quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A grande conquista dos blogs de ciência no Brasil

No dia 1º de outubro, terça-feira, o Roberto Takata, do Gene Repórter, publicou um post no qual questionava: "há uma crise nos blogues brazucas de ciências?". Vi que o post dele repercutiu bem entre blogueiros de ciência, depois que vi o Bernardo Esteves, da revista Piauí, indicando no Facebook outro blog repercutindo o post de Takata. O blog era o Brontossauros em meu jardim, de Carlos Hotta, que deu continuidade ao debate fazendo outra pergunta: cadê os blogs brasileiros sobre ciência. Dois posts querendo saber do paradeiro dos blogs de ciência brasileiros.

No Dragões de Garagem, de Luciano Queiroz, fui saber hoje que tudo começou depois que minha colega Mariana Fioravanti, do Polimerase de Mesa, fez uma excelente pergunta no Twitter sobre como obter motivação ou conseguir ter novas ideias para escrever em um blog sobre ciência. Este foi o estopim para uma discussão entre vários blogueiros de ciência sobre a possível queda da produção de textos e do surgimento de novos blogs.

Segundo Queiroz, que acompanhou o desenrolar do debate em outros blogs e redes sociais, duas perguntas sintetizam as questões levantadas até agora: 1) Por que não estamos blogando? e 2) Por que vocês não estão abrindo novos blogs?

Para a primeira pergunta, a principal resposta foi a falta de tempo. No Gene Repórter, Takata observou que dos blogs de ciência que acompanha desde 2009 - muitos dos quais vinculados ao Scienceblogs Brasil - todos (100%) tiveram queda substancial no ritmo de postagem. Ele ainda disse que a maioria dos blogueiros era pós-graduandos e à medida em que chegam perto do fim do doutorado ou do mestrado, ou entram na vida docente e de pesquisador contratado, o restrito tempo livre que sobra para blogar é usado para redigir a tese ou dissertação, relatórios, trâmites burocráticos, cuidar dos filhos etc.

Para a segunda pergunta, as respostas apontavam para novas plataformas de divulgação, como Facebook, Twitter e YouTube - ou seja, divulgar ciência diretamente no Facebook. Aliás, foi lá no Face que acompanhei boa parte do debate, em forma de comentários, e não nos blogs.

Abaixo, organizo algumas considerações minhas sobre tudo isso, que talvez possam acrescentar mais lenha na fogueira:

Falta de tempo

Concordo que a falta de tempo impede uma dedicação maior por parte do blogueiro, na maioria das vezes pesquisa, escreve teses, dissertações, relatório ou trabalha como jornalista. No entanto, não concordo que esta seja uma desculpa para a desaceleração das postagens nos blogs. Por exemplo, um pesquisador pode utilizar seu blog para desdobrar, em forma de post, alguma discussão ou tema que esteja desenvolvendo no pós-doutorado. OU, então, um jornalista que está extremamente atarefado pode aproveitar a pesquisa que está fazendo para uma pauta para fazer um post novo, levando em consideração, claro, algo que não entrará na sua reportagem.

O que quero dizer, portanto, é que o blog pode sobreviver não de restos, mas da criatividade do escritor de dar novas significações a elementos de seu próprio cotidiano. Não se trata de transformar o blog em um "repositório de sobras" do mestrado ou da pauta jornalística, mas, às vezes, um espaço que, ao invés de conflitar com o cotidiano do blogueiro, torna-se um complemento. Muitas vezes, aqui no meu blog, fiz posts repercutindo algum autor que estou lendo para o mestrado ou apenas comentando um assunto que estou desenvolvendo em outro projeto. Na minha opinião, é preciso que o blogueiro saiba estar atento não só ao que é "externo", mas principalmente ao seu "interior", ou seja, ao seu cotidiano.

A mídia tradicional como fonte

Por mais que nós, blogueiros, queiramos ser originais, muitas vezes somos motivados a fazer um post com base em uma notícia que já foi dada pela grande mídia, ou por veículos tradicionais especializados. Há aí duas possibilidades: ou você simplesmente indica a leitura dessa notícia aos seus leitores, ou você pega essa notícia e, a partir dela, faz desdobramentos, comentários e críticas. O desafio, no entanto, é fazer com que cada vez mais os blogs dependam menos da produção jornalística tradicional. Quanto mais um blog depende disso para prosseguir, mais refém se torna dos altos e baixos da grande mídia.

Assim, em um cenário de crise do jornalismo, e a consequente redução da produção nas editorias de ciência em grandes jornais, muitos blogs de ciência se encontro numa situação de baixa produção também. Uma forma de não depender tanto assim do que vem dos "grandes" é buscar uma autonomia em relação às fontes primárias, ou seja, produzir posts a partir de fontes primárias de pesquisa, como artigos científicos, documentos originais, pesquisas de campo, entrevistas etc. Ou mesmo pesquisando em arquivos de bibliotecas e jornais - é possível encontrar boas histórias e ainda por cima trazer algo novo.

O ScienceBlogs enquanto clausura

O Carlos Hotta tem uma teoria muito interessante. Vamos ver: "será que a existência de um condomínio de blogs de ciência como o ScienceBlogs Brasil pode ter inibido a proliferação de blogs de ciência ao invés de fomentá-la, como eu cri que ia acontecer?". Para saber isso, teriamos que fazer uma pesquisa de fato. Mas é possível refletir sobre essa questão, ainda que faltem dados. Quando pensamos em blogs, imediatamente nos vem a idéia de interação, conectividade, colaboração e proliferação de idéias - principalmente quando a produção de posts tem o respaldo da divulgação em redes sociais. Em Rewire, o ativista e professor do MIT Ethan Zuckerman mostra como a habilidade tecnológica utilizada na comunicação não necessariamente nos conduz ao aumento das interações humanas. Ainda estou lendo o livro, que certamente tem uma grande relevância para este debate.

