quinta-feira, 6 de junho de 2013

Do bagaço à inovação: como o setor de cana está driblando a crise

Publico abaixo parte da reportagem que fiz para a edição de junho da revista Pesquisa Fapesp, sobre o crescimento dos investimentos em pesquisa em cana-de-açúcar para driblar a crise de produtividade que atinge o setor sucroenergético desde 2008. A reportagem completa pode ser lida neste link.

Do bagaço à inovação

Em meio à crise do setor, empresas investem em tecnologia para aumentar a produção de etanol
BRUNO DE PIERRO | Edição 208 - Junho de 2013

© SYNGENTA
Centro de pesquisas da Syngenta em Itápolis, interior de São Paulo, onde a empresa realiza a multiplicação de materiais genéticos
Centro de pesquisas da Syngenta em Itápolis, interior de São Paulo, onde a empresa realiza a multiplicação de materiais genéticos
No início de fevereiro, a ETH Bioenergia, fundada em 2007 pela Organização Odebrecht, mudou definitivamente seu nome para Odebrecht Agroindustrial e anunciou investimentos com a finalidade de moer 30% a mais do volume de cana-de-açúcar processado na safra 2012/2013 e produzir 2 bilhões de litros de etanol – o equivalente a 8,6% da atual produção anual do país, de 23 bilhões de litros. O investimento de R$ 1 bilhão será aplicado na expansão da área de cultivo e também em pesquisas de variedades de cana e novos processos de produção de etanol. E, para isso, a área de inovação da Odebrecht Agroindustrial, criada em 2010, teve de se articular com universidades e centros de pesquisa, como o Instituto Agronômico de Campinas (IAC).
“Construímos nossa estratégia de inovação bem no momento de crise da cana no país”, diz Carlos Calmanovici, diretor de Inovação e Tecnologia da Odebrecht Agroindustrial. O exemplo da Odebrecht é um dentre outros de grandes empresas, como Syngenta, Monsanto e Granbio, que nos últimos anos ampliaram seus investimentos em pesquisa utilizando melhoramento genético para a obtenção de novas variedades de cana ou tentando encontrar alternativas para a produção de etanol a partir do bagaço que sobra da planta.
A explicação para a fase nada doce de desaceleração enfrentada pelo setor sucroenergético desde 2008 é uma combinação de diversos fatores, que passam, por exemplo, pela crise internacional de crédito, problemas climáticos em três anos consecutivos, entre 2009 e 2011, e a falta de reajustes no preço da gasolina. No entanto há certa distância entre a crise da produção de cana-de-açúcar e a situação da pesquisa realizada no setor. A diferença, conta Calmanovici, é que a pesquisa é pensada a longo prazo, e um dos exemplos dessa visão estratégica é o acordo de cooperação que a empresa firmou em 2011 com a FAPESP, resultando em 11 projetos de parceria com universidades do estado de São Paulo, como a USP, a Estadual de Campinas (Unicamp) e a Federal de São Carlos (UFSCar), para as quais foram disponibilizados R$ 20 milhões, metade desembolsada pela Fundação e a outra metade pela empresa. Boa parte dos projetos teve início no ano passado e envolve desde pesquisas para o desenvolvimento de cana-de-açúcar transgênica resistente a insetos até a identificação e seleção de plantas com genótipos (constituição genética) para as condições agroecológicas do Pontal do Paranapanema, região onde a produtividade de cana ainda não é boa.
Há cinco anos a perda de fôlego do setor sucroalcooleiro no Brasil fez muitos analistas sustentarem a hipótese da “década perdida” da indústria em relação à produção de açúcar e etanol. Os investimentos que chegaram a US$ 6,4 bilhões em 2008 foram reduzidos para US$ 250 milhões em 2012, segundo Eduardo Leão, diretor-executivo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).  A previsão é que a atual retomada de investimentos no setor deverá esperar por mais cinco anos, tempo necessário para a renovação completa do canavial – uma situação muito diferente do momento de grande salto dado entre 2005 e 2010, após a entrada do carro flex no país em 2003. Naquela época, os Estados Unidos e a União Europeia começaram a estabelecer diretrizes para o uso de biocombustíveis, com metas de consumo para os próximos anos. As iniciativas contribuíram para a entrada de multinacionais no setor.

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