segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A escrita e o medo, por Derrida

Toda vez que eu escrevo alguma coisa, e parece que estou avançando em um novo território, um lugar onde nunca estive, e este tipo de avanço muitas vezes demanda certos gestos, que podem ser entendidos como agressivos - no que diz respeito a outros pensadores ou colegas -, eu não sou alguém que é naturalmente polêmico, mas é verdade que gestos desconstrutivos parecem desestabilizar ou causar ansiedade ou mesmo machucar outros.
Então, toda vez que eu faço este tipo de gesto, há momentos de temor, receio. Isso não acontece nos momentos quando estou escrevendo. Na verdade, quando escrevo, há um sentimento de necessidade ou de algo que é mais forte do que eu mesmo, que exige que eu escreva da forma como escrevo. Eu nunca renunciei a nada do que escrevi, porque tenho medo de certas consequências. Nada me intimida quando eu escrevo. Eu digo aquilo que eu penso que deve ser dito.

Tudo isso para dizer que quando eu não escrevo, acontece um momento muito estranho quando vou dormir, quando tiro um cochilo e caio adormecido. Naquele momento, em uma espécie de "meio sono", de repente estou apavorado com o que estou fazendo. E digo a mim mesmo: "Você está louco para escrever isso!"; "Você está louco para atacar uma coisa dessas"; "Você está louco para criticar esta ou aquela pessoa"; "Você está louco para contestar tal autoridade, seja ela textual, institucional ou pessoal".

E há uma espécie de pânico em meu subconsciente, como se... Com o que posso comparar? Imagine uma criança que faz algo horrível. Freud fala de sonhos infantis, no qual um deles a criança está nua e aterrorizada, porque qualquer um pode ver que ela está nua. Em todo caso, neste "meio sono", nesta situação de quase sono, tenho a impressão de que fiz algo criminal, vergonhoso, inconfessável, que não deveria ter feito. E alguém está dizendo para mim: "Mas você estava louco para ter feito isso". E isso é algo em que realmente acredito durante o período de "meio sono".

E o comando implícito nisso é: "Pare tudo! Volte atrás! Queime seus papéis! O que você está fazendo é inadmissível".

Mas uma vez que eu acordo, acabou.

O que isso significa, ou como eu interpreto isto é que, quando eu estou acordado, consciente, trabalhando, de certo modo eu sou mais inconsciente do que quando estou no "meio sono", adormecendo.

Quando estou no "meio sono", há um tipo de vigilância que me diz a verdade. Em primeiro lugar, ela me diz que o que estou fazendo é muito sério. Mas quando estou acordado e trabalhando, esta vigilância está na verdade adormecida. Não é o mais forte dos dois.
E assim eu faço o que deve ser feito. 


Trecho de "Derrida", documentário sobre o filósofo francês Jacques Derrida, lançado em 2002.


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