quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Lições da Mídia Ninja para o jornalismo de ciência

A Mídia Narrativas Independentes Jornalismo e Ação, ou simplesmente Mídia Ninja, não é tão nova quanto muitos pensavam. Surgiu há 10 anos, mas foi em junho deste ano que seu modo de fazer jornalístico ganhou projeção nacional ao abastecer o público interessado, inclusive veículos da imprensa tradicional, com coberturas direto dos protestos que eclodiram no país. Seus idealizadores, entre eles o jornalista Bruno Torturra e o produtor cultural Pablo Capilé, nas diversas entrevistas que deram aos mais diversos jornais trataram de defender que, sim, a Mídia Ninja é jornalismo. Um outro jornalismo. A entrevista concedida no programa Roda Viva, da TV Cultura, na última semana, colocou de vez uma pedra sobre as dúvidas que pairavam em relação à consistência e à maturidade dos ninjas. E fixaram de vez as novas palavras de ordem para que o jornalismo sobreviva enquanto narrativa: trabalho em rede, colaboração, descentralização, desmonetarização.

Essas "tags" não são de hoje. Em 2001, o norte-americano Doc Searls cunhou a expressão "jornalismo pós-industrial", para designar um jornalismo sem rotativas. A partir daí, passou-se a falar da necessidade de re-construção do jornalismo, diante dos desafios impostos pelas novas mídias, como as redes sociais na internet. Em 2012, o Tow Center para Jornalismo Digital, da Universidade de Columbia, Estados Unidos, publicou um documento de 122 páginas intitulado Post-Industrial Journalism: Adapting to the Present, no qual C. W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky defendem a substituição do jornalismo atual por outra forma de jornalismo.

Os representantes do Mídia Ninja têm essa consciência. Torturra, na entrevista ao Roda Viva, disse que a mídia hoje é vista como um modelo de negócio, algo que deve gerar lucro da mesma forma que um indústria de automóveis, por exemplo, gera. "Nas últimas décadas, a informação foi cada vez mais sendo tratada como uma commodity. Ao migrar para a internet, os grandes jornais não entenderam que a rede deveria pressupor uma outra lógica econômica, que não pode ser igual à lógica analógica", argumentou Torturra. Segundo ele, com a lógica de rede, é possível se desenvolver uma nova lógica de sustentabilidade do jornalismo. E nessa nova lógica, o leitor tem papel central: ele deixa de permanecer em estado passivo, para tornar-se peça fundamental na produção e circulação de informações. Mais do que isso, diz Torturra, o leitor precisa entender que se ele valoriza o mercado de informação democrático, ele também precisa ser responsável por esse mercado. "Ele vai ter que financiar isso, se ele quiser a credibilidade". E aí surgem alternativas ao financiamento desse novo modelo: crowdfunding (financiamento coletivo), doações, assinaturas para receber notícias exclusivas, micro-doação para cada texto e também o bom uso dos editais públicos voltados para a produção cultural.

Quando pensamos em Mídia Ninja, o que vem à mente, em termos de objeto de cobertura? Certamente, protestos, movimentos sociais, movimentos culturais (com as Casas Fora do Eixo), democracia na comunicação, enfim, temas sociais. O modelo que a Mídia Ninja e outras iniciativas, nacionais e internacionais, é perfeitamente bem aceito e executável em situações em que o conflito entre poderes, entre povo e governo, entre injustiçados e detratores da democracia é latente, escandalosamente perceptível. Um protesto, que termina em conflito com a polícia, exige a atuação imediata e presente - e até com uma postura agressiva - de pessoas capazes de subverter a lógica dominante de cobertura jornalística especializada ou não.

Em situações desse tipo - de conflito social latente - a consolidação de uma rede formada por centenas de voluntários, dotados de equipamentos de alta tecnologia para a transmissão ao vivo dos acontecimentos, é exatamente o mecanismo pelo qual abre-se a possibilidade de uma cobertura mais pluralista, descentralizada. Em muitos casos (ou em todos) a decisão dos rumos da pauta é decidida na hora, in loco, por aquele que opera a câmera. Sem hierarquias, e conferindo confiança nessa rede, a cobertura de movimentos sociais foge do engessamento praticado pela mídia tradicional. Como bem destacou Torturra e Capilé, a rede evita que o trabalho jornalístico seja identificado a um grupo específico: nessa rede, há diversidade de visões de mundo, gente que vota na Marina Silva e gente que pertence ao Movimento Passe Livre, de esquerda. É o processo de não-compartimentalização de que fala Luis Nassif.

