segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Saúde Mental e política de Álcool e Drogas: um depoimento

Hoje pela manhã fiquei sabendo que alguns membros do AA que frequentei no começo do ano, para uma pesquisa, tiveram recaídas severas. Um não aguentou a abstinência, tomou uma dose de qualquer pinga e entrou em coma. Outro, que havia voltado para a família, recuperado emprego e conciliado com a esposa, voltou a consumir álcool e também crack. Anos atrás, havia se perdido na Cracolândia, no centro de São Paulo, e era considerado por colegas de AA um verdadeiro milagre. Eu mesmo tive a oportunidade de conversar com ele várias vezes, durante os 3 meses que compareci, semanalmente, às reuniões do grupo da Vila Mariana. Era um sujeito sorridente, baixo, magro, estava determinado a vencer na vida. Não aguentou, e hoje voltou a aterrorizar a vida da mulher e da filha pequena.

A vida do dependente químico ou de álcool é um poço de incertezas, pois a recuperação pode ser interrompida a qualquer momento. Afinal, o que separa ele, o alcóolatra, é um copo, que pode ser facilmente oferecido ou adquirido em qualquer bar. Os próprios dependentes costumam dizer que o alcoolismo não tem cura. Apenas faz-se um esforço para ficar o maior tempo possível longe do objeto de seu vício. Uma compulsão tem como finalidade o prazer constante, daí a dificuldade.

Os dependentes também são alvo dos inúmeros métodos que tentam, cada qual, trazer a cura. Do mais metafísico, como a religião, ao mais científico, como o uso de medicamentos específicos, os pacientes que encontrei no AA haviam passado por todos, sem exceção. No AA, o método utilizado é o Modelo Minnesota. trata-se de um método que nasceu nos Estados Unidos há mais de 50 anos e é baseado numa concepção humanista de tratamento, com a formação de grupos anônimos, em que os membros falam de seus problemas livremente. Ele é fundamentado em 12 passos, que basicamente são normas que devem ser seguidas pelos pacientes. O modelo tem seu sucesso, é o mesmo usado em AA, NA, e outros grupos de pessoas que compartilham o mesmo problemas e querem se livrar dele, como é o caso também dos compulsivos por sexo, cigarro, jogos. O Vigilantes do Peso, por exemplo, baseia-se nesse modelo, mas de maneira diferente e comercial.

O fato é que, dentro do espectro das políticas públicas, há uma verdadeira mistura de métodos. A mistura em si não é ruim, mas o embate entre concepções conflitantes muitas vezes acaba colocando o paciente em segundo plano. Ou terceiro.

Pego como exemplo os CAPS Centros de Atenção Psicossocial. A ideia original, surgida no Brasil em meados dos anos 1980, por um grupo de profissionais,  entre ele psiquiatras e psicólogos, influenciados pelas reformas psiquiátricas da Europa nas décadas anteriores, é revolucionária. Um espaço oposto à lógica dos manicômios, possibilitando tratamento humanizado, com terapia ocupacional, medicação se necessário, encaminhamento a hospital, também quando necessário. No modelo anterior, o paciente era internado, passava por tratamentos de choque, com aspecto corretivo ou punitivo, cercado por muros, sem ocupação, porque medicados com sedativos. O problema é que o modelo antigo e o "novo" (antimanicomial) convivem dentro da gestão pública.

Temos uma política nacional atual, voltada para políticas libertárias, que valorizem a capacidade criativa não só da pessoa com deficiência, mas também do usuário de drogas e álcool. Ao mesmo tempo, quando descemos para os níveis estadual e municipal, vemos uma evidente confusão: temos aqueles que seguem e até aprimoram a política nacional, e temos aqueles representam ruídos dentro do sistema de saúde mental. Por exemplo, São Paulo é a única cidade que possui um CAPS administrado pelo Estado, e não pelo município. Trata-se do CAPS Itapeva, próximo da região da avenida Paulista. A administração desse CAPS foi entregue pelo governo tucano a uma Organização Social, a SPDM - Associação Paulista para o Progresso da Medicina. Essa OS é responsável pela administração de hospitais não só em SP, mas em outros Estados. No campo da saúde mental, sua inclinação é contrária à reforma psiquiátrica, e por isso o CAPS Itapeva, que por sinal foi o primeiro do país, é considerado o "patinho feio". Conversei com pacientes de lá, que me disseram que a principal atitude em relação ao paciente que chega lá precisando de ajuda é a medicação. Um, que não quis se identificar, disse que certa vez se recusou a tomar o remédio. Sem alternativas, o jeito foi voltar às ruas.

