terça-feira, 9 de outubro de 2012

Uma reflexão sobre o jornalismo colaborativo

Hoje cedo tive acesso aqui na Unicamp a um artigo da pesquisadora Lindsay Palmer, da Universidade de Santa Barbara, Estados Unidos, publicado na Television & New Media de junho deste ano. O artigo (iReporting an uprising: CNN and citizen journalism in network culture - versão completa, em inglês clicando aqui) fala da pesquisa que a autora realizou sobre os iReporters da CNN, modelo de jornalismo colaborativo lançado pela emissora norte-americana em 2006 ( http://ireport.cnn.com/about.jspa ). Trata-se de uma das primeiras experiências do chamado jornalismo cidadão, em que uma massa de leitores são convidados, por um veículo tradicional da mídia, a colaborar com, principalmente, fotos e vídeos. Dentro os lemas da CNN estão a tentativas "de cobrir todo o globo", todos os cantos do planeta, numa grande "força global unificada". O modelo dá ao cidadão a possibilidade de se tornar dono da própria informação, com um senso de ativismo; e o veículo de mídia, na contrapartida, ganha colaboradores que atualizam o site sem exigir nada em troca.

A pesquisadora debruçou-se sobre dois momentos específicos do iReport: a reunião do Global Challenge em 2010 e as manifestações no Irã após reeleição de Mahmound Ahmadinejad,em 2009. O objetivo do trabalho de Palmer foi mostrar paradoxos nessa relação entre jornalismo tradicional e o jornalismo cidadão. Segundo ela, a CNN, com seu iReport, simultaneamente explora e depende do trabalho de seus colaboradores, especialmente na cobertura de manifestações políticas. Contudo, uma das conclusões é de que o jornalismo cidadão é menos um história de exploração e mais uma história de negociação - e de como o enfraquecimento da hegemonia do jornalismo tradicional, na representação do mundo, se desdobra na crescente ambiente de produção informal em rede. 

Palmer afirma que a quebra da hierarquia na produção de notícias não deve ser atribuída apenas ao crescimento das tecnologias digitais, embora elas de fato melhorem a propagação de mensagens dos cidadãos. Mas além disso há uma verdadeira crise da credibilidade do jornalismo profissional, marcada por uma incapacidade do mediador entender as dimensões de um fato. Isso aumenta o "gap" entre o jornalismo tradicional e seu público. E, nesse sentido, veículos como a CNN e outros pelo mundo destinarem espaço para a atuação desse jornalismo cidadão chega a ser caso de vida ou morte do próprio jornal, antes de representar um fator modernizante. Há, também, cada vez mais, a noção de que o jornalismo enquanto guardião da democracia é uma verdadeira falácia, caso não considere a produção daquele que presenciou ou vivenciou o fato localmente. Contudo, não pode-se perder de vista que o iReport continua sendo uma forma de corporatização do jornalismo cidadão.

Uma das metodologias da pesquisa foi realizar entrevistas com participantes do Global Challenge de 2010 e com iReporters que cobriram a insurreição iraniana de 2009. Na ocasião da reeleição de Ahmadinejad, foram deflagradas manifestações em todo o mundo afirmando que a reeleição havia sido fraudada. Muitos países, como os Estados Unidos, não reconheceram a nova eleição. Outros, porém, como Brasil, China e Rússia, reconheceram a legalidade - e daí foram protestos e mais protestos. O objetivo de Palmer com isso foi bem peculiar: ela não queria saber o que os iReporter pensavam exatamente sobre a reeleição; a ideia foi examinar as possibilidades e os perigos da ultra-visibilidade prometida pela CNN. Sim, nas retóricas da CNN sobre o iReport prometeu-se que, com milhares de colaboradores espalhados pelo mundo, com câmeras nas mãos, tudo poderia ser coberto, tudo seria noticiado. Neste caso, Palmer encontrou diferença entre aqueles que cobriram a Global Challenge e aqueles que acompanharam o Irã. 

Mais para frente Palmer tem como objeto de estudo as razões que fazem pessoas a trabalharem de graça para a CNN. E chega a três tópicos paradoxiais, que depois serão melhor elaborados no decorrer do artigo:

1 - A indústria de notícias dos Estados Unidos esforçou-se, com preocupação, para manter o monopólio durante a insurreição no Irã, enquanto continuou explorando o trabalho de cidadão como fontes.

2 - O paradoxo status do iReport enquanto trabalho não remunerado que, especialmente no caso do Irã, colocou em xeque noções dominantes de valor ao privilegiar visibilidade global ao invés de compensação monetária ao colaborador.

3 - O caráter perpétuo de negociação fundamental para que haja a interconectividade, exemplificada pelo sofisticado poder da CNN para controlar iReporters que publicaram comentários que atentavam contra a reputação da Nokia, num episódio de aproximação entre a empresa e o governo iraniano. E também em casos de iReporters usando o próprio canal da CNN para criticar a CNN, após tentativas da grupo midiático silenciar seus colaboradores.

Palmer afirma que embora a negociação entre colaborador e veículo de mídia não envolva pagamento em dinheiro, o que o cidadão procura é uma forma de tornar seu ponto de vista público. Procuram reconhecimento, muitas vezes até perigoso para eles, dependendo do grau das denúncias. E essa visibilidade só é possivel por meio da interconectividade com a rede, a mesma que os explora como mão de obra para gerar conteúdo. É puro paradoxo.

Mas a leitura do artigo na integra é indispensável para quem quer entender um pouco mais sobre essa relação.

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