terça-feira, 5 de novembro de 2013

Para valorizar um saber tradicional não é preciso trazê-lo à condição de ciência

Comentário ao post Uma divulgação das ciências
Por Roberto Takata, do Blog Gene Repórter

Discordo que a questão dos seringueiros seja exemplo da não universalidade das ciências. É apenas um caso (entre tantos) de um modelo científico que não funcionou. Refutação de modelos faz parte do processo científico.

Para valorizar um saber tradicional, não é preciso trazê-lo à condição de ciência. É possível, já que esta última expressão é um tanto polissêmica. Mas parece trazer mais ruído do que informação.

Por exemplo, um saber tradicional que atualmente é um tanto quanto raro: atos sacrificiais (de humanos) para aplacar forças naturais. É um saber tradicional. Chamemos de ciência. Afora a questão ética (que é o que preocuparia a maioria das pessoas que não coadunam com essa prática), qual o ganho em considerá-los científicos? Como fazer frente com o fato de que as forças naturais atuam independentemente da morte de pessoas?

Por outro lado, o saber tradicional de colocar uma vassoura de ponta cabeça atrás da porta para afugentar visitas indesejadas. Qual seria o ganho de chamar isso de ciência? A valorização disso como um traço cultural benigno - sem maiores consequências eticamente indesejáveis e até algum ganho social (o estreitamento de laços afetivos no compartilhamento desses saberes) - pode perfeitamente ocorrer considerando-se como algo não científico e até cientificamente refutado.

Chamar saberes tradicionais de ciência, parece-me, mais desqualificá-los como tais - só tendo importância quando considerados ciência (ainda que por expansão semântica de um sentido mais estrito).

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Resposta do blog:

Na verdade, Takata, no meu ponto de vista a separação entre ciência e não-ciência é artificial e deveria ser abolida. No texto, acabei utilizando "ciência" para denominar não só a Ciência, mas também os conhecimentos tradicionais. Mas entendo sua crítica.

A provocação que faço no texto é no sentido de mostrar que muitas visões científicas são reducionistas e acabam limitando a abundância da vida. Não pretendo levar os conhecimentos tradicionais à condição de ciência, nem tomar o caminho inverso. 

Na verdade, apenas tentar - ainda que com dificuldade - derrubar essa compartimentação que a racionalidade insiste em fazer da vida. O livro Ciência em Ação, do Bruno Latour, tem um bom exemplo do que estou querendo dizer se não me engano no último ou penúltimo capítulo, quando ele fala do caso da meteorologia.

4 comentários:

  1. Caro, de Pierro,

    É artificial, mas discordo quanto à abolição. É uma distinção útil e até necessária em diversas ocasiões práticas - como no caso das tentativas dos criacionistas em empurrarem suas crenças religiosas como científicas para burlar a separação igreja x estado nos EUA. Não é algo estanque e estático. Há vários critérios de demarcação. Daí em uma outra postagem de eu ter perguntado se tudo valeria como ciência - astromancia, lisenkoísmo, etc.

    A preocupação com conferir ao saber científico (aqui no sentido estrito) um status quase divino é, realmente, danoso. E a ameaça que isso pode representar contra o saber tradicional é algo que precisa ser levado em séria consideração (vejo aqui um paralelo muito forte com a questão do preconceito linguístico e da pressão que o endeusamento da norma culta tem sobre as variantes linguísticas populares - e aqui também vejo como necessidade, não a abolição da distinção entre essas formas, mas a valorização da duas e o entendimento do contexto de aplicação de ambas).

    Quando falo em "status quase divino" e "endeusamento" é porque a mesma coisa pode ocorrer quando, por exemplo, dá se um peso excessivo a um saber religioso (ou a qualquer forma particular de conhecimento) - o que vemos em regimes teocráticos. Aí também não é o caso de abolir a distinção do saber religioso do saber não religioso (e até antirreligioso), mas de reconhecer suas limitações e contextos de aplicação. Podemos rezar, mas não será isso que construirá um prédio ou evitará que ele desabe se as fundações não forem corretamente calculadas.

    O saber tradicional, de modo geral, tem um alcance muito limitado - para uma dada cultura, para um dado ambiente. A técnica que uma dada comunidade de pescadores desenvolve, via de regra, valerá somente para um dado tipo de pescado e para aquela localidade: ali há esse tipo de peixe ou crustáceo que se comporta de um dado jeito. Um saber prático, em geral, talhado por tentativas e erro (nesse sentido se aproxima de muitos saberes científicos).

