terça-feira, 18 de junho de 2013

A próxima etapa do novo ativismo

As manifestações lideradas pelo Movimento Passe Livre (MPL) nas últimas semanas em São Paulo foram alvo de boas críticas por parte de integrantes de outros movimentos sociais. Ontem, durante mais um protesto, tive a oportunidade de reconhecer pessoalmente alguns equívocos cometidos tanto pelos manifestantes em geral quanto por parte dos críticos. Organizo abaixo dois deles, que considero os mais importantes:

1) O movimento não tem objetivos claros. Durante a passeata, fica evidente que a manifestação em si, enquanto corpo social, tem uma agenda clara reivindicação: protestar contra o aumento da tarifa do ônibus em São Paulo. No entanto, diferente de outros movimentos, este tomou grandes proporções ao ter sido formado na internet, em redes sociais, e ter incorporado, ao longo dos dias, outras bandeiras. No mesmo metro quadrado em que eu permaneci parado por alguns minutos, ontem, na Av. Faria Lima, pude ler cartazes contrários ao poder hegemônico da Rede Globo; à PEC 37; à Fifa e a Copa do Mundo; ao deputado deputado Marco Feliciano e por aí vai. Ouvi e vi gente xingando o Haddad, o Lula, a Dilma, o Fernando Henrique, o Geraldo Alckimin.

Penso que a nova geração de manifestações terá cada vez mais esse perfil múltiplo, heterogêneo, contraditório, típico de ambientes de rede com os quais seus ativistas estão acostumados. No Facebook e no Twitter, por exemplo, eu posso, em apenas 10 minutos, ir de um artigo sobre a PEC 37 até um vídeo contra os malefícios do uso de transgênicos; eu posso curtir, em menos de 2 minutos, umas 8 páginas que são contra alguma coisa: contra catracas, contra o Serra, contra a Veja, contra o iogurte desnatado, contra o Big Brother e, depois, terminar meu dia compartilhando um gif animado de algum meme qualquer. Essa dispersão está se tornando algo para além do campo virtual. Ela está, finalmente, se realizando. Se isso será bom ou ruim, ainda é cedo para saber. O fato é, daqui para frente, a mobilização de grande multidões terá como condicionante a abertura "democrática" para vozes diversas, muitas vezes numa união paradoxal, em que andam lado a lado situação e oposição. Estamos diante da transformação (e renovação) dos movimentos sociais, que passam a ser mais abertos a manifestações performáticas, dando importância para elementos da arte e da estética.

2) O movimento declara que, somente agora, o povo acordou. Era assim que cantavam ontem: "Ôoo, o povo acordou!". Isso indignou veteranos dos movimentos sociais, porque, segundo eles, muitos setores da sociedade já estão acordados há muito tempo, muito antes dessa onda do MPL. Argumentam que o MPL assumiu posição de notoriedade na sociedade ao conquistar grandes veículos de imprensa e, por isso, por levarem milhares de pessoas às ruas como há muito não se viam, acabam legitimando o "despertar do povo". No entanto, acaba-se esquecendo de outros movimentos tradicionais, que continuam lutando e sendo criminalizados, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Via Campesina. Assim, dizer que somente agora o povo acordou para a realidade dura dos problemas sociais é ignorar a luta de outros importantes movimentos.

Concordo com a crítica. De fato, as manifestações recentes não estabelecem e nem reverenciam lutas centenárias. Mas, e aí é meu ponto de vista, não deixam de ter sensibilidade para o social - elemento fundamental para qualquer movimento. Nos protestos que vem ocorrendo nas últimas semanas o que podemos ver é a participação de pessoas que talvez nunca participaram de um movimento social de fato, ou mesmo de manifestações dessa magnitude. Instaura-se, então, um grande sentimento de euforia em relação ao novo, chegando a ser o que podemos chamar de "aventura" para muitos. Não que isso seja ruim. Mas o que acontece é que se acaba criando, em muitas dessas pessoas novatas, uma sensação de participação com a qual não estavam acostumadas. Muitos veteranos vão dizer que essas pessoas estão "novamente descobrindo a roda". É como se fosse assim: seu pai nunca teve aptidão para usar o computador; um dia decide usar o computado e descobre que com ele é possível gravar CDs e DVDs e fica maravilhado. Algo que para uns é trivial, para outros é novidade.

No caso dos movimentos sociais, está na hora dos mais veteranos se prepararem para esta nova geração de ativistas. Eles vem cheios de energia para o novo, mas com pouca preparação para entender as bases de um movimento social: histórias de movimentos, estruturação de ideias etc. Nas escolas e na gigantesca maioria de cursos superiores há pouco debate sobre os movimentos sociais, o que são, o que representam. Há pouca base teórica e histórica sobre a formação dos principais movimentos existentes hoje no país. Caberá aos veteranos receberem a nova massa disposta à mudar, mas que demanda conhecimento sobre o ativismo político. Caso contrário, a cada nova manifestação será proclamado um novo despertar do povo, enquanto que o povo, de fato, que está à margem disso tudo sequer dorme - há anos.

3) A ocupação em si mesma. Fica aqui um registro pessoal (mais um). Embora haja pouca articulação entre os novos ativistas, em relação à propósitos particulares (e não em relação à motivação e mobilização, isso sim formando uma unidade poderosa), e embora exista essa pouca experiência em relação ao conhecimento adquirido por outros movimentos históricos ao longo das últimas décadas, é inegável o poder que a ocupação do espaço público tem sobre aqueles que o praticam. Ontem, até comentei: quem iria imaginar que poderíamos deitar no meio da Av. Paulista? Quem poderia imaginar que, em plena segunda-feira às 18h30, iriamos caminhar no meio da via da Faria Lima? Manifestações desse porte, ainda que tenham objetivos outros, conseguem promover uma das ideias mais fantásticas que a população de uma grande cidade pode adotar: a de que o espaço urbano pode ser usado para outros fins; uma avenida pode ser espaço de encontro para, quem sabe não hoje, mas amanhã, um grande encontro da população sem um propósito definido. grande legado que as manifestações podem deixar para a cidade é que perpetuem a ocupação do espaço público, não apenas para protestar, mas, sei lá, simplesmente para deitarmos no meio da Av. Paulista e olharmos para o céu. A ocupação por si mesmo, sem motivos, como o carnaval, a parada gay, a copa ou qualquer outra coisa.

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