sábado, 14 de setembro de 2013

O fator Rússia na crise síria

O editorial do jornal chinês Global Times, do último dia 11, mostra que, segundo alguns analistas internacionais, a proposta russa para que Damasco entregue suas armas químicas é uma escapatória que Vladimir Putin oferece ao presidente americano Barack Obama.

O editorial fala em "escapatória", porque identifica uma virada russa em relação aos Estados Unidos, no papel de líder mundial responsável pelo controle da crise síria. Moscou sugeriu à Síria que entregue suas armas químicas, para que possam ser destruídas sob supervisão internacional e permitindo que o país ocidental una-se à Convenção pelo Banimento de Armas Químicas.
Imediatamente, a Síria respondeu de forma positiva à proposta russa, e o presidente Obama declarou que a resposta da Síria era "desenvolvimento potencialmente positivo". O editorial afirma que essa virada inesperada, depois que Washington mostrou seu plano para um ataque aéreo à Síria, trouxe um alívio.

Segundo o Global Times, esse protagonismo russo sugere que o poder de conclamação dos Estados Unidos aos aliados já não funciona tão bem como antes. O jornal elenca os seguintes argumentos para sustentar essa tese:

1) Mesmo que haja um ataque norte-americano à Síria, a Royal Air Force britânica já sinalizou que não deve comparecer ao lado dos Estados Unidos.
2) Praticamente todas as grandes potências europeias já aplaudiram a solução pacífica concebida pelos russos.
3) A hesitação de Obama mostra que os Estados Unidos está em declínio na comunidade internacional. Boa parte do Congresso americano não quer o ataque militar na Síria.
"A proposta do Kremlin, clara, decisiva, tática e executável, foi golpe duríssimo no calcanhar de Aquiles de Washington. A Rússia superou o que foi em crises passadas, como na Iugoslávia, e acertou um cruzado no olho do mundo beligerante", diz o jornal chinês. Se realmente não decidir pelo ataque militar, defende o editorial, os EUA talvez consigam começar a "raciocinar" com o mundo.

O correspondente internacional Steven Lee Myers afirma, em artigo publicado no New York Times, e traduzido na edição da última sexta-feira (13) da Folha de S.Paulo, que Putin conseguiu oferecer uma possível alternativa ao que criticou abertamente como militarismo norte-americano. Essa posição, portanto, reafirma os interesses da Rússia em uma região na qual o país esteve marginalizado desde o colapso da União Soviética.

"Ainda que as circunstâncias possam mudar de novo, Putin parece ter atingido diversos objetivos, quase todos às custas de Washington. Ele conseguiu criar um salva-vidas diplomático para o veterano aliado Bashar al-Assad, que não muito tempo atrás parecia em risco de perder o poder, e impediu que Obama contornasse o Conselho de Segurança das Nações Unidas --no qual a Rússia tem poder de veto-- para impor unilateralmente as prioridades americanas", diz Myers.
O fato é que mesmo com a possibilidade da Rússia entregar as armas, os EUA parecem querer arrumar encrenca de qualquer jeito. Em entrevista a um canal russo, Bashar al-Assad disse que começará a fornecer informações sobre seu arsenal químico um mês depois de assinar o tratado internacional que proíbe a produção e o armazenamento desse tipo de arma.
No entanto, o prazo de 30 dias não agradou os EUA. De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, o secretário de Estado americano, John Kerry, sinalizou na última quinta-feira (12), em Genebra, que os EUA não aceitam esperar 30 dias para Bashar al-Assad começar a abrir mão do material químico.

Na semana passada, Putin deu outro sinal de que detém as rédeas diplomáticas para resolver o impasse internacional. No New York Times, publicou um excelente artigo, com bons argumentos, explicando por que a saída militar defendida pelos EUA é uma fria. Recomendo a leitura completa do artigo de Putin, cuja tradução para o português foi publicada no Viomundo (clique aqui).

Mas destaco o trecho final do artigo:

"Eu estudei cuidadosamente seu discurso à nação na terça-feira. E discordaria de um argumento que ele apresentou sobre o excepcionalismo americano, afirmando que a política dos Estados Unidos é “o que torna os Estados Unidos diferentes, é o que nos torna excepcionais”.

É muito perigoso encorajar as pessoas a se verem como excepcionais, seja qual for a motivação.

Existem países grandes e pequenos, ricos e pobres, aqueles que têm uma longa tradição democrática e os que estão ainda encontrando o caminho da democracia.

Suas políticas também são diferentes. Nós somos todos diferentes, mas quando pedimos ao Senhor suas bênçãos, não devemos nos esquecer de que Deus nos criou todos iguais".

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--> O editorial do Global Times está traduzido, pelo pessoal da Vila Vudu, no site da Rede Castor (clique aqui).

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