segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A interação Universidade-Empresa no Brasil

Em 1956, na introdução de As Ciências no Brasil, Fernando Azevedo remontou às origens da ciência nacional para reunir os principais fatores históricos que ajudam a explicar o atraso da fundação de universidades no Brasil, em contraste com o nascimento dessas instituições logo no começo da vida colonial em outros países americanos, como Peru e Equador. De acordo com Azevedo, “a carga pesada da tradição que se acumulou e se tornou mais opressiva nas colônias de origem espanhola em que se instituíram as universidades, - verdadeiros focos de reação - não se fez sentir tão fortemente em nosso país, como o revelam os desenvolvimentos das respectivas culturas”.

Na conclusão do texto, o sociólogo adota um tom de esperança: com o desenvolvimento da indústria, as descobertas da física, da química e das ciências experimentais, naquele momento, poderiam ganhar dar novo impulso ao pensamento científico no país, ampliando as pesquisas aplicadas e transformando velhas mentalidades que haviam sido enraizadas nas concepções de cultura econômica e social no decorrer da história. Lembrando que Azevedo escrevia numa época de ebulição da institucionalização da ciência brasileira, quando eram fundados o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, em 1951); a Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, atualmente Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, também em 1951); a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC, 1948) e, um pouco antes, em 1934, a Universidade de São Paulo (USP).

O salto da pesquisa científica de fato atingiu altitudes capazes de situar o país como referência em algumas áreas, especialmente biomédicas, saúde pública, ciências agrárias, geociências e engenharia aeronáutica. Exatamente setores que, ao longo do tempo, acumularam conhecimento científico e competência tecnológica, envolvendo governos, instituições de ensino e pesquisa e setor produtivo. No entanto, Fernando Azevedo, se vivesse nestes dias, chamaria atenção para uma sequela daqueles tempos de Brasil-colônia que ainda marca o cenário da ciência no país: a tímida interação entre instituições de pesquisa e empresas, que prejudica o avanço do processo de inovação da indústria nacional e também da pesquisa de ponta. Os problemas da baixa articulação entre universidades e empresas é amplamente discutido, quase 60 anos depois da publicação da primeira edição de As Ciências no Brasil, na obra Em busca da inovação: interação Universidade-Empresa no Brasil (FAPESP, Autêntica, 2011, 461pp), com organização de Wilson Suzigan, Eduardo da Motta e Albuquerque e Silvio Antonio Ferraz Cario.

O livro apresenta uma série de artigos que discutem as interações de universidades e institutos de pesquisa com empresas no país, colocando lentes de aumento sobre alguns estados específicos, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, e também sobre as regiões Norte e Nordeste. O objetivo é avaliar o padrão dessa interação universidade-empresa, estabelecendo instrumentos para medir a intensidade dos relacionamentos firmados e identificar as muitas disciplinas científicas que são valorizadas pelos setores da indústria - tentando mostrar que as universidades brasileiras não são apenas formadoras de recursos humanos, mas sim recursos técnicos fundamentais para o processo de inovação.

A leitura dos capítulos específicos sobre estados e regiões do país não deve começar, contudo, sem antes o leitor passar pela introdução de Suzigan e Albuquerque, que traça uma perspectiva histórica das relações entre universidades e empresas no Brasil. Sem esta parte inicial, o livro perderia a oportunidade de resgatar fatos do passado que, assim como Azevedo mostrou, são indispensáveis para a compreensão do porquê o país ainda está em busca da inovação. Tal busca, como sugerem os autores, encontra obstáculos que foram erguidos durante décadas e que são resultado da soma de dois fatores: 1) o caráter tardio da criação das instituições de pesquisa e universidades no país e 2) o caráter tardio da industrialização brasileira.

