quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Diversidade e divulgação científica

Nos últimos meses, passei a estudar o problema da diversidade na ciência e como a divulgação científica pode se tornar o principal mecanismo capaz de derrubar velhos pilares que durante séculos sustentam o ambiente científico racionalista. Essa base de sustentação coloca o pensamento científico num patamar de impermeabilidade: são modelos que, durante anos, foram consolidados, e hoje são tomados como teorias, ideias ou processos praticamente originados de uma ontologia científica - uma massa teórica e de práticas fechadas, estabelecidas por métodos consagrados por uma elite científica fundamentada na experiência empírica. Essas ideias e teorias que se tornam modelos não devem ser contestados, uma vez que foram efetivamente testados. E a divulgação científica que se faz posteriormente deve avançar "daqui para adiante", nunca retornando às origens. Ou seja, uma divulgação que já é, a priori, uma extensão do pensamento científico tal como é. 

São democratizados os meios de acesso, porém não os meios de produção crítica da ciência. O fenômeno que tenho observado é o seguinte: nesse ambiente científico, em interação com o ambiente da comunicação (sendo este também um modus), qual o impacto que comunidades de blog de ciência, redes e agências originadas em centros de pesquisa ou fomento à inovação tem na formação de uma nova divulgação científica, mais preocupada com a proliferação de novas vozes, novos debates e novas interações, do que com o simples "prestar contas". Isto é, a instalação de um novo ambiente, em rede, capaz de colocar, num mesmo patamar, a diversidade e a ciência.

Em uma aula no ano passado, o professor Muniz Sodré afirma que o atual cenário apresenta mudança no paradigma que orienta e legitima os problemas técnico-científicos, mas continua permanecendo o paradigma que ignora o diverso. Há uma linha, chamada de Culturalismo, que se preocupa com o múltiplo dos costumes e crenças, com o objetivo de obter tolerância entre comunidades culturais ou religiosas. Para Sodré, essa abordagem não chega ao núcleo do problema: a verdadeira aceitação do diferente.

De fato, se pensamos em exemplos concretos - voltando para uma análise da mídia - temos casos de abertura para visões "diferentes", ou menos glamurosas, como a contestação do aquecimento global, que, de um tempo para cá, ganhou força, mas ainda é abordada como um "patinho feio" da academia - ou uma ovelha negra. Abre-se o espaço em reportagens - para a valorização do múltiplo - mas qual o peso dessa exposição pública do "diferente" na tomada de decisões políticas e nas grandes pautas mundiais? Há outros casos, em outras áreas, evidentemente. 

Sodré cita um livro do filósofo Alain Badiou, Ética, ensaio sobre a consciência do mal, para explicar que diferenças culturais são o outro concreto, o sujeito distante, exótico e que não tem grande interesse para o pensamento."O filosofo está afirmando que é óbvio que somos todos diferentes. portanto, a diferença é o que está aí, é o que há", explica Sodré. Qual o problema, então, se falamos de algo óbvio? Para Badiou, o problema não é o outro excluído, não reconhecido, mas sim no reconhecimento do mesmo - e, finalmente, o mesmo é a verdade, e ai fala-se em uma capacidade para conquistar o verdadeiro.

O sociólogo brasileiro então demonstra que existe um abismo entre o reconhecimento abstrato do outro e a prática ético-política de aceitar outras possibilidades humanas (a diversidade). Tudo, claro, num espaço de convivência. 

No livro Claros e Escuros, Muniz Sodré chama atenção para dois problemas dessa argumentação de Badiou: 1) o problema do valor, entendido como orientação prática para ação social. Assim, para o autor, o valor que atribuímos para coisas e pessoas reflete as convicções e crenças de um sistema particular. Portanto, o valor é uma significação já estabelecida. "A percepção da diversidade vai além das aparências, porque o olhar percebe e atribui valor ao mesmo tempo", e assim atribui uma orientação de conduta. 2) o problema da diferenciação, ou sejasaber fazer as diferenças. Para Sodré, o senso comum está habituado a pensar a diferença como ponto de partida e então julga a partir da identidade do outro, como se identidade fosse algo pronto e acabado. Mas "nenhum identidade está pronta e acabada. A identidade são projeções de fixação que fazemos sobre o caráter e a natureza mutável de tudo das pessoas", afirma. Porém, como não podemos lidar com essas mutações o tempo inteiro, as identidades estão aí, como se fossem dados imutáveis. 

Sodré avança na reflexão sobre a diversidade e diz que a exclusão do diverso é decorrência da ignorância afetiva e intelectual do outro. "Não podemos lidar com a diferenciação, porque não sabemos fazer diferenças". Para Badiou, a verdade pode ser logicamente a mesma para todos, mas para Sodré isso acontece somente para o pesamento que se move dentro do círculo da tradição judaico-cristã - um círculo chamado de metafísica pela filosofia. E metafísica aí entendida como a pretensão de ocupar, pela força, as regiões dos princípios e das causas. 

E aí destaco uma passagem muito importante da aula de Sodré: "toda relação de poder se assenta num conhecimento de causa e na pretensão de anunciar uma verdade absoluta sobre o outro. Essa pretensão de deter uma verdade absoluta é a fonte de toda violência". 

Sodré então vai falar de uma verdade não violenta

Ela acontece quando ocorre o infinitamente diverso, ou seja, quando se reconhece na prática a diversidade humana como uma constante em todo empenho de realização do homem. "A diversidade é a verdade do real concreto", afirma Sodré. No entanto, citando Kant, destaca que uma coisa é distinguir as coisas uma das outras; outra é conhecer a diferença das coisas. 

Para Kant, julgamentos universais são capazes de chegar à diversidade das coisas e então se produzem julgamentos particulares.

***

Entendemos que há uma diversidade no repertório cultural e científico. Entendemos ainda que os problemas não devem mais ser isolados de um sistema complexo e que precisam de abordagens "multi" ou "inter" disciplinares. Contudo, ainda assim, lidamos com sobreposicionamentos - no máximo, as diferenças, quando consideradas matérias-primas da comunicação, ocupam o mesmo espaço editorial, mas não são superados os mecanismos que as mantem empacotadas.

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