segunda-feira, 22 de julho de 2013

Ciência para as pessoas

A ciência nunca foi conhecida por ceder espaço a manifestações radicais dentro de suas limitações. Se nos habituamos com imagens de manifestantes ocupando instituições políticas consagradas, como senados e câmaras de deputados, ou radicais invadindo congressos à força, o mesmo não se pode dizer quando falamos de outra instituição, a ciência. Na verdade, existem várias ciência, mas quando me refiro a uma ciência em particular, faço referência a um modelo de prática científica ocidental que predomina, e se impõe, nas mais diversas áreas do conhecimento.

Não é de hoje que falam de uma crise da ciência. Em 1969, o fisiologista neozelandês Maurice Wilkins, prêmio Nobel de medicina em 1962, declarou, na cerimônia de abertura do encontro anual da British Society for Social Responsibility in Science (BSSRS): "temos que encarar o fato de que existe uma crise na ciência hoje e dia". Mas do que consiste essa crise? Na mesma cerimônia, uma participante, não-cientista, levantou e reclamou: "pessoas comuns nunca entraram na Royal Society", uma das mais importantes e antigas sociedades científicas do mundo, fundada em 1666.

A crise de que falava Wilkins provavelmente não era a mesma crise de que falava a jovem moça da platéia. A crise que está no discurso de muitos cientistas é a crise referente a cortes de orçamento público para a pesquisa científica e tecnológica, ou em relação à falta de sensibilidade da mídia para ouvir e divulgar mais suas demandas e problemas. Já a crise que estava no discurso da moça era mais sutil: trata-se da pouca abertura da ciência (e das políticas científicas) para a sociedade em geral. Trata-se de pensar a ciência como algo que está dentro da sociedade e da cultura - e é evidente que, durante séculos, a ciência descolou-se, distanciou-se dessa realidade.

Cartoon feito para a edição 43 do Science for the People
Na década de 1970, uma revista foi criada para dar conta dessa discussão na Inglaterra. Ela se chamava Science for the People e era feita por um grupo de ativistas, com objetivo de mostrar que a ciência, e principalmente o financiamento dela, não são conduzidos por processos neutros. São, portanto, frutos de decisões políticas e subjetivas.

Naquela época, o contexto era o da Guerra Fria, e houve um compromisso forte e contínuo para o movimento pela paz. Esse movimento abarcava também os temas dos ativistas do Science for the People, como financiamento militar na pesquisa científica, ativismo anti-nuclear, guerra biológica e química etc. O grupo também juntou forças com o National Council for Civil Liberties, numa campanha contra as balas de borracha, incluindo uma exibição no Brixton Art Gallery, em 1985.

- O site da British Society for Social Responsibility in Science (BSSRS), com a história da revista SFTP pode ser acessado aqui.

- O blog Political Science, do jornal The Guardian, também fez um post contando a história do movimento, com muito mais detalhes e fatos (acesse aqui). 

Ao ter contato com essa questão, do ativismo que cobra, dentre outras coisas, mais transparência na ciência, penso se os movimentos sociais que comandam e conduzem as recentes manifestações e protestos não deveriam incluir a questão do financiamento público da ciência em pauta, para discussão. 

O sexismo na ciência, tema abordado pelo grupo ativista 
Durante muitos anos, a ciência tradicional valeu-se de seu poder de autoridade diante do senso comum para que seus procedimentos, métodos, discursos e ideologias nunca pudessem ser questionados. Naturalizou-se a ideia de que o fomento à ciência jamais deve ser colocado em discussão; e fez-se aceitar a ideia, entre o mundo político, de que o apoio à ciência é condição sine qua non, ou seja, a condição sem a qual não há desenvolvimento na sociedade e, portanto, deve ser fomentada naturalmente.
A abertura da população a temas políticos, a discussões sobre políticas públicas não deve tangenciar o mundo da ciência. O financiamento da ciência, o respeito aos conhecimentos tradicionais, o acesso abertos a dados científicos, os limites da ciência enquanto discurso da natureza são alguns dos temas que merecem a mesma atenção e o mesmo tratamento que têm recebido outros temas pertinentes, incluindo transporte, saúde pública, corrupção e uso do dinheiro público para grandes obras.

O que se faz em laboratórios fechados também nos diz respeito.

OBS.: as figuras que ilustram este post foram retiradas do site do The Guardian.

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