terça-feira, 16 de abril de 2013

Inflação, taxa Selic e etc.

Em artigo publicado em 2007, o economista e professor da Universidade Federal Fluminense Helder Ferreira de Mendonça tenta mostrar como a atual política de definir a taxa de juros básica da economia (Selic), em resposta à inflação, é onerosa para a sociedade brasileira. Trata-se da atual discussão sobre o controle das metas de inflação por meio do aumento da Selic. Para Helder, é questionável - para uma economia que possui uma das taxas de juros mais elevadas do mundo (em 2009, por exemplo, era 12,75%; atualmente está em 7,25%) - o argumento de que é preciso neutralizar, pela elevação da taxa Selic, os efeitos secundários dos choques causados pelos preços administrados.

Diz Helder no artigo: "Os preços administrados possuem uma dinâmica com forte componente backward-looking (parte dos itens tem reajustes com base na variação passada dos IGPs) e apresentam grande sensibilidade aos preços internacionais do petróleo e ás desvalorizações da taxa de câmbio".
E conclui que o problema não está em ter a taxa de juros como principal instrumento de combate à inflação, mas seu uso indiscriminado para neutralizar todos os tipos de inflação.

Por exemplo, no caso dos preços administrados (aqueles que são determinados ou influenciados pelo Estado, como a gasolina), a causa da inflação, diz o economista, não está relacionada a um excesso de demanda, mas à capacidade das empresas aumentarem seus preços mesmo quando a demanda está fraca - o que se configura inflação administrativa ou de custos. "Outro fator é que a proteção dada às empresas, por meio de contratos garantindo a manutenção da renda por meio da elevação de preços, implica a presença de um componente inercial na inflação. Logo, a taxa de juros não é o instrumento adequado para neutralizar uma pressão inflacionária oriunda dos preços administrados", explica.

O artigo também defende que a adoção do IPCA cheio é inadequada para a conquista de credibilidade do regime de metas para inflação: "na totalidade das vezes em que a meta foi alcançada, a inflação situou-se no limite superior da banda". Assim, Helder declara que há a necessidade de uma mudança na estratégia de condução da política monetária para que o custo da manutenção de uma elevada taxa de juros seja atenuado. E para isso retoma uma alternativa apresentada por Bresser-Pereira e Nakano: a adoção de um núcleo de inflação (exclusão dos componentes transitórios da inflação), "uma vez que seria capaz de atenuar os problemas advindos dos preços administrados e do câmbio".

Mas e quanto aos preços livres, que variam de acordo com o mercado?

Para estes, Helder diz que a taxa Selic é mais sensível aos preços livres do que aos administrados no curto prazo (pico no terceiro mês). Porém, em seguida afirma que "é preciso que a taxa de juros se eleve acima do que seria necessário para eliminar uma pressão inflacionária sobre os preços livres. Em outras palavras, dado que o Banco Central não tem controle perfeito sobre a inflação, há a necessidade de uma maior taxa de juros e um maior tempo para que seja implementada com êxito uma política de desinflação". Falamos, portanto, do longo prazo. No curto prazo, o aumento da Selic não influencia o crédito ao consumidor.

A avaliação do economista é a seguinte:
"A variância da Selic em relação aos preços livres e administrados apresenta um comportamento bastante interessante. Até o quarto mês depois da ocorrência de um choque, a importância relativa dos preços livres para a explicação da variância da Selic é maior do que a atribuída aos preços administrados. Entretanto, depois do quinto mês, a importância dos preços administrados na explicação da variância da taxa Selic torna-se proeminente. Esse resultado implica que a taxa Selic é mais sensível aos preços livres do que aos administrados no curto prazo (pico no terceiro mês). Não obstante, o maior efeito dos preços administrados sobre a taxa de juros é observado no sexto mês, o que, por conseguinte, denota uma rigidez para reduções na Selic. A justificativa para a rigidez se deve ao fato de que quando começa a declinar o efeito oriundo dos preços livres, o impacto proveniente dos preços administrados torna-se mais acentuado. A análise da função impulso-resposta para os dois casos ratifica a idéia acima. É observado que o efeito de uma alta nos preços livres tende a provocar uma elevação na taxa Selic que é eliminada no sétimo mês, ao passo que o efeito proveniente de um aumento nos preços administrados perdura por cerca de 11 meses".

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Sugiro a leitura do artigo de Delfim Netto desta semana na Carta Capital, aqui.







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