segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Desconforto e tragédia na imprensa: incêndio em Santa Maria

Coberturas jornalísticas de desastres como o que aconteceu numa casa de shows na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, na madrugada de domingo (27) sempre causam desconforto para quem recebe a informação, para a fonte de informação e para quem gera a informação. Para a fonte, que pode ser um sobrevivente, um médico, um comandante ou representante de algum governo, o desconforto é causado quando, ainda no calor da coisa, se vê "obrigado" a falar à população que acompanha a cobertura em casa. Diante do microfone, da câmera ou de qualquer outro artefato que represente a imprensa, a fonte sente-se na obrigação de falar sobre o fato, como forma de ajudar nas investigações, alertar a todos sobre os perigos de colocar muita gente numa boate etc. Antes mesmo de depor para a polícia, os sobreviventes já "prestaram depoimento" para a imprensa, que se torna fonte primária de informação inclusive para as próprias autoridades. Ontem, na televisão, podíamos ver programas dominicais vestindo-se com o manto do jornalismo sério e ouvindo vítimas que sobreviveram; muitas afirmando que ainda estavam em choque, que não haviam dormido depois do incêndio. Jovens que haviam perdido amigos há poucas horas. Aceitam falar, apesar de tudo.

O desconforto causado para quem recebe a informação é o mais fácil de identificar e, ao mesmo tempo, o mais difícil de compreender. Com as informações primeiras, sabe-se o que aconteceu, onde aconteceu, como aconteceu e por que aconteceu. O desdobramento da cobertura jornalística segue na busca de lapidar as informações iniciais, checar números de vítimas, confirmar hipóteses, ouvir envolvidos. Também nesse desdobramento são montadas as reportagens de cunho trágico, com a finalidade de sensibilizar o público. O primeiro grupo de desdobramentos tenta seguir os preceitos da racionailidade (números, declarações técnicas e de autoridade, opinião de especialistas), e o segundo grupo de desdobramentos dá vazão aos recursos melodramáticos dos quais o jornalismo faz uso. No entanto, essa divisão não ocorre; na prática, cobertura racional e cobertura dramática acontecem juntas, ao mesmo tempo, como se fosse uma coisa só.

O leitor, ou telespectador, sente o desconforto ao ser bombardeado com números de mortos, imagens do local destruído, reconstituição do acidente. Os elementos do melodrama são, então, inseridos como forma de dar ao fato um aspecto triste e reconfortante. A mãe que chora em cima do caixão do filho torna-se tão próxima da realidade de quem assiste à cena, porque o que está em jogo é um sentimento universal. Assim, os "personagens" que vão ocupando as notícias são descontextualizados, des-caracterizados, ficam sem rosto; este filtro deixa passar apenas o que que pode ser generalizado: o drama dos familiares, o choro descontrolado da mãe, o desconforto.

Por fim, há o desconforto do próprio jornalista. Este que, diante do fato, deve-se manter suficientemente afastado do objeto reportado e, para manter o profissionalismo e a seriedade, e ao mesmo tempo, suficientemente próximo do fato, para dar efeito de realidade e dimensão humana à notícia.

De um lado, uma entrevista coletiva com ministro, secretários de Estado, prefeito. Do outro, desespero, trauma, dor indescritível. No meio de tudo isso, a mediação jornalística, ora pendendo para a clareza, a razão, a ordem na apresentação de dados e discussão técnica, ora pendendo para a descrição, sempre frustrata, do sofrimento. Sempre frustrada, por conta dos limites da própria linguagem. O jornalista, portanto, também está numa posição desconfortável, lidando com modelos e padrões de cobertura jornalística pouco flexíveis e também com tentativas de experimentações incompatíveis com a demanda por informação.

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Jornalismo e trauma, invasão e respeito. Nunca os limites entre um e outro ficam tão tênues como em momentos como esses de grandes acidentes, com grande número de mortos. O problema é que o jornalismo não tem como função apenas informar. O jornalismo também está preocupado com o valor estético e simbólico do fato.

Ontem, enquanto acompanhava a cobertura sobre o incêndio em Santa Maria, li um trecho de Elogiemos os homens ilustres, obra do jornalista James Agee e do fotógrafo Walker Evans escrita em 1936. Num parágrafo, Agee escreve:

"A mim parece curioso, para não dizer obsceno e plenamente aterrador , que possa ocorrer a uma associação de seres humanos reunidos pela necessidade e pelo acaso, e pelo lucro, em uma companhia, um órgão de jornalismo, sondar intimamente as vidas de um grupo de seres humanos indefesos e assustadoramente feridos, uma família rural ignorante e desamparada, com o objetivo de fazer desfilar a nudez, o desfavorecimento e a humilhação dessas vidas diante de um outro grupo de seres humanos, em nome da ciência, do 'jornalismo honesto' (seja o que for que esse paradoxo signifique), da humanidade, do destemor social, por dinheiro e uma reputação de cruzados e de observadores objetivos que, quando especificada com suficiente habilidade, em qualquer banco se troca por dinheiro (e, na política, por votos, empreguismo etc) e que essas pessoas possam ser capazes de considerar essa perspectiva sem a mais ligeira dúvida de sua qualificação para realizar uma obra 'honesta', e com a consciência mais que tranquila, e com a virtual certeza da quase unânime aprovação pública".

Em nome de coberturas "honestas", pelo bem de todos, o jornalismo varre a complexidade do evento, faz do desconforto e do mal-estar a senha pela qual todos acessam o fato - sendo que o próprio jornalismo necessita desta senha. O duro é quando, ao utilizar a senha, deparamos com o vazio. O cofre, feito de falas, depoimentos, declarações, imagens e mais imagens de corpos, na verdade não tem capacidade para conter tamanho trauma.

Um comentário:

  1. Excelente, bruno. O trecho que você selecionou não poderia se encaixar melhor nessa situação. Eu acho que não teria estômago para trabalhar neste tipo de cobertura.

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