do jornalismo pouco se fala da solidez da grande reportagem.

Pode parecer, caro leitor, que a grande reportagem está morrendo. Mas ela está na Internet, em blogs de jovens jornalistas relatando viagens, fatos da crise econômica, pessoas que mudaram de sexo, denúncias...

O artifício, a ilusão de perda talvez ocorra por conta da super-exposição do exemplo X, o que costuma subtrair, quando não aniquilar, o exemplo Y, que ainda perdura, mas apenas um pouco diferente.














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