Mas há muitos casos positivos no país em relação aos CAPS, como, por exemplo, em São Bernardo do Campo, Recife, Belo Horizonte etc. São Paulo é um caso particular, com políticas de saúde mental perfeitamente compatíveis a padrões medievais.

O AA é sim eficiente, trata-se de uma medida que pode ser complementar ao CAPS, mas não substitui por completo outros mecanismos da política de álcool e drogas do país. Sempre defendi o sistema de Minnesota, pois vejo nele o grande diferencial em relação a outros métodos, como a internação em clínicas particulares - as chamadas Comunidades Terapêuticas. A diferença é que nos Anônimos elimina-se a figura do paciente (ao menos nas reuniões, pois fora delas o paciente é incentivado a procurar auxílio médico, se necessário). Cria-se, portanto, um ambiente totalmente confortável para aquele que deseja falar de seu problema. A cura, senão certa, pelo menos ganha mais chances apenas quando se coloca o ato da fala em prática. Arrisco-me a dizer que seja um exercício de livre associação, pois em muitos relatos que vi durante minha experiência no AA a pessoa acaba divagando, falando de coisas aparentemente irracionais. Ou seja, palavras que, para a medicina convencional, talvez não acrescentem em nada no diagnóstico médico. Mas ao falar para iguais, o alcoolatra automaticamente fala de si com segurança, pois a sua volta estão pessoas que vivem, de fato, problema semelhante. Não há hierarquia, nem o discurso de autoridade do especialista (seja ele um médico, o dono de uma clínica, o padre ou o psicólogo).

O diferencial, portanto, está na auteridade, que muitas vezes falta em outros métodos. Uma proposta interessante é prefeituras contratarem ex-alcoólatras, que estão curados no mínimo há 5 anos, e colocá-los na ponta do processo. Ai invés de enviar um servidor público, um psicólogo ou um médico às ruas, para "acolher" os pacientes, creio que daria muito mais resultado encaminhar semelhantes - pessoas que, embora não tenham curso superior ou doutorado em medicina (ou até tenham), possuem o conhecimento de causa, empírico.

Na Unifesp, há um grupo de médicos que, no passado, frequentaram o AA, na condição de alcoólatras. Curaram-se, cursaram medicina e hoje aliam os conhecimentos acadêmicos com a experiência pessoal diante da doença. Mas são casos raros. Nenhum médico, por mais que tenha estudado, convivido com pacientes, e dedicado a vida acadêmica a compreender a dinâmica das drogas dentro do organismo humano conseguirá sentar-se diante do paciente e travar um diálogo livre da relação especialista-paciente ou especialista-objeto de estudo. Inevitavelmente, a condição será esta. 

As pessoas que caíram novamente no inferno da bebida e das drogas, com as quais conversei meses atrás, tentaram de tudo. A doença é uma das mais tristes que conheci, pois é uma das poucas que expõe constantemente, diariamente, o doente diante do vírus que o destrói. A menos que durma 24h por dia, o dependente de álcool ou drogas tem a seu alcance a publicidade perversa de bebidas alcoólicas. Quando sai à rua, tem os bares, os restaurantes ofertando bebidas. Tem as farmácias, com drogas no balcão. Tem os mercados, os botecos, o álcool Zulo na dispensa de casa, indispensável para a limpeza. Diferente de qualquer doença, as pressões para que um alcoólatra caia em recaída são muito mais fortes e malignas do que uma mudança no tempo pode ser para um paciente de bronquite. No caso, essa pressão é silenciosa, está na publicidade, no modelo de sociedade que se impôs.

O problema não é a recaída em si, já prevista. E muito menos o AA não dar conta de todos os seus membros. O problema é a gestão pública não amparar tudo isso. 

Fascista, a gestão atual da cidade de São Paulo tem a seguinte lógica introjetada, considerada medieval: "tiremos as marmitas entregues a moradores de rua por entidades filantrópicas; desativemos albergues populares; incendiemos favelas e "limpemos" o centro de São Paulo; sem opção, os doentes e desabrigados terão que aceitar o que temos pra hoje: CAPS privatizado e albergues despreparados". 

É triste, mas tem sido assim a realidade.

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