Mas se na cobertura política, de movimentos sociais e de políticas públicas o novo modelo, baseado em colaboração e redes, encontra campo fértil para uma revolução na comunicação, por que não transferir alguns elementos desse modelo para outros tipos de coberturas que, embora lidem com temas menos inflamáveis, precisam urgentemente adotarem uma postura mais crítica e aberta à colaboração?

Escolho o exemplo da cobertura jornalística da ciência, pelo fato de eu estar dentro dessa área do jornalismo. A consolidação de um novo jornalismo, digital e colaborativo, é tão importante para as pautas sociais quanto o é para as científicas. Ouso a dizer que a cobertura de ciência precisa até mais desse modelo do que a cobertura do social, porque esta última já encontra anteparos construídos pela própria sociedade organizada e já bem conhecidos, como os movimentos pela transparência pública e os diversos blogs que reproduzem e produzem conteúdo diversificado.

Na ciência, embora haja movimentos pontuais que brigam por uma ciência mais aberta, mais transparente, o jornalismo especializado em sua cobertura é exemplo do que há de mais rígido e estático. Estático no sentido de que é pouco aberto às redes. Basta pensarmos nos poucos casos de "Mídias Ninjas" da ciência que existem por aí. Aparte alguns blogs que cumprem o papel de fiscalizar casos de má-conduta científica, é extremamente difícil localizar uma iniciativa organizada que execute função semelhante ao que faz a Mídia Ninja, só que no campo da ciência.

E motivos não faltam para justificar porque a ciência também precisa ser abalada pelo novo modelo de jornalismo. Em outros campos, como a política, a experiência de portais e blogs colaborativos promove uma proliferação de ideias, pensamentos, comentários e críticas que conseguem contrabalancear a cobertura estática da mídia tradicional. Basta acompanhar o que aconteceu nas últimas eleições presidenciais e municipais no Brasil, para entender como a atuação de blogs e redes sociais protagonizaram um papel de peso, conseguindo competir contra a grande mídia. Ainda que a grande mídia, principalmente a televisão, tenha inserção maior na sociedade. Mas o fato é que muitas denúncias sem fundamento, ou mesmo boatos, conseguiram ser desconstruídos na internet graças a atuação atenta de blogueiros e jornalistas abertos à participação dos leitores em rede. No campo da política e dos movimentos sociais, a abertura à contribuição de leitores (colunistas amadores) e fontes que fogem daquelas figuras carimbadas pela grande mídia demonstrou ter forte potencial para funcionar como alternativa à cobertura realizada nos moldes tradicionais. E a expressão que agora destaco é: proliferação de conteúdo.

Na cobertura da ciência, o que temos? Podemos nos dirigir a ao menos um sítio na internet que opere em rede, fazendo-nos conhecer não só o que é feito de ciência nacional, mas que nos apresente uma multiplicidade de várias ciências? Assim como a Mídia Ninja e suas semelhantes nos mostram que a política está inserida na cultura; que as políticas públicas estão inseridas na cultura, não são dados abstratos externos à realidade e ao cotidiano das pessoas, é preciso que alguma mídia científica também mostre que a ciência está inserida da cultura. Assim como os veículos tradicionais da imprensa não estavam mais satisfazendo a crescente ânsia da população mais informações e novas análises da sociedade, estes mesmos veículos somados aos especializados em ciência não dão conta de conseguir mostrar a ciência inserida na cultura. E não se trata de apenas uma única ciência, assim como não se trata de uma única política. Existem modos de fazer política, modos de construir a democracia; e existem modos de fazer ciência, modos às vezes mais próximos ao saber popular e muitas vezes não validado pela ciência, "A" ciência racionalista que predomina no imaginário nosso e do jornalismo.

A Mídia Ninja mostra que existem outras formas de se fazer jornalismo e, indiretamente, ilumina alternativas de se fazer política. Uma política popular, feita nas ruas, aberta às inovações tecnológicas, ferramentas da computação que permitem disponibilizar dados na íntegra. A Mídia Ninja não só é ela própria um exemplo de novo jornalismo, como também é o meio pelo qual formas alternativas de ativismo (o midiativismo) e de política tornam-se finalmente visíveis a olho nu da sociedade em geral.

