quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Hobsbawm, banditismo social e os traficantes

O site da New Yorker publicou ontem um excelente artigo do jornalista Jon Lee Anderson, que foi correspondente de guerra em diversos países, como Iraque e Uganda, e responsável também pela biografia de Che Guevara. Ao contrário dos obituários e artigos que tem saído na imprensa, desde a morte do historiador Eric Hobsbawn, na última segunda-feira, Jon Lee não fez questão de enfatizar mais ainda o quanto Hobsbawn foi importante para a compreensão dos processos econômicos principalmente dos séculos XIX e XX - como as potencias se tornaram potências, etc. Recordando uma conversa que teve, anos atrás, com o amigo brasileiro, o documentarista João Moreira Salles, no Rio de Janeiro, sobre o traficante Marcinho VP - morto na prisão em 2003, provavelmente por facções rivais -, Jon destacou as análises que Hobsbawm fez sobre bandidos.

Marcinho VP comandava o tráfico de drogas na favela do Morro Santa Marta, aquela que nos anos 1990 foi cenário de um clip do Michael Jackson. Aliás, as filmagens com o rei do pop só foram possível depois de VP autorizá-las. Por conta disso, o traficante tornou-se conhecido, deu entrevistas e fez o cerco em seu entorno fechar-se mais ainda. O famoso livro do jornalista Caco Barcellos, Abusado, inclusive tem como tema a favela do Santa Marta e seu ex-”comandante”. Na conversa, Salles falava da vez que entrevistou Marcinho VP. Segundo Jon, o amigo contou que o traficante era, na verdade, um pessoa carismática, inteligente, um verdadeiro líder.

Bom, mas qual a relação entre Marcinho VP e Eric Hobsbawn? - pergunta o leitor. Aí que Jon retoma um comentário de Salles: “Marcinho VP era um clássico guerrilheiro hobsbawmiano!”.



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Hobsbawm, morto aos 95 anos: de Revolução Industrial a banditismo social
“Outro legado de Hobsbawm foi sua pesquisa sem precedentes sobre bandidos e foras da lei. Em seu livro de 1969, “Bandidos”, que aborda figuras como Salvatore Gioluana, Robin Hood e Pancho Villa, ele explorou como certos bandidos permaneceram sendo criminosos enquanto outros se tornaram revolucionário”, explica Jon.

Na entrevista, Salles encontrou em Marcinho VP um homem criminoso, mas, ao mesmo tempo, que expressava opiniões e visões sociais. Ou seja, com consciência dos problemas sociais, chegando, por conta das circunstâncias, a desenvolver a faceta criminosa junto com a faceta política. No entanto, foi a primeira que prevaleceu.

Jon prossegue o artigo cotando mais um momento no Rio. Em outra ocasião, ele se encontrou com outro traficante, que havia deixado a prisão há pouco tempo, a mesma em que Marcinho fora assassinado. “Ele me disse que havia entrado num grupo de leituras dentro da prisão, e, lé, leu a biografia de Che Guevara escrita por mim. O gangster me fez várias perguntas sobre o livro e também sobre Guevara. Fiquei intrigado com sua curiosidade intelectual, e perguntei como ele definia ele mesmo”.

A Jon, o traficante disse que a “gang” da qual ele havia sido líder tinha sido criada nos anos 1970, por prisioneiros políticos, e o primeiro manifesto fala de diversas formas de justiça social.

E o mais interessante é a declaração que o traficante fez a Jon: “No passado, alguns de nós costumavam ter consciência social. Hoje em dia, nós somos apenas criminosos”.


Jon Lee Anderson - despolitização ocorre até no mundo do crime
Jon conta que, depois daquela observação do traficante, Hobsbawm surgiu em sua mente instantaneamente. Recordou, então, um encontro que teve com o historiador, na casa dele em Londres. Hobsbawm falou sobre seu interesse pelo Sri Lanka, um país com uma antiga tradição marxista, e pela Colômbia, especialmente pela Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). São dois exemplos de guerrilhas que possuem as caracteristas criminosas e marxistas.


Num posfácio que entrou na edição de 1999 de “Bandidos”, Hobsbawm menciona como, nos anos 1970, membros de um radical grupo camponês do México avisaram o autor de que eles aprovavam seus escritos sobre o banditismo social. Hobsbawm então escreveu ainda: “Isso não prova que as análises colocadas neste livro estão certas. Mas pode dar aos leitores alguma confiança de que é mais do que um exercício de antiquarismo ou de especulação acadêmica. Robin Hood, mesmo em suas formas mais tradicionais, ainda significa algo no mundo atual, para pessoas como esses camponeses mexicanos. Há muitos deles, e eles devem saber disso”.


Marcinho VP: não fazem mais "bandidos" como os de antigamente
Para demonstrar como a consciencia política e social do banditismo está, hoje, defasada, Jon Lee termina o artigo com um exemplo concreto. Atualmente, no México, o bandido que está no “topo” é o “psicopata” Chapo Guzmán, enquanto o “filósofo”, revolucionário e fumador de cachimbo Subcomandante Marcos foi marginalizado, junto com suas mensagens de reforma social.




Faça o download de "Bandidos", de Eric Hobsbawm
aqui
(versão em espanhol).






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