segunda-feira, 20 de maio de 2013

O desencantamento do mundo

Há uns anos atrás, quando essa coisa de rede social não passava de um bate-papo do UOL, quando sua mãe ainda não estava no Facebook, quando o Orkut era novidade, enfim, eu muitas vezes me pegava imaginando como estaria aquela professora do primário que me deu aula há 500 anos. Ou aquele colega que eu tive na pré-escola, com quem eu brincava de qualquer coisa. Ou aquele vizinho arruaceiro que morava no andar de baixo. Ficava imaginando se aquela professora ainda dava aulas lá naquela escola onde estudei; se ela ainda tinha cabelos compridos, se estava gorda, se tinha morrido. E como será que está o fulano com quem eu brincava? Tá estudando? Foi morar num país distante, tipo Azerbaijão, ou ainda frequenta as ruas da Mooca?

E a curiosidade se estendia para outros assuntos; como estaria, por exemplo, aquela cidadezinha do interior onde passei aquelas férias incríveis? Eu até fiz amigos locais, mas como não mantive o contato, não sei como a cidade está, ou como aquela árvore que escalávamos para pegar amoras está. Será que ela secou? Será que está dando mais amoras? Será que um casal gravou nela suas iniciais? Será que no lugar construíram um estacionamento?

Bem, hoje com a super-exposição de tudo nas redes sociais, principalmente Facebook, Twitter e Instagram, eu sei exatamente que a porra da árvore está lá tal qual estava há 18 aos atrás. OK, é bom saber disso. Mas quase semanalmente eu sei como a amoreira está porque há uns 10 dias o Pedrinho, que hoje está mais para Pedrão - um dos contatos que fiz na cidade do interior - me adicionou no Facebook, sei lá como me achou, e sempre que pode posta uma foto do seu quintal em dias de churrasco (que acontecem quase todos os sábados) e de onde é possível ver, ao fundo, a árvore.

O mesmo com a professora da pré-escola. Essa eu mesmo adicionei, depois que o Marcio, que estudou naquela época comigo, e com quem eu brincava de qualquer coisa, ter me adicionado e indicado como amigo a professora nossa. Eu nunca imaginei que chamaria um dia a dona Fátima de "amiga", muito menos que teria a opção de curtir uma foto em que ela aparece tomando cerveja na piscina do clube. De biquíni. Eu tinha, até então, a imagem da dona Fátima como uma senhora que vivia seus 50 e poucos anos rodeada de livros infantis, biscoitos de polvilho, óculos com lentes bi-focal e nada mais.

O mesmo com o vizinho, que tocava o puteiro no prédio e hoje está casado, é homem de família, curte a página do padre Marcelo Rossi no Facebook e compartilha notícias sobre celebridades. Eu imaginava que talvez ele tivesse se tornado um punk que parou em seu tempo, louco, usando drogas injetáveis em um apartamento sujo e revirado, ouvindo Dead Kennedys. Mas não.

* * *

Não. Hoje eu tenho ao meu alcance, salvo algumas exceções, a ficha técnica de todo mundo que um dia fez ou faz ou poderá fazer parte da minha vida. Em diferentes proporções - uns mostram mais, outros, um pouco menos - fico sabendo o que aqueles perfis, que representam pessoas que fizeram parte da minha vida, estão fazendo, ouvindo, lendo, pensando ou simplesmente comendo. Fico sabendo não a totalidade, claro. Mas o suficiente para me frustar. Quem disse que eu queria ter certeza do que aconteceu com essas pessoas, esses lugares? Eu até que gostava de imaginar, supor, deduzir. Coisas que se tornam inviáveis, ou dificultadas, quando colocamos diante delas o pacote pronto, nada flexível, da bruta realidade, ainda que essa realidade também não seja uma completa realidade, porque é feita de fragmentos, imagens construídas em álbuns fotográficos permanentes, para indicar uma felicidade nem sempre real.

