segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Beijo e barbárie em tempos de "libertadores"

Sheik dá selinho em amigo (Foto: Instagram)
O episódio do beijo ("selinho") que o jogador de futebol Emerson Sheik deu em um amigo, e que está sendo terrivelmente repreendido pela própria torcida do Corinthians, lembrou-me de um artigo da professora Betty Bernardo Fuks, da PUC-RJ, sobre o pensamento freudiano e a intoletância, de 2007.

Em um momento, Fuks diz: "a ideia de reconhecimento do outro, no que força o pensamento a absorver o entendimento da alteridade, obriga a tomada de uma posição ética capaz de fazer frente à violência do racismo, da xenofobia e do sexismo e outras formas hodiernas da intolerância do mesmo".

Freud mesmo disse, citando Crawey, que cada indivíduo se separa dos demais por um "tabu de isolamento pessoal" e que justamente em suas pequenas diferenças se fundamentam os sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles. Até então, portanto, o torcedor corinthiano (sei que estou generalizando, não são todos que hostilizaram o jogador) não tinha diferenças em relação a Sheik, isto é, até então não havia nada que pudesse distanciar a torcida apaixonada de seu ídolo. Ambos - torcida e jogador - mantinham um elo, uma forte conexão sustentada pelo mesmo amor à camisa do time paulista. No momento em que Sheik publica a foto do "selinho", ele rompe com o grupo homofóbico que faz parte da torcida.

Esse episódio, trivial mas não menos grave nos dias de hoje, é um exemplo de intolerância em avalanche. Pode perder o rumo, terminar em violência. Theodor Adorno escreveu, em Educação após Auschwitz, que tendências de regressão — ou seja, pessoas com traços sádicos reprimidos — são produzidas por toda parte pela tendência social geral. Adorno ainda salientou:

"O esporte é ambíguo: por um lado, ele pode ter um efeito contrário à barbárie e ao sadismo, por intermédio do fairplay, do cavalheirismo e do respeito pelo mais fraco. Por outro, em algumas de suas modalidades e procedimentos, ele pode promover a agressão a brutalidade e o sadismo, principalmente no caso de espectadores, que pessoalmente não estão submetidos ao esforço e à disciplina do esporte; são aqueles que costumam gritar nos campos esportivos".

Quando, portanto, cito esses autores, faço referência a uma reflexão sobre a explosão da barbárie na civilização moderna, na qual incluo a ação homofóbica. As perseguições que o jogador já está sofrendo na internet, e mesmo em manifestações físicas, com torcedores levantando faixas em protesto - como se ele tivesse cometido um homicídio - aproximam facilmente Emerson Sheik de um goleiro Bruno. 

A mesma massa que idolatra Sheik - quando a relação entre massa e ídolo é estabelecida segundo algo comum, semelhanças, admiração - pode, de uma hora para outra, voltar-se contra ele, contra essa relação antes estável é abalada, quando há segregação e ruído entre ambos os lados. Isso só mostra o quanto ainda estamos longe de uma aceitação da homossexualidade - para ficar só neste exemplo de preconceito.

Talvez tudo recaia mesmo nas costas da educação. Como escreveu Adorno:

"Crianças que não suspeitam nada da crueldade e da dureza da vida acabam por ser particularmente expostas à barbárie depois que deixam de ser protegidas. Mas, sobretudo, não é possível mobilizar para o calor humano pais que são, eles próprios, produtos desta sociedade, cujas marcas ostentam. O apelo a dar mais calor humano às crianças é artificial e por isto acaba negando o próprio calor. Além disto o amor não pode ser exigido em relações profissionalmente intermediadas, como entre professor e aluno, médico e paciente, advogado e cliente. Ele é algo direto e contraditório com relações que em sua essência são intermediadas. O incentivo ao amor - provavelmente na forma mais imperativa, de um dever - constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que é impositivo, opressor, que atua contrariamente à capacidade de amar. Por isto o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pelas quais foi gerada".

Nenhum comentário:

Postar um comentário