quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A importância do texto simples para falar de ciência

As bibliotecas das principais universidades do país devem estar abarrotadas de tesouros como esse que comentarei aqui. O colega de redação da revista Pesquisa Fapesp Carlos Fioravanti encontrou na biblioteca da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP edições da revista O Biologico, de meados da dácada de 1930.

Trata-se de uma série de textos de divulgação científica, escritos por cientistas, voltados para informar o agricultor sobre questões de seu cotidiano.Há desde dicas sobre como fazer uma injeção para ser aplicada em animais, passando pelo combate de pragas, como ratos, até verrugose do abacateiro. Editada pelo Instituto Biológico do Estado de São Paulo, a publicação era dividida em apenas duas editorias: a divisão vegetal e a divisão animal.

Poderia destacar vários elementos para comentar neste post. Por exemplo, os anúncias publicitários da época, como o de um microscópio, na edição de janeiro de 1936. É o "novo" microscópio Zeiss, que apresenta as seguintes vantagens: tubo binocular inclinado, campo visual argumentado em cerca de 50% e forma elegante e moderna, entre outras exclusividades. O microscópio podia ser encontrado para venda, ou demonstração, na Rua Barão de Itapetininga, 18, 5º andar, no centro de São Paulo.

Mas chamo atenção para o estilo da revista, cujo um dos colaboradores era José Reis (reconhecidamente um dos maiores nomes da divulgação científica brasileira). O interessante é ver com os autores - de novo, todos cientistas, uma vez que o conceito de jornalismo científico não era formado no Brasil - escreviam de forma leve, cheia de adjetivos, como que querendo conversar com o agricultor. Antes de tocar no tema principal da notícia, os autores tinham o cuidado de introduzir o leitor de forma a fazer do ambiente da leitura para o qual os convida um tanto aconchegante, confortável. É usada, na introdução, uma linguagem convidativa, próxima da fala de todos. Os números, os conceitos e definições entram depois, e ainda assim com cuidado para que não assuste quem foi fisgado pela leitura. 

Veja um exemplo, do texto "Governo, doenças de animais e assistencia veterinaria", assinado por J. R. Meyer (mantenho a grafia da época):

"É bem conhecido de todos o costume de atribuir nossas desgraças ao governo. Si faz calor, é o governo o culpado. Si faz frio, é preciso que o governo tome providencias. Si quizessemos criar uma definição poderiamos dizer que o governo, na opinião da nossa gente, é o bóde expiatorio cuja função principal é arcar com a responsabilidade de todos os nossos erros, de nossa ignorância e de nosso comodismo. Entretanto, não há gente melhor e mais cordata do que os nossos homens de governo. Tantas são as gritas, tantas são as exigencias, tantas as reclamações que os nossos mandantes, abarbados, como os pais bonacheirões que se veem desesperados com o berreiro dos filhos, ou porque se convencem de que só a eles é que assiste a obrigação de fazer alguma coisa, ou porque não querem lançar mão de processos mais comodos resolvem ouvir pacientemente a voz do povo, dando tudo quanto se lhes péde e até mais do que isso".

Depois dessa introdução que, nos dias de hoje seria limada por um editor-chefe, Meyer começa a falar de casos concretos de como o Estado de São Paulo ajudou fazendeiros a resolver problemas da agricultura e da pecuária, citando exemplos, números e dados. Por que não começar logo pela "porrada", ou seja, pela informação em si? O exemplo pode ser eu mesmo: só comecei a ler o texto por causa dessa introdução que, a princípio, não tem nada a ver com investimentos estatais contra pragas no campo. 

Outro bom exemplo de fino trato da palavra, numa edição de junho de 1939. Em "Galinha bonita é galinha boa?", José Reis opta por começar assim um texto sobre doenças que atacam as galinhas:

"Pensam muitos criadores que, si as galinhas forem de boa raça e fino 'pedigree', e suas instalações luxuosas ou pelo menos iguais às que os livros recomendam como boas, de nada mais precisarão cuidar. É só deixar que as aves cresçam, ponham ovos e se multipliquem, ajudadas naturalmente pela ração que vem prontinha das casas de comércio 'especializadas no ramo'. De doenças, então, nem querem ouvir falar. Entendem que basta torcer o pescoço a todo animal jururú e atirar-lhe a carcassa ao lixo para afugentar a possibilidade de maiores aborrecimentos. E os que pensam desse modo já são muito adiantados porque outros há, que se contentam com a contemplação resignada e pacífica das mortes, que atribuem a uma fatalidade contra a qual não adianta lutar, ao passo que alguns outros apelam para certos recursos esquisitos, como pendurar num galho, de cabeça para baixo, a primeira vitima de qualquer doença - este 'passe' goza de muita fama! Ora, tudo isso está muito errado."

Depois disso, Reis vai dizer que não adianta uma galinha ser muito bonita, ser de boa raça ou premiada, "si" não atender a certos requisitos de saúde. E aí ele explica, com base científica, quais os métodos corretos para tratar certas doenças. 

Em outra edição, de setembro de 1937, José Reis escreve sobre a "cholera" e seus problemas:

"Quando a cholera bate em uma criação, é um Deus nos acuda. Amanhecem morta uma porção de galinhas que na vespera pareciam bôas; umas, a gente vê morrer de repente, com ataques fortes; outras demoram algum tempo doentes, tristes, arrepiadas, de olhos fechados e com accentuada diarrhéa em geral de côr amarela. O espetaculo se repete por alguns dias, baixando, assim, sensivelmente, a população dos galinheiros; à medida que os dias passam, o número de mortes vae diminuindo, até que a tempestade parece dominada".

Há uma riqueza descritiva, que às vezes nos faz esquecer que estamos lendo O Biologico, para pensar que temos à mão algum romance. 

Este post não traz uma "lição", uma dica. Apenas quer mostrar como textos que falam de ciência podem se livrar das amarras que, ao longo das décadas, foram reduzindo os movimentos de criação estética dos textos de divulgação no jornalismo. Claro que alguns vícios do passado hoje não cairíam bem. Mas o espírito da coisa é o que vale: um texto precupado em, além de informar, fazer do leitor um interessado pelo assunto. Um escrita parcial, com experimentações, com mais descrição. 

As bibliotecas das universidades mais antigas do país devem estar cheias de exemplos assim. 

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