sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sou classe média e protesto; há mal nisso?

Circula, nesses dias de manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, uma crítica preguiçosa contra o movimento que realiza os protestos nas ruas. E essa crítica é gritada aos quatro cantos por desde o dono do bar da esquina até velhos figurões da grande mídia, como o comentarista do Jornal da Globo e ex-cineasta Arnaldo Jabor, para quem um aumento de "apenas" 20 centavos é insignificante.

A crítica é a seguinte: "a grande maioria dos manifestantes são filhos de classe média". Palmas para o sociólogo Jabor, que continua: "ali não havia pobres que precisassem daqueles vinténs". O raciocínio dessa crítica tenta desqualificar o protesto utilizando a lógica da exclusão, a mesma usada por aqueles que dizem que uma família de verdade não pode ser formada pela união homoafetiva. Trata-se de um pensamento equivocado, portanto.

Pessoalmente, não vejo problema algum uma manifestação dessas ter infiltrada representantes da classe média. Pelo contrário, fico até aliviado de saber que ao menos parte da classe média tem sensibilidade social para lutar por direitos de toda a comunidade, incluindo aí os pobres.

Por essa lógica "jaboriana", cada setor da sociedade só pode lutar por aquilo que pertence ao seu mundo particular. Só negros podem lutar contra o racismo; só homossexuais podem lutar contra a homofobia, só desempregados podem lutar por empregos. O que diria, então, Jabor ao saber que em manifestações contra homofobia há também heterossexuais? Pela lógica preguiçosa, a manifestação deles não é legítima, certo?

Ter parte da classe média despertada para problemas urbanos e sociais é sinal de maturidade, não de deploração. É sinal de avanço, não de erro. Na verdade, Jabor e seus iguais estão preocupados com os rumos dessa ruptura da classe média, em que parte, na maior jovens, amadurecem seu senso social e político diante de problemas coletivos. Afinal, todos sabem que ônibus não é utilizado apenas por miseráveis. E mesmo que o fosse, é bom saber que mesmo quem não precisa de ônibus sente-se incomodado com o aumento das tarifas. Jabor, isso não é paradoxo, não. Isso se chama sensibilidade para o social, coisa que você e muitos de seus colegas não entendem.

Além disso, investir em tal crítica perversa é investir no discurso da separação, da segregação e da desunião do povo. Afinal, ao se afirmar que um protesto não deve ser levado a sério, pois foi encabeçado pela classe média, e não pelos mais pobres, significa que todo e qualquer problema social é problema dos pobres, e eles que se explodam. Não é porque você é "integrante" da classe média, que nem sempre precisa utilizar o transporte público, que irá deixar de se posicionar criticamente diante dos abusos que a população em geral sofre.

Tal crítica, quando defendida, reforça o mesmo ato que a classe média citada por Jabor comete cada vez que dirige um carro: fechar os vidros quando alguém mais pobre se aproxima.

Ver que parte dessa classe média está deixando o vidro do carro aberto e dialogando, tentando entender os problemas da metrópole, é algo para se comemorar.

No extremo, eu não me incomodaria se um Thor Batista resolvesse ir para a Avenida Paulista protestar. Ele demonstraria que, embora não utilize ônibus ou metrô, pode ajudar na luta daqueles que precisam. Isto é ser solidário e, mais ainda, consciente politicamente. O contrário disso é que me preocupa.




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