quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Esse tal de pluralismo metodológico

“ Ao longo da tradição científica moderna, o pluralismo metodológico raramente foi considerado com seriedade” - escreve o filósofo da ciência Hugh Lacey, professor emérito do Swarthmore College, Estados Unidos, em artigo publicado no ano passado na revista Scientiae Studia, editada pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Lacey argumenta que para muitos a metodologia científica tem-se limitado à utilização do que ele chama de estratégias da abordagem descontextualizada (estratégias AD). Assim como Paul Feyerabend e outros teóricos, ele acredita que a conduta científica deve cultivar ativamente a utilização de uma pluralidade de estratégias. Lacey faz uma diferenciação entre estratégias AD e estratégias não AD: “embora as estratégias AD sejam suficientes para a pesquisa que gera inovações tecnocientíficas e que explica a sua eficácia, as pesquisas sobre, por exemplo, riscos e alternativas, que são relevantes para legitimar a implementação de inovações, requerem o uso de estratégias não AD, as quais levam em conta o contexto ecológico e social do fenômeno”.

Assim, as pesquisas conduzidas sob o critério das estratégias AD são entendidas apenas como uma abordagem da ciência - uma abordagem que embora seja importante e indispensável, tem resultados que podem ser utilizados livremente sob quaisquer estratégias potencialmente fecundas (mas isso não é o bastante para investigar todos os fenômenos que importam no mundo da experiência vivida). Para Lacey,valores éticos, sociais e culturais influenciam os objetos e fenômenos que são prioritários para a investigação científica, e também as estratégias que precisam ser adotadas no projeto de pesquisa.


Paul Feyerabend
Hugh Lacey

































Nesse sentido, os valores culturais - diferentemente dos valores ocidentais atualmente hegemônicos - podem ter impacto construtivo sobre quais estratégias são adotadas na pesquisa. Para Lacey, portanto, o conhecimento tradicional e indígena pode não estar em oposição ao conhecimento científico, mas sim aberto à interpretação como resultado das práticas de aquisição de conhecimento que colocam em prática as estratégias AD.

Pluralismo metodológico

Segundo Lacey, o pluralismo metodológico permite que diferentes estratégias possam tanto competir quanto complementar umas às outras. Ele toca numa questão um tanto controversa: argumenta a favor da possibilidade do conhecimento tradicional ter status científico legítimo. Alguns pode afirmar que um conhecimento tradicional, ao ambicionar o status científico e conquistá-lo, deixa de ser um conhecimento tradicional - o que vai contra a prórpia definição de conhecimento tradicional. Por outro lado, outros pode argumentar que a palavra “científico”, ou “ciência”, são empregadas num sentido macro, o que nos permite falar em “ciências”, no plural, para enfatizar que mesmo as tradições fazem ciência - diferente da Ciência, em maiúsculo, que vem a ser a ciência oficial, hegemônica, ocidental, dominante, ortodoxa etc., etc.

Em relação à questão da complementaridade das estratégias (ou dos conhecimentos tradicionais e científico), Lacey primeiro tenta explicar melhor o que entende por estratégias AD: “Sob as estratégias AD, as teorias são restringidas para representar o fenômeno como sendo gerado por estrutura, processo, interação e lei subjacentes, dissociados de seus contextos humanos, sociais e ecológicos”. Portanto, diz ele, a pesquisa conduzida sobre estratégias AD produz teorias que encapsulam as possibilidades descontextualizadas das coisas.

Já as estratégias “aristotélicas” envolvem fenômenos relacionados aos respectivos lugares no cosmo. Pode vir dos fenômenos observados no mundo da experiência vivida, pode empregar categorias sensoriais. Outro tipo de estratégia, as estratégias agroecológicas, por sua vez, não se dissociam do contexto e da dimensão social, humana e ecológica das coisas. “Seu foco recai sobre os agroecossistemas produtivos e sustentáveis, seus constituintes (sementes, plantas etc.) e as ‘interações complexas entre pessoas, tipos de cultivo, solo e criação de animais, cujas possibilidades não estão reduzidas às estratégias AD”. Lacey então explica como as estratégias AD são empregadas pela ciência moderna:


Os compromissos de valor e os compromissos metafísicos influenciam o que é considerado de interesse, e aqueles que adotam uma estratégia para moldar suas pesquisas podem fazer assim, em parte, por causa de tais compromissos, embora estes não proporcionem boas razões para que esse tipo de estratégia seja adotado em todas as pesquisas científicas. Isso tem implicações no modo de entender e estimar o uso quase exclusivo das estratégias AD na ciência moderna. As pesquisas conduzidas no interior da estratégia AD vêm sendo extraordinariamente fecundas, e é razoável esperar que continue sendo assim, o que é hoje amplamente valorizado em grande parte porque tem instruído a geração de inovações tecnológicas originais.


