quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ciência, dados abertos e colaborativismo


Em 2011, em Hamburgo, na Alemanha, houve um surto de infecção intestinal causado pela Escherichia coli, que afetou 400 mil pessoas após se espalhar rapidamente por toda a Europa. As vítimas testavam positivo para uma determinada cepa de E. coli e os médicos e especialistas de Hamburgo não sabiam como lidar com isso. Pairava uma grande dúvida sobre a infecção provocada por esta cepa específica, uma vez que ela se parecia com outras cepas. 

Num momento quando nem mesmo os especialistas conseguiam chegar a uma resposta, a solução encontrada foi passar essa "bata quente" adiante. Os dados sobre o genoma da cepa de E. coli foram abertos e publicados num site na internet para que qualquer pessoa em qualquer parte do mundo pudesse acessar. Em 3 semanas, aproximadamente 200 relatórios foram publicados sobre o que deveria ser feito para impedir a epidemia e seus efeitos - e, o mais importante, os resultados foram usados para controlar o surto. 

Esse relato foi feito por Jessica Bland, conselheira de política científica da Royal Society, em artigo publicado na edição de outubro de 2012 da revista Pesquisa Fapesp (disponível na íntegra aqui). O exemplo descrito por Jessica é um caso de cooperação científica possível graças à disponibilização de dados abertos. O tema é hoje um dos mais discutidos na comunidade científica, a ponto da já citada Royal Society, uma das mais antigas e respeitadas sociedades científicas do mundo, ter lançado, em junho do ano passado, o relatório Science as an open enterprise, que trata dos desafios da divulgação de dados abertos da ciência. 

Segundo o documento, a internet fornece canais em rede para interligar cientistas profissionais e amadores e forçar a colaboração e a comunicação entre eles. Trata-se, nas palavras do relatório, da oportunidade de se estabelecer uma segunda revolução da ciência aberta, assim como a primeira surgiu com a criação dos primeiros periódicos científicos. "Ao mesmo tempo, muitos de nós queremos nos satisfazer em relação à credibilidade das conclusões científicas, que devem afetar nossas vidas, muitas vezes examinando as evidências, e os governos democráticos estão cada vez mais pressionados a disponibilizarem seus dados para o público". Nesse cenário, portanto, a ciência "precisa se adaptar a essas mudanças tecnológicas, sociais e políticas".

Segundo Jessica, a abertura dos dados podem contribuir para a saúde pública - como no exemplo da Alemanha - e até mesmo para a indústria. No entanto, a abertura deve ser feita de maneira inteligente. O que a representante da Royal Society quer dizer é que a abertura em si não deve ser o fim, mas o meio para se atingir algo maior, e por isso o processo de abertura de dados científicos deve levar em conta alguns critérios. "Os quatro critérios que nós temos que seguir são, em primeiro lugar, tornar acessíveis os metadados. Em segundo lugar, eles precisam ser compreensíveis. Em terceiro, é necessário expor um contexto, a fim de que as pessoas que forem usá-los entendam como eles foram recuperados, o quanto são confiáveis, ou seja, isso é para o propósito de uma revisão por pares. E, por fim, os dados precisam ser reutilizáveis ou replicáveis. Só se esses quatro critérios forem cumpridos é que nós teremos uma abertura dos dados apropriada", escreve Jessica. 

Do ponto de vista jornalístico, as redações com visão de futuro só tem a ganhar com essa prática, não só no sentido do repórter ter acesso facilitado a dados de que precisa para compor uma reportagem. Com esta lógica colaborativa, em que um problema é compartilhado, a ampliação do alcance jornalístico favorece uma maior diversificação das fontes e, consequentemente, permite uma abordagem mais plural e variada. Um jornalista que cobre determinado tema científico pode conseguir contribuições de várias partes do país, e do mundo - desde relatos, denúncias, dicas e informações até sugestões de pautas originais que talvez nunca pudesse antes obter, não fosse a colaboração. Nesse caso, o leitor é protagonista da reportagem.

Mas do ponto de vista da própria ciência, a disponibilização de dados abertos requer cuidados (não que no caso do jornalismo não haja cuidados, mas nesse caso o material coletado pela contribuição dos leitores ainda passa por um filtro editorial). Esses cuidados dizem respeito aos limites da abertura, a interesses comerciais e o "tamanho" dessa abertura. Um mecanismo já colocado em prática pelo Instituto Europeu de Bioinformática, por exemplo, permite às empresas compararem e cruzarem informações de seus bancos de dados internos com os grandes bancos de dados do instituto, sem que ninguém consiga ver os dados do outro, garantindo, assim, as limitações do contexto comercial. Outro exemplo lembrado por Jessica é o do vírus H1N1, quando se encontrou uma nova forma que era contagiosa. "A questão era se esses trabalhos sobre o vírus deveriam ser publicados ou não, porque bioterroristas poderiam usá-los. No final foi decidido que deveriam ser publicados, sim, porque não haveria gente capaz de utilizá-los para terrorismo".