Assim como numa ditadura, não há escolhas. Não quero parecer um velho chato, que reclama das "modernidades de hoje". Aliás, acredito que a soma das vantagens que as redes sociais na internet trazem produzem resultado superior do que a soma das desvantagens. Mas essa é uma coisa que me incomoda: o mundo vai ficando mais desencantado. É a irracionalidade da razão excessiva, ainda que alguns teóricos defendam que seja o contrário: um excesso de irracionalidade.

A transparência excessiva, a mesma que incrementa as ferramentas de controle do poder político (ponto positivo), acaba se tornando, ela mesma, um poder, que transborda o uso desses mecanismos para setores que não se beneficiam tanto assim dessa iluminação excessiva (ponto negativo). A imaginação é um exemplo.

Não tenho conhecimentos suficientes de psicologia para isso, mas tenho a impressão de que alguma coisa acontece em nós quando certas imagens que criamos e desenvolvemos ao longo da infância são impactadas pela carga de realidade no futuro. Algumas, evidentemente, fazem parte do amadurecimento da pessoa e são necessárias. O cara, mais cedo ou mais tarde, vai saber que Papai Noel não existe. Esse é o exemplo clássico e mais extremo, junto com o Coelho da Páscoa. Mas há inúmeros outros, mais concretos. O fato é que o processo civilizatório - uma violência por si só - exige que a pessoa "caia na real" o tempo todo; descobre que não se pode voar como pássaros, por isso não deve tentar, caso contrário vai morrer.

Mas fora essas "castrações" inevitáveis, há aquelas memórias, aquelas sensações, muitas vezes feitas de imagens, sons e odores, que carregamos desde pequenos conosco e das quais não queremos abrir mão. É como aquela magia que se revela um mero truque de ilusão de óptica. E o incrível é saber que para a futura geração de mágicos se formar é preciso que novas pessoas estejam dispostas a terem revelados os mistérios da magia. É isso que acontece hoje, todos os momentos que abrimos nossas páginas nas redes sociais: achamos que é mais importante aprender a dominar a realidade por trás da mágica, do que viver iludido eternamente por uma arte que, embora nos fascine, nos remete ao obscurantismo e à corrosiva curiosidade.

* * *

A curiosidade, por sinal, é hoje entendida como uma doença. Deve ser tratada, é patológica. Entendo que uma coisa é você ter curiosidade quando eu, pessoa, entro em contato com algum objeto qualquer - pode ser outra pessoa, um planeta, um dispositivo. E entendo que há aquela curiosidade sobre a própria curiosidade, ou seja, a inquetude que sinto quando tenho curiosidade sobre as razões que me levam a ter curiosidade. Não é complicado. Basta pensar o seguinte: quando nos colocamos a lembrar de um episódio do passado que nos fez bem, mas que aconteceu há muito tempo, há algo nesse episódio que não é só puramente memória e nostalgia. Há curiosidade em saber por que ele foi tão marcante; curiosidade de saber por que até hoje eu lembro daquela professora sorrindo para mim. Criamos uma relação entre memória (passado) e curiosidade (futuro). Coloco curiosidade como futuro, neste caso, porque a curiosidade vem carregada de vontade, desejo de desvendar - algo que esperamos que um dia, num futuro, aconteça. Ora, mas o prazer disso é justamente saber que não saberemos.

A curiosidade sobre o que somos e para aonde vamos após a morte, ainda que seja carregada de angústia, é extremamente prazerosa. Pode ser tema de conversas de bar por horas e horas. É muito mais empolgante, desafiador e prazeroso divagarmos e especularmos sobre uma curiosidade que nos faz coçar internamente de tanta curiosidade, do que falar sobre, por exemplo, a crise do mercado de etanol. É preciso entender, portanto, os limites da ciência, se não quisermos nos tornar pessoas sem memória. Porque memória é feita, em boa medida, de ilusão, imaginação, sonhos e crenças.

