segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Aumentar o controle sobre as armas ou o acesso à saúde mental?

Sempre que um assassinato em massa acontece, como este novo em Newtown, nos Estados Unidos, aquele velho e necessário debate sobre controle ao acesso de armas é revisitado. Dizem que, caso fosse dificultado o acesso às armas, estes adolescentes "serial killers" não teriam condições de matar, de maneira rápida, tantas crianças. Ontem ouvi um argumento que, ao meu ver, é um absurdo, mas deve ser registrado: pelo contrário, com o acesso fácil às armas, abater o sanguinário assassino fica mais fácil. No caso brasileiro, de Realengo, no Rio de Janeiro, se algum segurança ou vigia da escola andasse armado, poderia logo ter interrompido o atirador com um tiro na cabeça. Evidentemente o argumento não leva em conta que, nos Estados Unidos, com toda a liberação, ainda assim os casos se multiplicam.

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Creio que o debate sobre desarmamento é importante, mas limitado. Digo, talvez o foco não seja necessariamente este. Vejamos, caso os garotos que entram em escolas, cinemas, universidades e outros locais públicos não portassem armas de fogo, poderiam eles causar estrago semelhante? A resposta é sim. Inteligentes que são, na maioria dos casos, usariam armas químicas, venenos, facas, lança chamas, gasolina e um fósforo etc. Meses atrás, um caso chocou alunos do IMPA, o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplica, no Rio de Janeiro. Um aluno de lá matou o colega de república com uma pedrada e, depois, uma facada, após um desentendimento. Colegas disseram que o assassino era conhecido por ser uma pessoa anti-social, de "comportamento fechado". Usou uma pedra para nocautear o colega, e depois o golpeou com facadas. Os dois eram alunos de mestrado de uma das mais prestigiadas instituições de ensino do país.

A questão que levanto é a seguinte: por não, além de dificultar o acesso às armas de fogo, não ampliarmos o acesso dessas pessoas ao tratamento de saúde mental?

Ou seja, limitar o acesso dessas pessoas não só às armas, mas às pessoas, como defende David Berreby, em artigo no site big Think. Não se trata de impor prisão, quando o ato já foi consumado. Muito menos nos iludirmos com a ideia de que é possível "prever" que um "louco" vá, um dia, matar dezenas de crianças, o que legitimaria qualquer procedimento preventivo contra alguém considerada "diferente" na sociedade. Isto é, qualquer quieto, ou qualquer anti-social, seria, de antemão, suspeito de algo que "ainda deve acontecer".

O que defendo é, basicamente, a desmistificação do tratamento de saúde mental. Ora, se há boas iniciativas no país de levar dentista pro interior do país, a regiões que quase não tem posto de saúde, ou então mutirões de médicos - oftalmologistas, por exemplo - que andam por aí curando casos de catarata que talvez nunca fossem tratados, por que não fazer o mesmo, por exemplo, ampliando o acesso a centros de atendimento psicossocial (CAPS)? Entendo que no caso da saúde mental os tratamentos são diferentes, por exemplo, de uma simples cirurgia de catarata. Exigem (muito) tempo, anos às vezes. Requerem acompanhamento quase que diário, e um trabalho interdisciplinar, que envolve médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos etc.

Por isso? Porque, desmistificando e popularizando a saúde mental, ficaria mais fácil uma mãe, uma professora ou quem quer que seja identificar, na criança e no adolescentes traços de algum transtorno.

Os casos como o registrado agora, em Newtown, são sempre muito parecidos. Por que o alvo geralmente é as criaças? Por que a escola ou a universidade? Bem, as criaças são aquilo que, na maioria das sociedades, representam o que há de mais puro. A criança é o símbolo da inocência, da pureza, da virgindade, da bondade, daquilo que não corrompe, não mente, não machuca. Ter a criança como alvo é a maneira mais certa de abalar o homem mais poderoso do planeta, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a ponto de fazê-lo chorar em rede de televisão. É, portanto, chocar no mais alto grau, chamar atenção para a vulnerabilidade social.

E fazer isto na escola, ou na universidade, é promover a matança dentro daquele que é considerado o santuário do Saber, o local definido socialmente como o templo de acesso ao Conhecimento, à Ilustração, à Razão. É como se o assassino dissesse: estou matando o que há de mais puro na sociedade no local mais racional da sociedade. As crianças, no caso, são meros instrumentos - infelizmente.

E neste tipo de perfil converge uma série de caracteristicas de personalidade tais como o anti-social, o inteligente acima da média, o vítima de bullying, o admirador de armas e temas ligados à guerra etc.

Assim como nem todo anti-social, podendo ter acesso a armas, chega aos finalmentes de querer aniquilar criancinhas na escola; nem toda pessoa com distúrbios mentais é um assassino em potencial. Contudo, disseminada a cultura da saúde mental, o tratamento psicológico tem mais chances de atingir INCLUSIVE os casos que um dia podem estampar manchetes de jornais.

Assim, reforço: discutir a regulação de armas de fogo, ok. Mas, ao mesmo tempo, pensar em estratégias para ampliar o acesso à saúde mental.

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ATUALIZAÇÃO EM 18/12, ÀS 11h50

O leitor Daniel Huss sugeriu a leitura da reportagem "Com menos armas, Brasil tem três vezes mais mortes a tiro que os EUA", publicado hoje na BBC Brasil e no UOL. O texto diz que apesar do número bem inferior de armas de fogo em circulação na população do que nos Estados Unidos, o Brasil registrou, em 2010, 36 mil vítimas fatais de tiros. O montante é 3,7 vezes o registrado pelos americanos, que tiveram 9.960 mortes, colocando o país no topo dos que mais registram óbitos por arma de fogo no mundo.

Ou seja, um bom complemento a este post. Será que somente as armas são as culpadas?

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Mais uma atualização: após eu publicar este post, recebi comentários, nas redes sociais, de pessoas apontando que eu estaria, na verdade, afirmando que o controle sobre o acesso de armas não deve ser levado em conta. Reforço aqui que sou à favor do desarmamento; quanto menos armas circulando, melhor, entendo. Apenas enfatizo que há uma complexidade por trás da questão, que não deve ser reduzida ao simples debate sobre a culpabilidade do acesso a armas. 

Um comentário:

  1. Concordo sim com este ponto de vista. Até quando ficar perdendo tempo só com discussão de porte de armas?

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