quarta-feira, 17 de abril de 2013

Belluzzo para o blog: "não há vitória definitiva contra a inflação"

O professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo, que ao lado de Delfim Netto e Yoshiaki Nakano, compõe o grupo de economistas conselheiros da presidente Dilma Rousseff, disse acreditar que, logo mais, o Banco Central anunciará o aumento da taxa Selic, como forma de conter a inflação. Na semana passada, os três economistas participaram de uma reunião em Brasília com a presidente Dilma, na qual nenhum dos três se opôs ao aumento da taxa de juros, conforme informou o Valor Econômico. Ao jornal, Belluzzo disse que o país se divide entre aqueles que acham que não pode haver aumento dos juros e os que acham que os juros não podem cair.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Em entrevista a este blog, Belluzzo disse que a discussão exige um olhar para o índice de inflação média dos últimos 15 anos, que ficou em torno de 5,9% - não muito diferente da taxa de inflação de agora. Segundo ele, a economia brasileira está sofrendo de uma doença crônica, chamada indexação. "Ainda que isso tenha diminuído, existem práticas de indexação informais que sustentam o componente inercial da inflação", disse. As origens desse modelo estão, contudo, enraizadas numa dimensão cultural do país. Para Belluzzo, parte do problema também se deve às metodologias para medição do Produto Interno Bruto (PIB) e à política de metas de inflação, estabalecida desde 1999 pelo Banco Central. "Hoje a política de metas é questionada em todo o mundo, pois é uma maneira mecânica de controlar a inflação".

No caso do Brasil, por exemplo, houve uma mudança estrutural no setor de serviços, os rendimentos e os salários aumentaram por conta das mudanças sociais, fazendo crescer a demanda por crédito. "As pessoas foram andar de avião, comer fora de casa, e isso ajudou a aumentar a inflação", disse Belluzzo, para quem a política monetária precisa levar em conta esses fatores. Segundo ele, não existe uma regra única para enfrentar a inflação, uma "apostila de certezas religiosas". "O governo tem adotado outras medidas, como as desonerações, mas para aguentar uma inflação dessa natureza, é preciso usar a taxa de juros".

De acordo com reportagem do Valor Econômico do último dia 09, o governo brasileiro considera que os preços administrados (aqueles que são determinados ou influenciados por políticas do Estado) estão sob controle com a redução nas contas de energia elétrica e a provável desoneração do óleo diesel e do etanol, segurando, provavelmente, as tarifas de transportes. Ainda segundo a reportagem, os preços dos alimentos (preços livres, que variam de acordo com o mercado) devem se acomodar "com um clima mais favorável para hortigranjeiros nos próximos meses e a safra recorde de grãos - o que ajudaria a conter prelços de óleos vegetais e carnes". Apesar disso, há a inflação dos serviços, sustentada pelo pleno emprego, salários em alta e forte demanda - e é aí que o governo não teria muitos instrumentos para intervir.

"Não há vitória definitiva para a inflação", declarou Belluzzo, explicando que a mudança de rumos para enfrentar a alta dos preços é constante e deve se valer de diversos mecanismos - não apenas a Selic. Para o economista, o temor em torno da inflação é reflexo dos tempos de inflação descontrolada, quando os investimentos públicos caíram. "Foi uma trajédia, pagamos o preço até hoje". Por isso, os empresários ficam atemorizados com a ameaça de inflação, o que deixa a todos apreensivos - inclusive a mídia.

Belluzzo disse que, nos últimos dias, os grandes jornais passaram a noticiar o que o mercado espera, como se ele, o mercado, fosse uma entidade técnica. Na verdade, os representantes do mercado formam um conjunto de interesses e isso afeta a opinião pública e o próprio Banco Central, que não está blindado contra esse clima de apreensão sustentado pelo noticiário. "Coloca-se o mercado como se ele não fosse uma entidade política", criticou Belluzzo.

Nesse sentido, o economista defende avaliações que levem em conta a história da inflação no Brasil, a trajetória da economia, o problema da indexação financeira e da adoção de modelos estáticos para enfrentar a inflação.

Desemprego. Com a alta da Selic, Belluzzo não desconsidera a possibilidade de se afetar o emprego. No entanto, a taxa deve subir moderadamente, o que não puxará a economia para baixo. "O Banco Central tem que comunicar que está disposto a aumentar a Selic, mas que não quer jogar a economia para baixo". Belluzzo concorda que os efeitos da Selic se dão mais no campo das expectativas que se formam ao redor dela no mercado, mas lembra que o próprio regime de metas diz que a taxa de juros serve para coordenar as expectativas.

Indexação. Em relação aos preços administrados, Belluzzo identifica o problema da indexação: "Hoje, sobe-se a tarifa de ônibus, porque a inflação embute o preço do tomate. O sistema de indexação é assim, não tem lógica. Cria-se um enrijecimento da economia". No caso dos preços livres, eles são mais sensíveis ao aumento da taxa de juros, sendo que o preços dos produtos agrícolas tem mais chances de ser afetados pela Selic. Portanto, embora defenda um leve aumento da Selic, Belluzzo afirma que o que de fato contribuirá para a queda da inflação é a combinação de estratégias. "Como há expectativas, você sobre a taxa de juros, mas outro fator é que o choque dos alimentos irá passar, e os alimentos vão contribuir para a queda; é a combinação disso tudo".



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