quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A rigidez dos objetos e a fluidez das coisas

Neste momento, escrevo na lousa, usando um giz branco. Faço também algumas anotações em um bloco de notas, utilizando uma caneta, enquanto tomo uma xícara de café. Vamos imaginar que, por alguns instantes, cada um dos objetos desaparecesse por encanto, restando apenas o chão, o teto e as paredes da sala. O que posso fazer, neste espaço vazio de objetos? Posso apenas andar sobre o piso de madeira do chão. Se essa situação se alongasse por mais horas, concluiríamos que uma sala sem objetos é praticamente inabitável. Portanto, para que esta sala esteja pronta para nela ser executada qualquer atividade quotidiana, ela precisa ser mobiliada.

Vamos agora estender o espaço interior de um cômodo para o ambiente geral. Ou seja, imaginemos um ambiente aberto, constituído apenas da superfície da Terra, sem qualquer objeto. O que faríamos? Novamente, andaríamos, sentaríamos, correríamos e nada muito além disso. Ficaria fácil entender que, mesmo em uma ilha deserta, a necessidade de levar consigo qualquer objeto não tem como finalidade mera distração, mas necessidade de habitar o espaço. Nesse sentido, portanto, são os objetos que tornam o lugar habitável. Este recurso imaginário, e didático, é usado por um professor, diante de seus jovens alunos, para explicar as diferenças entre uma coisa e um objeto.

Agora, vamos sair da sala e dar uma volta em uma mata. Neste ambiente, há troncos de árvores, galhos, folhas. O professor questiona: este ambiente está repleto de objetos? Para começar a esboçar uma resposta, ele pede para que os alunos concentrem atenção em uma árvore qualquer. “Lá está ela, enraizada na terra, seu tronco se erguendo e seus galhos se abrindo, balançando ao vento, com ou sem brotos ou folhas, dependendo da estação”, diz. Ele, então, pergunta: a árvore é objeto, sim ou não? Em caso positivo, como a definiríamos? Onde termina a árvore e começa o que chamamos de mundo? “Questões difíceis, professor”, comenta um aluno. O professor rebate com mais uma dúvida: “A casca é parte da árvore?”. Ora, se pensarmos que podemos retirar um pedaço da casca e o observarmos de perto, veremos que ela é habitada por várias pequenas criaturas, que se meteram por debaixo da casca para fazerem suas casas na árvore. Essas criaturas são partes da árvore?

Alguém vai lembrar que na árvore também constam musgos, que crescem na superfície externa do tronco, e líquens, que se prendem nos galhos. “Sem falar dos insetos que pertencem à árvore tanto quanto a casca”, salienta um aluno. “E há também os pássaros, que nela fazem ninhos, ou até esquilos!”, enfatizou outro. O professor esboça um ar de satisfação ao perceber que instalou grandes dúvidas nas cabeças inquietas dos estudantes. Ele ainda explica que o caráter da árvore também depende de suas reações às correntes de vento, no modo como seus galhos balançam e suas folhas caem. Trata-se, portanto, de uma "árvore-no-ar", uma árvore que existe no ar.

“Isso me leva a concluir que ela não é um objeto”, diz o professor, que logo emenda: “ela é um agregado de fios vitais”. Os alunos olham entre si, alguns coçam a cabeça, outros observam através da janela as árvores do jardim. Elas também parecem espantadas com a revelação do professor. Sensível ao estado de incompreensão instaurado na sala, o professor continua sua explicação. “Calma, elas não são objetos, mas são coisas”. Sem querer citar muitos pensadores como referência, o professor deixa apenas escapar que, para o filósofo Heidegger, o objeto coloca-se diante de nós como um fato consumado, oferecendo para nossa inspeção suas superfícies externas e congeladas.

Já a coisa é sempre um “acontecer”, um lugar onde vários “aconteceres” se entrelaçam, como a árvore. Ou como um lugar onde pessoas se reúnem para resolver suas questões. “Se pensarmos cada participante como seguindo um modo de vida particular, tecendo um fio através do mundo, então talvez possamos definir a coisa”, explica o professor, antes de consultar as horas no relógio em seu pulso direito. Alguns alunos olham novamente para a janela. No jardim, as árvores chocalham, o céu está encoberto e o tempo esfria. Os pássaros debandam e começam a voar em círculos.

Um dos alunos - na verdade uma menina bem esperta - permanece vidrada na janela, enquanto os outros retornam as atenções para o professor. Ela percebe que a mudança brusca no tempo faz com que os galhos da árvore balancem com o vento. As folhas caindo formam pequenos montes no chão, que logo são varridos pelo funcionário da escola. Os pássaros que antes se abrigavam por entre os galhos agora voam, fazem movimentos desordenados. E os próprios ninhos das aves, aqueles emaranhados de gravetos e palha, titubeiam nos galhos. A árvore modificou-se em poucos minutos. Não é a mesma árvore de dez minutos atrás. Provavelmente, no mundo micro alguma coisa também está acontecendo em virtude da mudança do tempo. A menina faz conexões mentais. A coisa - de que continua falando o professor enquanto gesticula exageradamente na frente da turma – não é uma entidade fechada para o exterior.

“A árvore não está contra o mundo!”, pensou ela. Nesse instante, um trovão toma todos de surpresa. A garota vê nessa hora uma boa oportunidade para voltar a prestar atenção na fala do professor, que após interromper o discurso por conta do susto, continua: “As coisas, portanto, vazam, sempre transbordando das superfícies que se formam temporariamente em torno delas”. Os alunos riem quando percebem que uma goteira no teto da sala de aula faz vazar a chuva na cabeça do professor. “Como podem ver, as coisas coincidem”, diz ele.

Voltando ao exemplo do passeio na mata, o professor pergunta sobre o que mais poderia chamar a atenção. Ora, podemos tropeçar numa pedra no meio do caminho. “A pedra parece um bom caso”, concorda o professor. A pedra é um objeto? Bom, ela não tem casca, não tem como abrigar minúsculos animais. Ela também não é casa para esquilos ou pássaros, muito menos tem galhos para balançar de acordo com o vento. É, neste caso deve ser mesmo um objeto, sugerem os alunos. “Só se nós a extrairmos do processo de erosão e deposição que a levou até aquele lugar e lhe conferiu seu presente tamanho e forma”, rebate o professor, completando sua réplica com o provérbio que diz que “pedra que rola não junta musgo”. “E mesmo no processo de juntar musgo, em repouso, a pedra torna-se uma coisa. Já a pedra que rola torna-se uma coisa no ato mesmo de rolar”, explica ele.

A aula transforma-se num jogo de adivinhação. Essa cadeia é objeto ou coisa? A mesa do professor é objeto ou coisa? Nada disso, nada disso. Tudo é coisa! Olhem para o céu, as nuvens que trazem chuva, negras, carregadas, são coisas! Elas não estão em repouso e fechadas no céu. Prestes a terminar a aula, o professor explica que aquilo que se vê no céu é uma mistura, um encontro de vapores de água, que se incha à medida em que é carregada por correntes de ar.

“Observar as nuvens não é ver a mobília do céu, mas vislumbrar o céu em formação, nunca o mesmo entre um momento e outro. Portanto, digo que nuvens são coisas, não objetos”. A esta hora, o professor de antropologia Tim Ingold olha mais uma vez para o relógio e determina que a aula chegou ao fim. Mas logo se corrige: “na verdade, ela continua existindo e se transformando na mente de vocês”.

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Este texto foi baseado no artigo Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais, publicado em 2012 pelo antropólogo inglês Tim Ingold, que em breve será entrevistado pelo blogueiro. 
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