segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quando conheci Paulo Vanzolini

Conheci Paulo Vanzolini no ano passado, exatamente há um ano, quando tentava levá-lo ao Brasilianas.org, programa apresentado pelo jornalista Luis Nassif na TV Brasil, e no qual eu trabalhei como produtor até dezembro. Estávamos gravando uma série de programas especiais com nomes grandes nomes da ciência brasileira, especialmente aqueles que contribuíram para uma área específica. Gravamos, por exemplo, com o físico Sérgio Mascarenhas, o médico Adib Jatene e o químico Henrique Eisi Toma. O próximo de nossa lista  era o médico e compositor Paulo Vanzolini, que estruturou a carreira como zoólogo na Universidade de São Paulo (USP) e como criador de sambas inesquecíveis ("Ronda", "Volta por Cima" etc.).

O Nassif havia uns dias antes encontrado com Vanzolini no Bar do Alemão, na Zona Oeste de São Paulo, e fez o convite para que participasse do programa. Eu fui incumbido de consolidar o convite e preparar a pauta. Na primeira ligação que fiz para a casa dele, atendeu o telefone, foi simpático, e ao saber do que se tratava, gritou para a esposa Ana para que ela negociasse comigo a melhor data para gravar o programa. Não queria tratar desses assuntos chatos de datas e horários. No decorrer dos dias e semanas, era assim: ele atendia o telefone e imediatamente passava a bola para a companheira. Nas últimas conversas, descobri que eramos praticamente vizinhos. Vanzolini também morava no bairro da Aclimação, a poucos metros da antiga escola onde fiz a pré-escola.

No dia da gravação, lá estava na porta do estúdio, arrumado, sorridente. Apresentei-me, ele disse que "ah, você que falou comigo pelo telefone", e antes que eu confirmasse, foi indo apressado para o sofá. Conversamos por pouco tempo, antes que ele fosse para a maquiagem, o que também lhe causou certa impaciência. Nesse curto intervalo, comentei com ele que estava preparando um projeto de mestrado sobre divulgação científica e que gostaria de um dia entrevistá-lo para a dissertação. Ele disse, sorrindo, que não sabia nada sobre o assunto. Nem insisti, mas não concordei.

A entrevista com o Nassif rendeu muitas gargalhadas do pessoal que fica no switcher, a sala onde fica a direção do programa de TV. Isso porque muitas respostas de Vanzolini eram mono-silábicas, demonstrando um pouco de impaciência. Afinal, era um senhor de quase 90 anos, respondendo perguntas que provavelmente eram feitas a ele há mais de 50 anos. Foi uma das pautas mais divertidas que fiz.

Dias depois da exibição do programa, fui até a casa dele levar uma cópia em DVD. Entrei na casa, fui recebido pela Ana, que, soube mais tarde, era uma fã de Vanzolini na música, cantava suas composições e tornara-se sua esposa. Subi as escadas do sobrado, entrei numa sala de televisão, onde lá estava aquele senhor, tão importante para a ciência brasileira e para a música, encostado em uma poltrona, coberto com não sei quantos cobertores, assistindo a um filme de sessão da tarde. Sorriu para mim, agradeceu:

- Professor, aqui está o DVD com o programa que o senhor fez lá na TV Brasil.
- Ah, obrigado, obrigado.
- E sobre aquela conversa, do mestrado, ainda espero que possamos conversar mais para frente.
- Sim, sim - respondeu Vanzolini, olhando para a televisão. 

Nos demos as mãos. Eu sabia que ele não daria entrevista para mim, para falar sobre divulgação científica nem nada, mas arrastei diálogo como forma de eu mesmo poder um dia relembrar dele, num post no meu blog. 

Morreu na noite deste domingo (28).

O programa com Vanzolini está abaixo. Pelo que sei, foi uma das últimas (senão a última) entrevista que deu para a televisão, em maio de 2012. Se alguém souber de outra mais recente, poste aqui nos comentários.

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