No nível mais básico, a tendência humana de "voar junto" (andar em bando) significa que a maioria das nossas interações, online ou offline, se dá com um pequeno grupo de pessoas com os quais temos muito em comum. Examinando essa tendência fundamental, Zuckerman considera que o papel da tecnologia está mais próximo de nos desconectar do resto do mundo. Ou seja, podemos identificar um movimento de "insularização" de grupos específicos que se voltam para si mesmos e seus próprios interesses. Basta ver toda essa discussão: está restrita a nós, uns poucos blogueiros de ciência, que somos conhecidos uns dos outros, temos um ao outro como amigo do Facebook, conhecemos nossos blogs.

Talvez a tese de Hotta esteja certa. Pode ser que o ScienceBlogs, nessa nobre tentativa de organizar um grupo de blogueiros em torno de temas científicos, crie fronteiras difíceis de serem ultrapassadas. Evidentemente, não significa que os blogs lá hospedados não podem ser descobertos por novas pessoas, novos leitores que não os conheciam. Mas pelo fato de você ter um grupo limitado de blogs, acolhidos por um guarda-chuva chamado ScienceBlogs - uma marca que os certifica - essa tendência de formar um nicho pode ser verdadeira. Assim, a produção dos ScienceBlogs fica restrita aos grupo interessados especificamente em blogs de ciência - não falo nem em público interessado em divulgação científica, que é maior.

Organização de ideias

Outro ponto abordado foi a dicotomia Facebook (representando as redes sociais) e blogs. Ora, está claro que os blogs permitem uma estruturação e organização das ideias impossível de se obter no Facebook ou no Twitter. No entanto, fico incomodado com essa dicotomia que muitos fazer, como se Facebook e blogs devessem ser vistos dessa maneira separada. Creio que seja até ultrapassado pensar dessa forma. Há, na verdade, uma combinação entre blogs e outras ferramentas, com a qual não podemos lidar de modo simplista. Por exemplo, eu posso fazer uma matéria para a revista Pesquisa FAPESP, e esta matéria será divulgada no formato impresso, mas também no Twitter, no Facebook e no site da revista. Paralelo a isso, eu faço um post no meu blog comentando a matéria que fiz e trazendo novos elementos que ficaram de fora da reportagem oficial.

Meu blog, menos conhecido do que a revista, estabelece uma conexão direta com a publicação da FAPESP, e ambos os atores (blog e revista) atuam em ambientes online e um deles, a revista, em offline, quando impressa. Um leitor da revista que também seja leitor do meu blog pode, naquele mês, não ter lido a matéria, mas ao ver uma chamada do meu blog no Facebook, irá ter contato com o conteúdo da revista de forma indireta. O que tem que ficar claro, portanto, é que estamos lidando com uma complexidade que não pode ser resumida nesse jogo: o que é melhor, blog ou Facebook? As conexões se dão em forma de linhas contínuas, e não pontos.

Entusiastas da ciência

Para terminar, entro numa questão que não foi tratada durante esse debate que está rolando. Numa primeira vista, o que vou dizer aqui pode parecer que não tem nada a ver com a discussão sobre blogs. Mas se trata de uma sugestão, uma reflexão que julgo ser crucial para entender qual o papel que os blogs de ciência poderiam assumir, pensando aí num movimento de re-invenção dos blogs. Percebo que muitos blogs de ciência não exercem papel diferente daquele já exercido pelos veículos tradicionais da mídia. O espírito dos blogs de ciência - salvo exceções - é ainda ufanista em relação à produção científica. Ocupa-se de dar as últimas descobertas, comentar as narrativas produzidas de dentro da ciência - o que é necessário. No entanto, essa ação não deve ser a única.

Em muitos casos, vejo que a divulgação científica atua como cúmplice do discurso autoritário da ciência ortodoxa, e não como ator capaz de expor as fragilidades da ciência, os conflitos entre teorias e pontos de vista, as contribuições ou autonomias dos conhecimentos tradicionais. Este enfoque mais abrangente, mais próximo do que Feyerabend chamou de proliferação de teorias e conceitos, é extremamente necessário para o próprio desenvolvimento científico.

Talvez a busca por uma explicação do porquê autores de blogs de ciência vem publicando menos no Brasil deva levar em conta uma discussão sobre o próprio papel dos blogueiros.

A perda de entusiasmo em publicar mais pode ter raízes numa surpreendente tomada de consciência: a de que podemos estar utilizando novas tecnologias para dar voz aos que já são amplamente ouvidos. Novas possibilidades de narrativas, mais próximas da arte e menos tecnocratas, surgem num horizonte próximo.

Por fim, os questionamentos que os blogs de ciência fazem de si mesmos, no Brasil, é louvável. Pode ser o primeiro passo para melhorarmos e já contabilizo isso como sendo a primeira grande conquista dos blogs de ciência no país. 

Um comentário:

  1. CARROS NOVOS | CARROS NOVOS MODELOS
    http://www.autoshoppingbr.com.br/carros-novos
    Carros novos? Modelos de carros novos? Preços de carros novos? Carros novos Chevrolet? Carros novos Fiat? Carros novos Volkswagen? Carros Toyota?

    ResponderExcluir