Isso, no entanto, não impossibilitou a formação de “pontos de interação” que se constituem em casos bem sucedidos. Segundo Suzigan e Albuquerque, “a existência e a limitação de tais casos alimentam uma hipótese complementar: o sucesso dos casos identificados nesses ‘pontos de interação’ baseia-se numa construção de longo prazo, com esforços sistemáticos que persistem ao longo do tempo”. E, por conta disso, os autores defendem que as raízes dos casos de sucesso também devem ser estudadas.

Para cumprir essa tarefa na fase introdutória do livro, os autores recorrem a pensadores que investigaram a fundo as origens da ciência brasileira. Dentre as referências estão o sociólogo Simon Schwartzman, os historiadores da ciência Nancy Stepan e Shozo Motoyama, o sociólogo Luiz Antônio Constant Cunha, autor de A Universidade Temporã, e o economista Celso Furtado, dentre outros. É importante destacar a escolha dessas referências, pelo fato de que Suzigan e Albuquerque pretendem conciliar duas abordagens para analisar o assunto em questão: identificar a complexidade do problema em questão sob a ótica da história e da sociologia da ciência e da tecnologia sem que, para isso, sejam omitidas as implicações econômicas envolvidas. É retomando Schwartzman, por exemplo, que se explica que até a segunda metade do século XVIII a ciência brasileira estava aquém da ciência desenvolvida na América espanhola, porque a a coroa portuguesa temia que novas instituições na colônia pudessem rivalizar com as da metrópole. E é por meio de Furtado que os autores vão mostrar que a polaridade “modernização-marginalização” (o peso da escravidão) e a inadequação da tecnologia contribuem para entender a persistência estrutural de toda a desigualdade no país.

Um ponto de destaque na abordagem de Suzigan e Albuquerque no artigo é a tese de que o atraso em que a interação universidade-empresa se encontra no Brasil não é consequência apenas da ausência de universidades nos primórdios da colonização, mas também da ausência de instituições monetárias, importantes para a fomentação e financiamento da produção tecnológica. “(...) antes da chegada de D. João VI, as instituições monetárias não existiam no Brasil e não havia nada que pudesse chamar-se papel moeda. Até então, ouro, prata e cobre constituíam as moedas que aqui circulavam”. A grande contribuição do primeiro capítulo do livro é exatamente condensar interpretações sobre as origens da pesquisa no país, deixando claro que os problemas que até hoje persistem e para os quais se direcionam tentativas de resolução, através de políticas de inovação e incentivos à indústria, são decorrentes de uma complexidade, um sistema que articula decisões equivocadas que foram tomadas no passado com falta de pensamento estratégico a longo prazo. Inclusive a escravidão é mencionada para explicar que, enquanto outros países deixavam de lado esse modelo, e iniciavam a transição da tração animal por tração a vapor, o Brasil insistia na escravidão e, portanto, não criava demandas para o progresso técnico.

Ainda no artigo de abertura, os autores identificam cinco “ondas” de formação das instituições de ensino e pesquisa no Brasil. A primeira, posterior 1808, apresentou-se como uma fase de criação das primeiras instituições de ensino superior, como a Academia Militar (1810); na segunda, entre 1870 e 1900, aparecem, entre outras instituições, a Escola de minas de Outro Preto (1875), o IAC (1887) a Escola Politécnica de São Paulo (1894), o Instituto de Manguinhos (1900); a terceira onda, entre 1920 e 1934), vê aparecer iniciativas para a criação de universidades, como a USP, em 1984; na quarta, no período pós-guerra, há um destaque para centros de pesquisa tecnológica e de física, como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), e em 1951 duas importantes instituições coordenadoras, o CNPq e a Capes; e, na quinta onda, durante o regime militar, é que se enfatiza a criação de centros de pesquisa nas empresas estatais, entre os quais o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), da Petrobras, e também nasce a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Fundo de Desenvolvimento Tecnológico (Funtec). Mas a despeito desse desenvolvimento o sistema financeiro e de mercado de capitais permaneceu subdesenvolvido até meados dos anos 1990, o que retardou ainda mais o já tardio processo de industrialização e de desenvolvimento científico e tecnológico.

