sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O pluralismo na ciência é um "vale-tudo"?

O Roberto Takata, do blog Gene Repórter, deixou um comentário em meu post O pluralismo científico na Web 2.0 que, confesso, me encheu de alegria. Ele tocou numa questão que costuma incomodar os leitores da obra do filósofo austríaco Paul Feyerabend, que tem sido minha "leitura-guia" nos últimos tempos.

O ponto com o qual tanto leitores de Feyerabend quanto o Roberto Takata estão lidando é o seguinte: a defesa do pluralismo na ciência é necessariamente uma defesa do "vale tudo" na ciência? Vamos ver o que me disse Takata:

Salve, de Pierro, O problema é também o que entra no pluralismo científico. O negacionismo climático? O criacionismo? A tese do Todd Akin de que estupro não engravida? A memória d'água de Montagnier? A homeopatia ambiental? O lisenkoísmo? As "diatomáceas" alienígenas na estratosfera? Tudo isso?

Todas essas questões são extremamentes relevantes e pelas quais evitei passar em meu post, justamente por saber que merecem um post só para elas. Evidentemente, se entendermos pluralismo como uma aceitação livre e espontânea de concepções e pré-concepções, um "vale-tudo" na ciência, certamente cairíamos na armadilha do relativismo. Em Contra o Método, Feyerabend aparentemente dá margem a equivocadas interpretações a partir do momento em que fala de "anything goes", o vale-tudo. 

Eu poderia dizer, por exemplo, que o resultado de minha reflexão, ou pesquisa, é tão importante quanto o de um colega, porque eu estou usando um método diferente do dele - se considerarmos que o pluralismo aqui se refere a um pluralismo de métodos. Por isso, Feyerabend advoga contra um método único na ciência.

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No entanto, não se trata de um "vale-tudo". Na verdade, Feyerabend fala de algo mais amplo, de uma tomada de consciência de que pode haver realidades diferentes. Falamos, portanto, no sentido de uma oposição ao racionalismo científico, que diminui as diferenças e absolutiza uma versão, uma realidade como sendo a única possível. É verdade que Feyerabend desenvolveu um anarquismo epistemológico, mas isso não significa que ele concordava com a afirmação de que tudo deve ser aceito como relevante na ciência. Se pensarmos assim, corremos o risco de aceitar aberrações, ou mesmo ideologias trajadas de ciência.

Assim, o pluralismo científico consiste mais numa conscientização de que a abundância da vida não pode ser simplificada pela ciência e, por isso, a divulgação científica não deve comprar a idéia de que a ciência ortodoxa, racionalista, nos fornece a leitura mais correta da vida. Portanto, o anarquismo de Feyerabend é, antes de mais nada, uma oposição ao pensamento único. Quando Takata dá a entender que seria um absurdo colocarmos nessa esteira do pluralismo o criacionismo e o lisenkoísmo, considero que ele não está sendo justo ao emparelhar as duas coisas numa mesma argumentação.

O lisenkoísmo foi uma política soviética do estudo da genética, que classificava as ciências como burguesas, de um lado, e socialistas de outro. Entendo que o lisenkoísmo faz parte daquelas ideologias que fizeram uso do discurso do biopoder para se passarem por ciências. Na verdade, não tinha fundo científico. Paul Rabinow, em Antropologia da Razão, mostra como a ideia de eugenia se apropriou do biopoder para buscar uma legitimação.

Já o criacionismo não pretende ser ciência. É uma crença religiosa em si e que não precisa passar-se por ciência - ainda que seus seguidores precisem se adequar ao discurso científico para dialogarem com os céticos; mas nesse caso, falamos de uma religião racional. Portanto, entendo que o pluralismo científico pode, sim, distinguir entre as duas coisas, ao entender que ambas não são ciência. Mas ao afirmar que ambas não são ciência, não deve diminuir o criacionismo no nível de uma aberração ideológica, como o faríamos com o lisenkoísmo.