    Mas a grande característica do conhecimento científico é exatamente as grandes teorizações. As generalizações - mesmo as que nascem de casos particulares. A suposta queda da maçã, ligada à trajetória da Lua, à órbita dos planetas, ao movimento dos corpos celestes. A especiação em Galápagos, à especiação em ilhas, à especiação nos continentes a uma teoria geral da evolução (ainda a ser testada em um âmbito além da Terra). Nesse movimento da generalização, necessariamente, incorre-se em reducionismo.

    Mas reducionista também são, em geral, os saberes tradicionais. São mais ricos em detalhes, mas localmente. Os detalhes que contam para aquele local - tem uma rocha ali, então temos que evitar o barco se aproxima à boreste porque a maré vazante da Lua cheia cria uma corrente que pode atirar a embarcação para lá, e a madeira já um tanto carcomida pelas cracas não vai aguentar.

    O cientista (e nisso há algum grau de afastamento da maioria dos saberes tradicionais) tentará generalizar. Mas não poderá mais ser *aquela* rocha. Será uma rocha genérica ou algum obstáculo semisubmerso genérico. A exata conformação e a exata composição do casco, em um primeiro momento, podem ser deixadas de lado. Sim, incorre-se no risco do paradoxo da irrelevância: ao se deixar de lado um item que se considera, inicialmente, desnecessário e confuso (como a ação de refúgios ou a composição do casco), na verdade, estar se deixando de lado um item crucial (e aí o teste do tempo e de hipótese poderão dizer).

    O reducionismo é necessário porque, em primeiro lugar, é impossível se abarcar todas as variáveis. Os modelos se tornam intratáveis. E é impossível se saber de todas as variáveis possíveis que importam para o fenômeno. Há virtualmente infinitas variáveis para qualquer caso. Em segundo lugar, há variáveis que, pelo que podemos saber, são mesmo desprovidas de poder explicativo, digamos a cor dos dados no resultado do lançamento (e aí é navalha de Occam mesmo).

    (cont.)

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  2. (cont.)


    Mesmo o saber local não considera todas as variáveis. Certamente os seringueiros caçadores não estão levando em consideração se os refúgios têm formato estrelado ou oval. Os pescadores não estão levando em consideração se a salinidade da água está baixando 0,1 miliosmol por ano naquela enseada.

    Mas, voltando ao reducionismo da maioria dos modelos científicos. Essa redução, além do fato de poder ter deixado de lado alguma variável importante, pode prejudicar o acerto em uma dada circunstância específica, mas acertar no atacado. Se eu deixo de considerar a velocidade do vento, o momento angular imposto aos dados, etc. meu modelo estatístico de previsão do resultado do lançamento de dados - dando uma equiprobabilidade para todos os eventos possíveis (bem, nem todos, dando uma chance zero de o dado ficar parado sobre uma de suas arestas ou quinas) - não será capaz de prever um lance em específico, mas no longo curso de vários lançamentos, meu erro será relativamente pequeno. (Ou grande, se não levei em consideração a manipulação dos dados, sendo que se trata de uma peça viciada.)

    Um região pode não obedecer ao modelo de sobrecaça - porque lá tem refúgio, porque lá as espécies se adaptaram, porque houve uma migração não considerada... -, e ainda assim o modelo poderia descrever bem o que ocorre em quase todas as demais regiões tropicais do planeta. (Não que seja necessariamente o caso do modelo de Peres.)

    []s,

    Roberto Takata

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  3. Opa, este trecho ficou estranho:
    "A preocupação com conferir ao saber científico (aqui no sentido estrito) um status quase divino é, realmente, danoso."<=A preocupação é válida. Danosa é tratar a ciência como "divina".

    []s,

    Roberto Takata

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  4. Achei este trecho de Londa Schiebinger 1999. Has feminismo changed science?
    "The term 'indigenous knowledges' is admittedly problematic, but I use it here to refer to knowledges not recognized as 'science.' Achoka Awori has suggested that this term—meaning knowledge systems native to a
    place—is preferable to the term 'traditional science,' which has been used to refer to rote application of existing technologies.Yet another term, 'ethnoscience,' has been used primarily by anthropologists to refer to the
    knowledge systems unique to particular cultures. Because anthropologists commonly study 'primitive' peoples, ethnoscience has tended to be devalued by Westerners as primitive—static, backward, based on myth and
    superstition. Furthermore, the philosopher of science Sandra Harding has argued that 'ethnoscience' applies as much to Western as to other forms of science.‘ ‘Maximizing cultural neutrality,' she maintains, 'is itself a
    culturally specific value.' Abstractness and formality express 'distinctive cultural features, not the absence of any culture at all.'"

    []s,

    Roberto Takata

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