No caso de Hamburgo, na Alemanha, você tinha um problema numa mão e, na outra, um monte de dados genéticos, que foram publicados integralmente na internet, interpretados por cientistas "desconhecidos" até então e, com isso, chegou-se a uma solução. Mas há outra situação, quando você apenas o problema, mas não tem as informações. Neste caso - e aí que entra o papel do jornalismo - você expõe o conflito na rede e, a partir da massa de informação que recebe, seleciona aquelas mais relevantes. Essas informações que chegam estão em estado bruto ainda. Precisam ser checadas, lapidadas, interpretadas, talvez melhor explicadas - mas já servem como "farol", ponto de partida para o desenvolvimento de uma investigação estruturada.

No mundo, há experiências nesse sentido dentro da divulgação científica, como o portal SciDev.net. No Brasil, esse potencial ainda é pouco explorado pelo jornalismo de ciência. Em parte porque este modelo da colaboração tende a quebrar a lógica vigente, segundo a qual o jornalista procura o especialista, que passa a informação para o jornalista, que transforma isso em notícia, que será consumida pelo leitor, cuja participação máxima absorvida pelas redações não ultrapassa um comentário enviado por e-mail ou carta ou uma sugestão de pauta - a que chamam isso de "interatividade". 

No modelo colaborativo, o jornalista está no mesmo patamar do leitor, que pode estar no mesmo patamar do especialista. Isto é, o espectro de aproveitamento, durante a apuração, comporta não só o discurso do especialista tradicionalmente ouvido pela mídia (e pouco contestado), mas também aquele especialista que está à margem do mainstream (mas que pode trazer ao debate peças fundamentais). O jornalista pode até produzir uma reportagem convencional, em que ouça três, quatro fontes de costume. O diferencial está no tratamento que ele dará para o pós-publicação, quando a reportagem receberá comentários. Muitos deles não acrescentarão absolutamente nada ao debate, são ruídos. Mas outro tanto expressará conteúdo informativo, trazendo novos dados sobre a questão, novos pontos de vista que não forma abordados pela reportagem, contrapontos bem argumentados ou simplesmente dicas de outras fontes que também podem ser ouvidas. 

Isso significa que o modelo colaborativo atribui ao tema da reportagem o fator da "persistência", ou seja, o tema tende a ser permanente, e a reportagem - não mais sob a posso do jornalista - tende a ser uma "obra aberta", no sentido que Umberto Eco empregou. Assim, o assunto discutido na reportagem, por não comportar uma interpretação, é mantido "vivo". Mas não basta apenas receber comentários. É preciso dar aos bons comentários o mesmo status que a reportagem assume. E aí temos outra quebra da lógica vigente: quebra-se a hierarquia estabelecida entre o texto oficial, carregado de discurso de autoridade, e o comentário, que, presume-se, seja carregado de subjetivismo e pouca informação relevante. No modelo novo, o comentário que soma à discussão "sobe" de posição.

Há muitas barreiras que impedem o desenvolvimento desse modelo na ciência, o que vou tentar identificar melhor durante meu mestrado na Unicamp. Mas entre elas está a vaidade do cientista, que mostra resistência para aceitar contestações, ainda mais de "amadores", e a vaidade do próprio jornalista, que muitas vezes não aceita ser ajudado pelos mesmos "amadores". 

Acesse aqui o relatório Science as an open enterprise, da Royal Society.

Um comentário:

  1. Oi Bruno!
    Gostei bastante do seu post, inclusive suas inquietações são algumas minhas também. Vou gostar de acompanhar sua pesquisa de mestrado para ver aonde chegamos nessa dicotomia jornalismo X cientista - se é que chegamos a algum lugar...
    Eu escrevi um texto recentemente falando sobre crowdfunding e ciência colaborativa em laboratórios abertos, e penso que o seu texto apresenta um entrave à instalação desses lugares aqui no Brasil. Ainda pensamos que o "correto" é o que vem dos grande veículos de imprensa e não de um blog sobre o assunto, ou mesmo de uma revista que tenha menos acessos. O valor dado a cada uma das produções não é o mesmo.
    Compartilhando uma pesquisa rápida que fiz esses dias, olhando número de seguidores no twitter e likes pelo facebook. Aqui vai a lista, com números simplificados:
    - Super Interessante: 830 mil follows (twitter), 613 mil "curtir" (facebook)
    - Revista Galileu: 70 mil follows (twitter), 100 mil "curtir" (facebook)
    - Revista Ciência Hoje: 36 mil follows (twitter), 22,3 mil "curtir" (facebook)
    - Science Blogs Br: 5,1 mil follows (twitter), 36,5 mil "curtir" (facebook)

    Os números nos ajudam, de alguma forma, a tentar compreender o perfil de quem lê ciência por aqui e a pensar uma forma de divulgar conteúdo que realmente seja interessante e faça alguma diferença. E que os comentários relevantes sempre existam nos blogs!

    O meu blog é polimerasedemesa.blogspot.com.br e foi criado na semana passada.

    Até!
    Fiora

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