quinta-feira, 12 de julho de 2012

O bóson de Higgs e os "garotos" de Manhatan

Do Blog do Luis Nassif



De: RONALD CINTRA SHELLARD
Quarta-feira, 11 de Julho de 2012
Assunto: MANHATTAN CONNECTION - CRÍTICA - 11/07/2012

Caros jornalistas,

Lamentável sua abordagem sobre o bóson de Higgs, exibindo um dos piores aspectos da natureza humana, que é a arrogância da ignorância! Que o assunto é dificil de explicar, não há dúvida. Mas achar que os países europeus iriam gastar bilhões de dólares para cavar um túnel (aliás informação equivocada) é (escolha o adjetivo apropriado, não quero ser ofensivo!). 


Lembro apenas que estão recebendo este mail porque no CERN inventaram uma coisa chamada www, que afeta a vida de todos nós. Se algum de vocês teve que passar por um tomógrafo, lembre-se de que é um detector de partículas. A eletrônica rápida que hoje está nas câmaras que os estão filmando, vem de desenvolvimentos associados a esta descoberta. A gama de tecnologias que direta ou indiretamente estão associadas ao processo que levou à descoberta do Higgs é imensa. E esta é uma das razões que levar os países a investirem bilhões "num buraco"!

Não é exagero dizer que a descoberta do Higgs marcará nossa civilização, como um dos seus pontos altos, não pela descoberta em si, mas por todo o processo que culminou neste evento. Só para começar, o CERN, fundado na década dos 50, foi um ensaio para o que viria a ser a Comunidade Européia. Não é pouca coisa. Ir à Lua foi um feito de um único país (talvez de um segundo, se a China tiver sucesso). 


Descobrir o Higgs só é possível por conta do número de países envolvidos nesta aventura do espírito humano. A leviandade com que trataram este assunto deveria fazê-los corar. Prestam imenso desserviço à causa do progresso de nossa sociedade (nossa, quer dizer humana!). Se não entendem do assunto ou tenham atitude mais humilde ou, não abordem o assunto!
 

Atenciosamente,

Ronald Cintra Shellard
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas


COMENTÁRIO:


A maneira mais preguiçosa que o jornalismo adota para desqualificar um feito científico é mantê-lo isolado dos fatos do cotidiano dos leitores. Evidentemente, há casos que são praticamente impossíveis de ser interpretados jornalisticamente, teorias extremamente abstrata, como as que encontramos na matemática pura. Ainda assim, o excesso de abstração não poder ser usado para legitimar inutilidade de determinada pesquisa acadêmica. Isso é muito comum ocorrer em coberturas que tomam o fato em si e automaticamente o revestem de clichês, alegorias, de rápida absorção pelo senso comum.

Assim, assuntos caros à ciência são reduzidos às representações de si mesmos, feitas pela mídia. E daí surgem avaliações do tipo: 'para quê enviar o homem à Lua, se tem tanta gente passando fome'? Quer dizer, no caso das pesquisas no campo espacial, qualquer iniciativa passa a ser culpada antes que se comprove o contrário. ou seja, qual o retorno imediato para a sociedade? E, se não há retorno imediato, para quê financiar?

Acontece que nem sempre (e digo 'nem sempre' pois há sim pesquisas particulares cujos interesses são meramente privados) o objeto de estudo é algo tão próximo do cotidiano genérico das pessoas, como, por exemplo, o estudo das ondas marítimas ou das influências das ondas magnéticas dos celulares no surgimento de câncer. Digo, portanto, que muitas vezes o objeto estudado é tão distante de nossa realidade quanto um bóson de Higgs.

O desafio da cobertura científica está em identificar, junto aos pesquisadores, qual a superfície de contato entre o fato e o leitor comum. E, o mais importante, sem pre-conceito. É fácil, como foi dito acima, isolar um fato complicado numa notícia, partindo do pressuposto que seu leitor entenderá menos ainda que você. Contudo, tão abstrato quanto o fato científico é esse tal leitor comum. Não existe leitor comum no sentido homogêneo do termo. Ele pode ser desde o Zé do bar até o professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Pode-se até pensar que publicações muito segmentadas e específicas, como a revista Pesquisa FAPESP ou mesmo o próprio Manhatan Connection, que possuem leitores mais selecionados, não encontrem esse problema de ter que ligar com um público muito variado. Mas essa ideia tem se tornado cada vez mais falsa. Com o avanço das redes sociais, os conteúdos setorizados tem sido compartilhados em ambientes heterogêneos na Internet, o que pulveriza a informação, antes segmentada, para o público mais amplo.

Da mesma forma, os resultados de uma pesquisa podem não ser, num primeiro momento, próximos ao público. Um caso emblemático na cobertura científica brasileira é a Xylella fastidiosa, uma bactéria causadora de doenças em plantas economicamente importantes, como a praga do amarelinho que afeta laranjeiras. Em 2000, um grupo de brasileiros consegui realizar o sequenciamento genético da bactérica; o feito foi capa da revista Nature e de outras publicações prestigiadas no mundo todo. A imprensa brasileira, depois da estrangeira, passou a divulgar a notícia e a dar mais importância para a pesquisa. Mas, nesse caso, tinha-se um resultado direto: melhorar o cultivo de laranjas no Estado de São Paulo. Apesar da ignorância, podia-se escrever sobre isso.

No caso do bóson, que fala de "partícula de Deus", e envolve quantias astronômicas de recursos, e cujos resultados não são tão explícitos assim, a "lógica" de alguns senhores da grande mídia é adotar a política do "deixa disso" e do "onde já se viu!". "Tanto dinheiro investido num buraco, para quê!?". É indignação e ignorância transvestidos de discurso de autoridade de quem se coloca como dono da notícia.

Esses jogos reducionistas podem ser divertidos na ciência, geram debates. Mas em outras áreas, como a economia, são desastrosos mesmo.


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