Jornalistas que cobrem ciência têm muito a aprender com essa dinâmica. Os jornalistas de ciência precisam estar abertos para entender que manifestações científicas que acontecem nos "rincões" do país, e também outras teorias menos conhecidas, acionadas por novos agentes de informação de fatos e expressões de ideias, têm tanta importância comunicacional quanto aquelas difundidas pelos veículos tradicionais.

De fato, temos um crescimento massivo de blogs de ciência. Muitos deles atingem status semelhantes a grandes portais de notícia. Muitos deles têm seus representantes, ou donos, participando de grandes eventos internacionais sobre jornalismo científico. No entanto, a pergunta é: tais blogs, ou novos veículos especializados em ciência, estão atuando como agentes promotores de discussões e proliferações de teorias e saberes populares, ou atuam como meros retransmissores ou decodificadores de mensagens desencadeadas pela ciência dominante?

O desafio do novo modelo de jornalismo que se busca é, na minha opinião, menos estético e mais teórico. Teórico no sentido de que, apesar da criação de novas plataformas e ferramentas tecnológicas que permitem a maior interação entre pessoas, a proliferação de ideias historicamente colocadas em segundo plano pela mídia e pela ciência ainda é fraca. Há pouca abertura para a colaboração de leitores em portais sobre ciência. Quando me refiro à colaboração, não me atenho àquela participação de fachada estabelecida quando o leitor comenta matérias já prontas, acabadas. Refiro-me, ao contrário disso, a uma colaboração plena, livre e constante, pela qual o leitor consegue exercer não a "sensação de colaboração", mas a colaboração de fato. E essa colaboração se dá por meio da publicação de artigos de opinião, análises, comentários e disponibilização de dados que são recebidos pelo jornalista como material privilegiado, sim, mas obrigatoriamente capaz de ser publicado com destaque. É, portanto, um conteúdo em si, e não um conteúdo anexo à uma reportagem.

A ideia de que a ciência é inquestionável, ou que só podemos discutir uma só ciência (a ciência única e verdadeira) também repercutiu na forma como o jornalismo de ciência opera. Embora haja, em alguns casos, a presença do contraditório nas reportagens de ciência, essa inserção do contraditório é planejada, restrita, milimetricamente pensada e editada. Num modelo real de colaboração em rede, cai por terra essa construção de narrativa, uma vez que a estruturação do conhecimento ocorre em escala maior e coletiva. Falamos, portanto, de um modelo livre de decisão única. Um tema científico, desse modo, pode receber inúmeras contribuições tanto de especialistas consagrados, quanto de especialistas não-consagrados e também de não-cientistas, mas entendedores do assunto. Essa rede, em trabalho direcionado, consegue promover a proliferação de conteúdo sobre o tema, trazendo à tona o conflito real existente também no mundo acadêmico.

Quando a Mídia Ninja fala em "multiparcialidades", significa exatamente a necessidade de se juntar uma massa formada por múltiplas visões de mundo, que se mobilizam em torno de um ativismo social.

Ao inserir essa questão, quero reforçar a ideia de que entendo a ciência como um campo do conhecimento que, assim como a política, a democracia e os movimentos sociais, precisa de agentes capazes de expor não apenas suas fragilidades, mas também alternativas que consigam promover a proliferação de ideias. No caso da ciência, promover a proliferação de ideias é, basicamente, buscar ideias, conceitos, teorias e conhecimentos que também são ciência, mas muitas vezes são escondidos, pouco valorizados ou sequer validados pela ciência. Porque a ciência-padrão, racionalista e ocidental, só legitima aquilo que, de acordo com seu método, é aceitável. Aquilo que não é aprovado pela ciência, é taxado de não-científico, ou ciência menor, e, assim, não merece ser financiado na e pela sociedade. A mídia tradicional embarca nessa lógica e também só reporta ao leitor o que é validado por esta ciência. Pela tangente, portanto, escapam outros métodos científicos, outras formas de pensamentos, outras narrativas possíveis dos fenômenos da natureza.

Está mais do que na hora do ativismo social esbarrar com a ciência.

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