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Compreender que o criacionismo é uma realidade, enquanto visão de mundo (portanto, uma visão realista. em oposição a visões fenomenistas), é ter consciência de que a mesma realidade sobre a qual evolucionistas e criacionistas se debruçam (a origem da vida, basicamente), pode ser vista de diversos ângulos.

O que quero dizer é que nossa cultura ocidental, racionalista e científica (ou mesmo o Secularismo) nos leva a crer que a riqueza da vida pode ser operacionalizada de tal forma que seja possível ver o mundo dividido, compartimentado, regido por dicotomias, tais como o certo e o errado. Natureza e cultura; realidade e ficção são outros exemplos dessas dicotomias. Ou, ainda, o memento em que o homem se torna "autônomo" e separado da Natureza. O que fazemos, portanto, em nossa sociedade, é aceitar que a visão científica seja soberana.

Takata poderia colocar nessa lista outros exemplos, como a medicina chinesa, a teoria do universo infinito (que entra em conflito com a do Big Bang) e por aí em diante. "Qual o método certo? Qual a teoria certa?" são, ao meu ver, questionamentos menos importantes do que "Quais mecanismos, epistemológicos e discursivos, nos levam a aceitar um método como o verdadeiro?".

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Um exemplo do que aconteceu comigo há algumas semanas. Na coletiva de imprensa de um evento sobre o clima, em São Paulo (o Conclima), perguntei à mesa formada por pesquisadores considerados autoridades no assunto, como o Paulo Artaxo, que é representante brasileiro no IPCC, quais estratégias o IPCC e o grupo de pesquisadores brasileiros estão adotando para levar em conta conhecimentos tradicionais, conhecimentos locais nas avaliações climáticas. Ressaltei que o IPBES, a plataforma intergovernamental para a biodiversidade, criada em 2012, está levando em consideração o diálogo com comunidades tradicionais e indígenas.

A mesa não soube me responder. A única resposta foi: o que não tem fundamentos científicos não pode ser levado em conta. É disso de que estou falando, afinal: o pensamento científico como forma de redução da abundância da vida. O que sabemos do clima e da biodiversidade, para ser validado deve passar pela aprovação científica.

Mas muitas coisas nos são impostas sem que percebamos que as aceitamos espontaneamente, não é mesmo?

No livro Fé e Saber, Jürgen Habermas afirma que:

Tão logo uma questão existencialmente relevante vá para a agenda política, os cidadãos - tanto crentes como não crentes - entram em colisão com suas convicções impregnadas de visões de mundo e, à medida que trabalham as agudas dissonâncias desse conflito público de opiniões, têm a experiência do fato chocante do pluralismo das visões de mundo.

Assim, diz Habermas, quando as pessoas aprendem a lidar pacificamente com esse fato na consciência de sua própria falibilidade, sem rasgar o laço de uma comunidade política, elas reconhecem o que significam, em uma sociedade pós-secular, as condições seculares da tomada de decisões, estabelecidas pela Constituição.

Mais adiante, Habermas diz que os limites entre os argumentos científicos e religiosos são inevitavelmente fluidos. Segundo ele, o estabelecimento de uma fronteira controversa deve ser compreendido como uma tarefa cooperativa em que se exija dos dois lados aceitar também a perspectiva do outro. Ou seja, trata-se de dar ouvidos à objeção dos oponentes - e verificar o que podem aprender com isso.

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Sei que começo a entrar em questões que exigem mais tempo e espaço para serem melhor desenvolvidas. Farei isso aos poucos aqui no blog, como forma de explicar com mais profundidade as ideias de Feyerabend e de outros autores que vem pensando a ciência dentro da cultura e que também estabelecem críticas às explicações baseadas em dicotomias - que mais diminuem do que expandem nossa percepção da abundância do mundo.

Apostar na saída do "vale-tudo" está errada. Mas cabe a nós perceber que o valor das coisas não pode ser medido com base em uma única métrica.

Um comentário:

  1. Salve, De Pierro,

    Discordo de que o criacionismo não pretenda ser ciência. Tanto é que se disfarça sob várias encarnações: desde o "criacionismo científico" (e sua irmã "ciência bíblica") até a versão atual do "design inteligente".

    []s,

    Roberto Takata

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