Há coisas que nunca deveriam ser desvendadas. Tenho em minha estante um livro antigo, com páginas amareladas, que meu avô um dia me deu, antes de morrer. Trata-se de um livro que ensina (desvenda) truques de mágica, coisa de que sempre eu e meu avô gostamos. Quando olho para esse livro, lá na estante, vejo um paradoxo incrível: um livro que revela os truques de mágicas, como aquela em que uma mulher é cortada ao meio, deve ser lido por quem é apaixonado por mágica? Penso que se alguém gosta de mágica, gosta porque ela toca o senso lógico da pessoa, no sentido de balançar, iludir, causar vertigens, entreter e impor uma sensação de que a lógica do mundo pode ser driblada. Eu posso tirar um coelho da cartola, embora eu saiba que, na realidade, isso não acontece. Eu posso "adivinhar" qual carta do baralho você escolheu, apenas com o poder da mente, embora você saiba que por trás disso há um truque. Mas, apensar de sabermos que há truque, o que nos motivaria a querer revelá-lo? O próprio livro que meu avô me deu me remete aos momentos bons que passei com ele, que era um excelente mágico (ilusionista), embora amador. Portanto, não me interessa saber as técnicas por trás da magina empenhada por meu avô, mas sim saber que o livro em si é objeto de lembrança.

Voltando às redes sociais, o que temos, em muitos casos, é a revelação constante de fantasias. Até mesmo as imagens adquirem o poder de desvendar a intimidade, que se torna, instantaneamente após a publicação, algo não-íntimo. A sexualidade torna-se um processo, uma "atividade sexual", e não mais magia, encantamento. As postagens sobrem, as imagens causam leve perturbação e mera sensação de prazer.

* * *

Não se trata de dizer aqui que o ideal seria podermos continuar imaginando o que acontece na vida alheia, como se, a partir de parte dos fatos que sabemos sobre uma pessoa pudessemos escrever uma história de ficção sobre essa pessoa, como no filme francês Dentro da Casa, de François Ozon, em que um rapaz de 16 anos consegue entrar na casa de um colega da sua aula de literatura e resolve escrever sobre o fato no seu trabalho de francês. Mas invasão do aluno vai desencadear uma série de eventos incontroláveis, para mostrar que realidade e ficção se misturam o tempo todo.

No caso, falo não de especularmos sobre a vida alheia, mas sim de uma organização temporal das coisas. Não querendo ser conservador nesse sentido, mas falo da necessidade de preservarmos fatos do passado e aproveitarmos as situações que nos permitem revivê-los de forma natural, pela memória humana, não computacional (a nuvem, a cloud computing) . Passar na frente de uma amoreira, na rua, me faz lembrar com mais intensidade do que vive em torno daquela árvore que marcou minha infância, do que ser atualizado, sistematicamente, sobre a situação atual daquela mesma árvore. 

A distância que a vida impôs entre mim e aquele objeto do passado (a árvore) é o que fará com que haja desejo de sempre querer reviver ou lembrar aquele passado. E isso pode ser feito por meio da imaginação, da lembrança intensa. Se entre mim e o objeto se impõe uma imagem do objeto, mediando objetivamente essa relação que antes acontecia no plano sentimental e da memória, eu posso, num primeiro momento, conseguir resgatar o passado; mas, depois, o que terei é apenas repetição e esgotamento.

A árvore irá perder aquele "espírito" arrebatador que vinha em minhas memórias, passando a ser apenas imagem - que pode ser curtida, compartilhada e, por fim, esquecida. 

2 comentários:

  1. Bruno, vc é um ótimo escritor!
    Sempre leio aqui e resolvi comentar nesse texto pq se trata disso, expor tudo à todos. Eu fico feliz e triste na mesma intensidade com toda essa interrupção da minha imaginação, apesar de querer saber sempre de tudo e ficar irada quando algum detalhe fica em mistério. É a internet endossando nossa bipolaridade, rs. E me lembro do conto do Fernando Sabino, o homem está nu.

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  2. Boa lembrança desse conto, Carla. Obrigado!

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