sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O pluralismo científico na Web 2.0

No blog Discutindo Ecologia, Luiz Bento, doutor em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos autores do blog, fez um excelente post sobre a Web 2.0 e a ciência. Bento argumenta que a Web 2.0 está mudando a ciência, e a divulgação científica, para melhor.

"Talvez pela primeira vez iremos fazer uma divulgação científica verdadeira, onde não precisamos convencer o público que ciência é importante. O público atualmente pode participar ativamente tanto do financiamento de trabalhos científicos como da análise e produção de dados que servem como base para muitos artigos publicados recentemente", diz Bento, antes de prosseguir com sua argumentação (grifos meus).

Um dos principais pontos levantados por ele é em relação ao que chamo de "desapoderamento" do controle editorial sobre a produção científica. Ou seja, o controle de editoração dos periódicos, que está nas mãos de grandes editoras, como a Elsevier - cuja margem de lucro chega a 45% - começa a ser abalado pelo surgimento de iniciativas que promovem a ciência aberta. Portais como o ArXiv e o PloS, entre outros, de fato representam "novas maneiras de se pensar a publicação e distribuição de artigos científicos", nas palavras de Bento.

O post dele termina afirmando que a Web 2.0 pode trazer a ciência "não só para perto do grande público, mas fazer com que ele participe em tempo real e ativamente do processo científico" (grifos meus). E destaco ainda a seguinte conclusão de Bento:

"Acho que não existe uma melhor maneira de fazer divulgação científica do que colocar o público dentro dos nossos muros e não apenas dizer para eles como a ciência é importante através de cartas e vídeos enviadas da nossa torre de marfim" (adivinhe? grifos novamente meus).

É aí que entro, talvez divergindo um pouco de Bento em um ponto específico. Concordo com ele quando defende a tese de que a Web 2.0 está mudando a ciência e as formas de fazer divulgação para melhor. A publicação de artigos começa a não depender exclusivamente dos grandes periódicos, mesmo que as publicações consagradas sejam ainda legitimadoras do que se considera "boa" ciência. Mas por meio do open access elimina-se a mediação do capital nesse processo de democratização do acesso ao conhecimento, certamente.

No entanto, o que me preocupa neste debate, e inclusive é o tema do meu mestrado no Labjor-Unicamp, é se essa instrumentação tecnológica da Web 2.0 está proporcionando também um acesso à diversificação de ciências (isso mesmo, no plural). Ou seja, se o ciberespaço consegue favorecer não só o acesso à ortodoxia científica (leia-se o "paradigma" da ciência racionalista, ciência ocidental), mas também, e preferencialmente, à diversificação de métodos, teorias, visões de mundo e especialmente dos conflitos da ciência ortodoxa e suas controvérsias.

Minhas hipóteses preliminares sobre essa questão são baseadas em conceitos do filósofo da ciência austríaco Paul Feyerabend, para analisar o atual cenário da produção simbólica do jornalismo de ciência praticados em ambientes colaborativos na internet.Com base nas afirmações de Habermas, em Fé e Saber (2001), de que “a crença cientificista em uma ciência que possa um dia não apenas complementar, mas substituir a autocompreensão pessoal por uma autodescrição objetivante, não é ciência, é má filosofia”; e de Feyerabend, em Adeus à Razão (2010), de que “os não especialistas frequentemente sabem mais do que os especialistas e deveriam, portanto, ser consultados”, defendo a ideia de que, por meio do jornalismo colaborativo na ciência, poderia ser possível fomentar o pluralismo no debate científico, algo considerado essencial para o próprio desenvolvimento científico.

Nesse sentido, é preciso abordar, na minha opinião, a relação entre conhecimento científico e conhecimentos tradicionais, e também entre teorias conflitantes da física, por exemplo, para entender como o ambiente colaborativo pode ajudar a expor uma ciência mais democrática, pluralista e menos autoritária, por meio da via da comunicação. Diante de uma mídia tradicional especializada, setorializada e repartida por editorias, as comunidades de blogs de ciência emergem como possibilidade de subverter a produção simbólica do jornalismo ao dar a chance para que não só os atores do sistema de ciência e tecnologia, mas também o leitor comum noticiem a si mesmos e levantem questionamentos.

Quando Bento afirma que "é preciso convencer o público de que ciência é importante", de que ciência está falando? E quando diz que a participação do público em assuntos científicos ajudará a aumentar a participação deste público no financiamento de trabalhos científicos, novamente pergunto: financiar qual ciência?

Creio eu que Bento fala de uma única ciência, a Ciência Moderna.

Em "O acaso e a necessidade", o biólogo francês e vencedor do Prêmio Nobel de Medicina de 1965, Jacques Monod, lança alguns questionamentos que julgo serem pertinentes para essa discussão:

- Como foi que uma ética (da ciência moderna) que, rigoroasamente aplicada, teria eliminado as ciências incipientes conseguiu ser aceita com as idéias cuja eliminação ela própria exigia?

- Onde, no empreendimento científico de hoje, estão os agentes que escolhem livremente uma forma de conhecimento de preferência a outra? Quem livremente torna a ética do objetivismo a axiomática condição, a autenticidade para todos os discursos e todas as ações?


- E Feyerabend ainda emenda, no seu livro póstumo "A conquista da Abundância", de 1999: "quem teria pensado que uma mera decisão, um relatório de um comitê qualquer poderia destruir visões de mundo, criar ansiedade e, no entanto, prevalecer?

Falo aqui, portanto, de uma ciência, moderna, ocidental, que fez prevalecer suas visões de mundo sobre outras ciências, algumas cem vezes mais milenares - como os pensadores chineses que, segundo Feyerabend, favoreciam a diversificação. E mesmo Newton que, por razões tanto empíricas quanto religiosas, via nos eventos anômalos, fora do padrão, o dedo de Deus - e não algo que devesse ser descartado.

Portanto, quando defendemos o acesso aberto à ciência moderna praticada hoje, afirmando que ela é importante, temos que levar em consideração ser potencial monolítico de destruir idéias outras - idéias que estão fora dos padrões.

O movimento open access na ciência deve levar em conta essas questões, caso contrário estará limitado a ser um movimento que luta por uma falsa democracia: a democracia que permite o acesso de todos somente a uma única forma de conhecimento, a um único padrão metodológico de pensamento.

E finalizo com outra citação de Feyerabend, em A conquista da abundância (p.27):

"Culturas e populações inteiras foram erradicadas em uma tentativa de se criar um mundo uniforme, não por causa de alguma desvantagem de adaptação, ou porque constituíam um obstáculo aos planos de alguns conquistador, mas porque as suas crenças não concordavam com a verdade de uma religião ou filosofia específica".

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Um comentário:

  1. Salve, de Pierro,

    O problema é também o que entra no pluralismo científico. O negacionismo climático? O criacionismo? A tese do Todd Akin de que estupro não engravida? A memória d'água de Montagnier? A homeopatia ambiental? O lisenkoísmo? As "diatomáceas" alienígenas na estratosfera? Tudo isso?

    []s,

    Roberto Takata

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