Assim, adotando, por exemplo, as estratégias AD em biotecnologia é possível identificar as possibilidades de maximização da produção de colheitas sob certas condições (uso de fertilizantes, manejo de pestes, água etc.) que pode ser replicadas. Já na perspectiva da estratégia agroecológica, “são identificadas as possibilidades de produzir colheitas de um modo que as pessoas das regiões de produção tenham acesso a uma dieta bem balanceada, em um contexto que intensifica a atividade coletiva local e o bem-estar, e que sustenta o meio ambiente”, explica o autor. Isso nos leva a pensar o seguinte: “as possibilidades encapsuladas pelas teorias desenvolvidas sob diferentes estratégias sobrepõem-se por sugerirem que um entendimento completo dos fenômenos do mundo da experiência vivida não pode ser obtido se for submetido a apenas um dos tipos de estratégias”. Portanto, temos aqui a base para sustentar a complementaridade das estratégias. Ou, a partir disso, chegaríamos perto da compreensão da “abundância da vida” de que fala Feyerabend.

Competição

Se por um lado as estratégias pode (e devem) complementar-se, por outro elas competem entre si. Lacey, assim, vai dizer que o que Kuhn chama de "incomensurabilidade" deriva da “incompatibilidade prática entre estratégias concorrentes”. Para Kuhn, cada “paradigma” define seu mundo diferente, sua “forma de vida”. Mas Lacey chama atenção para o fato de que os “mundo” diferentes estão, na verdade, localizados no “mundo” sócio-histórico compartilhado, o mundo da experiência vivida. “Mas uma estratégia não pode ser adotada coerentemente em um ‘mundo’ que não é particularmente definido por ela, de modo que as estratégias competidoras (estratégias que pertencem a paradigmas diferentes) não podem ser adotadas no mesmo ‘mundo", afirma Lacey, que logo conclui: “as estratégias AD e as estratégicas aristotélicas não podem ser simultaneamente adotadas para explicar e predizer os fenômenos do mundo da experiência vivida. Talvez enganado por sua metáfora, tratou Kuhn toda competição estratégica como se ela fosse a competição entre as estratégias AD e as estratégias aristotélicas, e assim ele não reconheceu os modos pelos quais as estratégias competidoras podem ser complementares”. As estratégias aristotélicas e as estratégias AD pode, assim, ser adotadas ao mesmo tempo, mas não no mesmo contexto social.


Por exemplo, as interações envolvidas na investigação da produção de cultivos como uma função de métodos amplamente replicáveis podem interferir na manutenção da estabilidade ecológica local; e engajar-se no experimento envolve modificação dos cenários "naturais", cuja observação fornece dados sob algumas estratégias. Mesmo assim, o mundo da experiência vivida, por fornecer (mais ou menos) espaços separados para a prática, por exemplo, tanto da agricultura dependente de biotecnologia quanto da agroecologia, pode também fornecer espaços nos quais as estratégias necessárias para a pesquisa que respectivamente informa essas práticas possam também ser adotadas, mas não simultaneamente nos mesmos espaços.


Ao final do artigo, Lacey explica que sua defesa do pluralismo metodológico envolve as seguintes afirmações: 1) a pesquisa conduzida a partir de estratégias não redutíveis às estratégias AD pode ser fecunda; 2) alguns fenômenos, ou aspectos deles, somente podem ser entendidos de forma adequada se seguirem a pesquisa conduzida a partir de estratégias não AD. Isso leva Lacey a salientar que os valores derivados de diferentes culturas e incorporadas em formas de vida radicalmente diferentes apontam para a importância das questões abertas às respostas baseadas em evidências empíricas, “mas deixadas de lado pela ciência moderna em voga, acerca dos objetos materiais (por exemplo as sementes) que não estão dissociados de seu lugar na experiência humana e nas estruturas sociais”.

Voltando àquela questão sobre o uso do termo “ciência”, que coloquei no início do artigo, Lacey esclarece que a palavra “ciência”, da forma que é empregada no seu artigo, pode incorporar todas as formas de conhecimento “e não lhes impõe um molde no qual, supostamente, estaria encaixada toda a investigação científica”. Por fim, Lacey afirma:


Os autores supracitados preferem falar dessas formas de conhecimento não como "científicas", mas como "outros conhecimentos", ou "conhecimentos descolonizados", terminologia que os autores pretendem que tenha conotações relativistas. Não é importante para o meu argumento a maneira como a palavra "ciência" é usada, e se essas outras formas de conhecimento são, ou não, chamadas "científicas". O que importa é que elas têm credenciais empíricas legítimas, que a posse dessas credenciais não depende do uso de metodologias AD, que elas as exibem de um modo em nada inferior àquele exibido pelas estratégias AD, e que estão abertas ao desenvolvimento contínuo em bases empírica e teórica.


Retomando Feyerabend, podemos destacar o que ele dizia sobre a importância da proliferação de teorias e da multiplicidade de tradições científica para um ambiente mais democrático. Para Feyerabend, a dominação de uma única ciência - cujo desenvolvimento está submetido às estratégias AD, no linguajar de Lacey - ameaça o bem-estar humano e da própria ciência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário