quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Esquerdismo e a doença infantil do Comunismo

Em 1920, Vladimir Lenin escreveu um panfleto intitulado Esquerdismo, doença infantil do Comunismo, no qual faz um exercício interessante: repreende aqueles esquerdistas espalhados pelo mundo que se recusam a comprometer a pureza teórica ou a participar das instituições existentes e da situação do país. Por exemplo, os esquerdistas que se negavam a participar de sindicatos ou parlamentos, uma vez que são instituições que pertencem ao sistema opositor. Preferiam, assim, unir-se apenas aos companheiros que se alinhavam ao mesmo pensamento, mantendo uma ação intimamente ligada à teoria, ao mundo esquerdista.

Para Lenin, a ação socialista não deveria desdenhar a realidade concreta, ainda que a luta seja para transformá-la. Nesse sentido, é preciso não só considerar a existência das instituições do Estado capitalista, como também estudá-las, entendê-las, com a finalidade de promover, gradativamente, as transformações. Diz Lenin, portanto, que "rejeitar os compromissos 'por princípio', negar a legitimidade de qualquer compromisso, em geral, constitui uma infantilidade que é inclusive difícil de levar a sério". O autor ainda vai falar de uma "simplicidade infantil" e de uma "doença infantil do esquerdismo" em vários momentos do artigo.

Mas destaco dois trechos fundamentais, com grifos meus:

É preciso compreender perfeitamente que esse centro dirigente não pode, de modo algum, ser formado segundo normas táticas estereotipadas de luta, mecanicamente igualadas, idênticas. Enquanto subsistirem diferenças nacionais e estatais entre os povos e os países e essas diferenças subsistirão inclusive durante muito tempo depois da instauração universal da ditadura do proletariado - a unidade da tática internacional do movimento operário comunista de todos os países exigirá, não a supressão da variedade, não a supressão das particularidades nacionais (o que é, atualmente, um sonho absurdo), mas sim uma tal aplicação dos princípios fundamentais do comunismo (Poder Soviético e ditadura do proletariado) que modifique acertadamente esses princípios em seus detalhes, que os adapte, que os aplique acertadamente às particularidades nacionais e nacional-estatais. Investigar, estudar, descobrir, adivinhar, captar o que há de particular e específico, do ponto de vista nacional, na maneira pela qual cada país aborda concretamente a solução do problema internacional comum, do problema do triunfo sobre o oportunismo e o doutrinarismo de esquerda no movimento operário, a derrubada da burguesia, a instauração da república soviética e da ditadura proletária, é a principal tarefa do período histórico que atualmente atravessam todos os países adiantados (e não só os adiantados).

E o segundo trecho:

A infantilidade de "negar" a participação no parlamentarismo consiste, exatamente, em que com esse método tão "simples", "fácil" e pseudo-revolucionário querem "resolver" a difícil tarefa de lutar contra as influências democrático-burguesas no seio do movimento operário e, na realidade, a única coisa que fazem é fugir de sua própria sombra, fechar os olhos diante das dificuldades e desembaraçar-se delas apenas com palavras.

* * *
Ainda que haja controvérsias sobre a figura de Lenin, temos aqui uma lúcida e atual análise sobre o radicalismo - seja da esquerda, seja da direita. Quando Lenin fala da necessidade de "não supressão da variedade" e das particularidades nacionais, está basicamente chamando atenção para o simplismo que muitos discursos mais radicais podem sofrer quando adaptados para atingir qualquer alvo-inimigo em qualquer lugar do mundo e em qualquer situação. Veja o fracasso do movimento Femen no Brasil, por exemplo. Com menos de meia dúzia de garotas, os protestos no Brasil apenas copiavam o que a matriz ucraniana desempenhava na Europa. Utilizavam-se frases de efeito, adaptáveis em qualquer circunstâncias, mas sem compreender a realidade local. 

Nesse sentido, o que ocorre com os índios Guarani-Kaiowá, e as manifestações que pipocaram principalmente na Internet (ainda que poucos jornalistas e manifestantes façam os alertas há décadas) ao menos incorporam um causa originalmente brasileira na pauta dos movimentos sociais, com problemas, demandas e implicações particulares de nosso povo.

Mas o que Lenin aborda vai além da ação de protesto. Em artigo publicado na revista Matrizes, da Escola de Comunicação e Artes da USP, o professor emérito da Universidade de Tecnologia de Queensland, John Hartley, expõem algumas frustrações em relação à política gestual e à retórica do esquerdismo acadêmico com relação ao campo da cultura. "Não importam quais sejam as motivações ou filiações de uma pessoa, o fato de ler sobre elas dentro do objeto de estudo, de modo que um argumento teórico convincente possa ser reconhecido com referência não ao objeto de estudo mas à instância política do analista, é um problema constante nos Estudos Culturais". 

