quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O genérico e o particular nas eleições

Saindo às ruas, durante esse período de campanhas para as eleições municipais, é possível conversar com representantes de diversos setores, grupos ou comunidades, e identificar as reivindicações de cada um. Numa simples conversa com taxistas, por exemplo, fico sabendo da facilidade que um ou outro (ou todos) tem para mudar de candidato. Ir, por exemplo, de Haddad a Russomano. Quando questiono sobre o motivo, a justificativa não passa nem perto das grandes propostas para a cidade, ou mesmo pelas visões ideológicas de candidatos ou partidos. As mudanças, ou permanências, são motivadas pelas mínimas promessas que um cadidato faz, ou deixa de fazer, àquele setor específico.

No caso do taxisita com que conversei hoje, sua posição, e de alguns colegas, antes das campanhas, era pró-Russomano. Entendo que as pesquisas só se tornam mais consistentes após o início das campanhas, mas no caso daqueles taxistas, a mudança se deu quando Russomano passou a sinalizar que, se eleito, iria adotar medidas para baratear a corrida de taxi. Segundo meu interlocutor, se eleito, Russomano pode acabar com a "bandeirada". De Russomano, mudou para Serra, não por se identificar com as grandes propostas do candidato do PSDB, mas porque, pelo menos até agora, Serra não "cutucou os taxistas com vara curta". Mas o redirecionamento poderia ser para qualquer outro, que não Russomano.

Isso faz pensarmos no peso que as "propostas secundárias", aquelas que atingem diretamente uma classe de trabalhadores, ou um setor, tem na decisão do eleitorado. Nas campanhas na mídia, os candidatos expõem suas grandes armas, geralmente grandes propostas que atinjam as generalidades: bilhete único mensal, ampliação de corredores de ônibus, mais creches, mais hospitais, melhor merenda nas escolas etc. São, portanto, as principais propostas, aquelas que abrangem toda a população, afinal ninguém (taxistas, funcionários públicos, artistas de circo, professores etc, etc) será contra uma saúde pública melhor.

No entanto, são as "propostas setorizadas", ou seja, aquelas específicas, que estão nas entrelinhas dos programas de governo e raramente são publicizadas nas propogandas políticas, e em reportagens de grandes jornais, que se tornam fatores reais na definição do voto.

Trata-se de uma hipótese, e posso estar tomando um caso específico, dos taxistas, entendo que não seja ideal fazer generalizações. Mas basta andar por aí e conversar com trabalhadores, cada qual defendendo os interesses de sua classe, para perceber que o nível crítico, pelo menos da maioria, avança no seguinte sentido: 1) as grandes tendem a se tornar consenso; 2) a decisão final depende da proposta que o candidato faz para meu setor.

Observando a agenda dos candidatos, entende-se a razão das visitas que fazem a sindicatos disso e daquilo, a associações disso ou daquilo. É neste corpo-a-corpo (portanto presencial) que são questionados sobre as propostas específicas. É, portanto, o momento no qual os candidatos são forçados a deixar a generalidade e a entrar na particularidade.

Embora o foco das campanhas seja a cidade, formulando propostas que alcancem os grandes problemas da metrópole, nas áreas de saúde, educação, segurança etc., a vida cotidiana é heterogênea. Essa heterogeneidade está baseada em motivações humano-genéricas (desenvolvimento global da sociedade e da humanidade) e humano-particulares (motivações referentes ao indivíduo em si, com afetos, emoções e sem inclinação à ideologia). Não é o caso de adotarmos plenamente o conceito de Agnes Heller sobre cotidiano, no qual o particular corresponde à pessoa. A particularização de que falo é em relação aos setores. Mas a fantástica definição de Heller, em História e Cotidiano, lança luz sobre a análise.

Nesse sentido, um bom campo de pesquisas acadêmicas sobre processo eleitoral é o estudo do impacto que a singularidade tem na definição de votos. Não grandes movimentações em torno de políticas públicas que atingem todos no cotidiano, mas propostas pontuais, específicas, com pouca superfície de contato ou que fatalmente interferem nos rumos e decisões de setores - ainda que a finalidade da proposta seja alcançar uma maioria abrangente.


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