Nesse sentido, o principal mérito de Em busca da Inovação é, após a reflexão sobre os elementos que constituíram os pilares da (atrasada) relação universidade-empresa no Brasil, avançar na exposição de casos que estão dando certo no país. E é essa investida dos autores - de mapear pontos de interação - que se configura como grande contribuição para a discussão a que se dedicam. Isso fica claro, por exemplo, no capítulo reservado para analisar a situação do Nordeste, no qual os autores Ana Cristina Fernandes, Bruno Campello de Souza e Alexandre Stamford Silva concluem que, embora a constituição da base de Ciência e Tecnologia e também a base econômica da região sejam tardias, é possível dizer que o padrão de relacionamento entre empresas e universidades e institutos de pesquisa guarda algumas semelhanças com o de outras regiões do país. “As Engenharias são as áreas mais interativas, os grupos de pesquisa se relacionam mais com empresas de seu próprio estado do que com empresas de fora deste e os tipos de relacionamento mais frequentes são semelhantes para o conjunto dos grupos da região e do país, destacando-se a pesquisa científica com considerações de uso imediato”.

Destaque também para o capítulo sobre a região Norte, de Silvio Antônio Ferraz Cario et al. Nele, os autores identificam uma relação universidade-empresa ainda restringida e com poucos grupos de pesquisa existentes. E as causas para o atraso mais acentuado são explicadas pela formação histórica das Instituições de Ensino Superior, com poucos anos de tradição (a maioria foi constituída a partir da década de 1990). A isso, acrescenta-se também a alta participação de IES privadas, que correspondem a cerca de 88% do total de IES presentes na região. Ainda assim, é no setor agrícola em que se encontra a maior interação da esfera acadêmica com a empresarial. 

Mas há pontencial de outras áreas: “percebeu-se, ao longo da pesquisa, a forte representatividade dos grupos de pesquisa relacionados às áreas de humanas, ciências agrárias e biológicas. A engenharia possui também um bom número de grupos de pesquisa (...) Deste modo, observa-se que a maior interação no setor agrícola apresenta baixa potencialidade em termos econômicos para a região”, isso porque existe uma baixa capacidade inovativa do setor industrial na região. No caso da Zona Franca de Manaus, mencionado no texto, os autores chamam a atenção para o fato de que lá ocorre apenas a montagem de equipamentos e não o desenvolvimento, “o que acaba por desestimular a interação, por esse fator e outros tantos desconhecidos”.

Em busca da Inovação, assim como As Ciências no Brasil - guardadas as devidas proporções em relação ao tempo e ao impacto - investem num tipo de análise que não fica restrita apenas à reflexão de causas e efeitos; são, mais do que isso, obras com potencial de transformação, como instrumentos que ao mesmo tempo permitem ao leitor técnico, principalmente aquele que trabalha com política científica e tecnológica, compreender um cenário e investir num pensamento próprio, voltado para a definição de políticas, metas, estratégias. No caso do segundo, Azevedo estabelece o jogo de voltar e avançar: volta ao passado, para entender as origens das grandes áreas científicas no país, para, em seguida, avançar num mapeamento da atualidade de tais setores e também apontando perspectivas futuras. è, portanto, um livro de história e, ao mesmo tempo, de compreensão da contemporaneidade. 

E a obra organizada por Suzigan, Albuquerque e Cario atua da mesma forma, mas tendo como objeto a interação universidade-empresa no Brasil. Há a constante preocupação de expor a complexidade do sistema, quebrando conceitos ou avaliações arraigadas, e, com isso, fazendo com que os capítulos seguintes do livro conversem o tempo todo com a matriz histórica apresentada no início. Ao final, o leitor poderá ter claro que há sim avanços no âmbito dessa interação universidade-empresa no país; mas a busca pela inovação, de que trata a obra, deve ser encarada como uma provocação: o sistema de inovação que se pretende consolidar não pode perder de vista o pensamento sistêmico e a retomada crítica do passado recente. Caso contrário, a busca será eterna.

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