Assim, há um paralelo entre o que diz Hartley e as pontuações de Lenin. Este último desdenha o purismo classificando-o como infantil se comparado à política adulta. Isto implicaria em saber bem o que se defende e qual o objetivo, e assim estar apto a trabalhar com (e no interior - e aí é que entre Hartley) de qualquer organização dada ou qualquer conjuntura, com o objetivo de avançar na causa.

Hartley cita, então, Engels, quando este afirma: 

"Que inocência pueril há em apresentar a própria impaciência de uma pessoa como argumento teórico convincente!".

Veja, quem fala é Engels, co-autor do Manifesto Comunista. E, olha só, parte da esquerda mais infantil - como aponta Lenin - faz exatamente isso, até hoje, mas agora amparada pelos meios tecnológicos: faz da impaciência, do inconformismo, um argumento teórico convincente. 

Sou de esquerda, e não falo na condição de um descontente ou "desapontado". Trata-se uma sutileza, algo que passa por despercebido muitas vezes da própria esquerda. 

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Evidentemente que o sistema que torna possível o drama vivido pelos Guarani-Kaiowá é o mesmo responsável pela concentração de renda, pela miséria, pela democracia falha, enfim. No entanto, essa parte do radicalismo (que é necessária, mas não devemos tomar esta parte como o todo) tende a utilizar as mesmas explicações para tudo, sem o mínimo de aprofundamento para analisar as instâncias complexas que envolvem o problema. Muitos, quando ouvem falar de política industrial, política econômica, indústria, logo relacionam estes temas a uma pauta estritamente capitalista, como se no socialismo não houvesse indústria, não houvesse política cambial, não fosse necessário ter uma indústria farmacêutica de ponta. São temas que já estão minados, e para os quais são lançadas críticas corretas, porém que não avançam.

* * *

Tome-se um exemplo, o Bolsa Família. Setores mais radicais da esquerda podem identificar no programa do governo federal um mecanismo perverso que prioriza a formação de uma massa de consumidores apenas, não tendo como objetivo a estruturação plena da cidadania. Do outro lado, setores mais conservadores vão dizer que o BF é um mera ferramenta para o governo garantir votos, um sistema que dá "esmolas" em troca de uma garantia no voto. Assim como a crítica esquerdista, a direita também pode afirmar que o BF na verdade favoreceu os mais pobres tornando-os consumidores de carros e geladeiras, mas não mais do que isso.

São análises infantis, para usar um termo de Lenin. Não avançam, são previsíveis e até complementares. Uma análise mais cautelosa, e que tente "investigar" a realidade do país, vai levar em conta os indicadores concretos do BF. Irá ser feita do interior do objeto analisado. E daí poderá constatar que, embora tenha formado uma massa de consumidores, o programa levou a dignidade para famílias que viviam na miséria. Devolveu ao pai de família a dignidade de voltar para casa com um pacote de bolachas ou uma boneca de plástico que nunca pôde dar de presente à filha. Possibilitou ao beneficiado ter o mínimo de condições para se alimentar e se vestir e, assim, poder conseguir um emprego. Afinal, é muito fácil, todos os dias, sairmos de casa, depois de comer aquele pão na chapa com leite e café, e taxar o BF de mera esmola. Sem o mínimo de condições garantidas pelo Estado, o organismo humano sequer pode levantar da cama. 

A análise ainda irá se deparar com uma verdadeira transformação ocorrida principalmente no Nordeste, com famílias que conseguiram colocar um filho na universidade, marcando o início de uma geração universitária na família. Irá ver, ainda, que as mulheres nordestinas, com o poder de controlar o cartão no qual a mensalidade do BF é depositada, passam a não mais depender do marido, aumentando assim sua autonomia na economia familiar, podendo sair de casa para estudar ou trabalhar, sem medo de perder as garantias financeiras do casamento. E, quem sabe, poderá compreender um pouco que o dinheiro em si possui uma dinâmica e um poder para aquele que jamais o possuiu de estruturação. No Brasil fala-se pouco disso, mas existe uma linha sofisticada da Sociologia que estuda o dinheiro, não na sua versão capitalista, arrebatadora e maléfica, do mercado financeiro. Mas sim o dinheiro enquanto legitimador da entrada do cidadão ao jogo do qual não faz parte, representando seu poder de escolha, ainda que limitado ao campo do consumo.

O esquerdista infantil dirá: "mas poder de escolha vai muito mais além do que escolher um produto na gondola do mercado". Evidente que sim. Realmente, qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade entenderá que esse poder de escolha deve ser ampliado para a política, a educação, a cidadania. No entanto, ignorar a transformação que ocorre no meio familiar que hoje pode escolher o que vai comer no mercado, ao invés de ter que se conformar com a farinha misturada com água do passado recente, representa, aí sim, uma total falta de capacidade crítica. Ou melhor, uma crítica ainda infantilizada.

- O artigo completo de Lenin pode ser lido aqui.












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